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• 1:33 am 0
Suspensão
Se antes mantinha este blog na esperança que a palavra me voltasse, agora creio que é só teimosia.
A verdade é que não tenho nada mais a dizer. Ou talvez tenha tanto que não caiba em palavras. Não sei — mas sei que já vai longe o tempo em que a vida gotejava seus volteios e momentos em minhas rimas.
Estranhamente, penso nos paralelepípedos da minha cidade, lustrosos e irregulares, seu brilho de ônix nas noites do constante verão. E o som das rodas do carro sobre as pedras, o ritmo da jornada até minha casa.
Penso naquela casa e na avenida larga com a música de paralelepípedos – e assim ilustro meu desalento; e assim me distraio desse cansaço.
Esse espanto cansado, espalhado pela minha pele.
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• 1:19 am 0
Pétalas
Delicadeza para os dias em que a vida dói – grotesca, estupidamente.
Gnossienne nº5, de Eric Satie
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13, Novembro, 2009 • 7:53 pm 3
Peixinho
Bibi cantando Zeca Baleiro e Hilda Hilst
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• 7:35 pm 0
Memória – 2
Hilda Hilst
Há certos rios que é preciso rever.
Por isso, volto, Ricardo, àquelas margens
Onde na sombra de um verde descansavaa
E um canteiro de limo sob os nossos pés
Adiante desaguava. Volto, seguindo a viagem
De mim mesma e aos poucos convergindo
Oculta, vária,
Até fechar um círculo e entender
Essa asa de fogo sobre as coisas.
Talvez neste canto eu direi
Das estreitas passagens, do lodo
Convulsivo dos ancoradouros, dos funerais
Que vi, para chegar à luz da primeira paisagem.
Meus olhos deram volta à ilha.
Sigo pelos caminhos, transfiguro-me
Sei que um igual destino eu já cumpri
E ao mesmo tempo em tudo me descubro
Casta e incorpórea. Sou tantas,
Tantos vivem em mim e pródiga descerro-me
Pródiga me faço larva e asa.
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2, Novembro, 2009 • 10:37 pm 0
marginal
eu vejo as cores desse dia ensolarado e quente. as cores e as pessoas. vejo as cores e as pessoas misturadas a elas, indistintas. elas fingem que não me vêem, eu finjo que acredito e ninguém ousa reconhecer em voz alta a minha estranheza.
essa estranheza que não é bela, é a unicidade do ímpar, do desencaixado. eu e minha brancura transcendental no meio de todos, marrons e ressequidos, os filhos do sol, ao redor da piscina azul reluzente, das pedras de areia escaldada. essas pessoas igualáveis em seu esforço para se imiscuir, para se dissolver na multidão de semelhantes. e então o esforço para se sobressair, então a busca pelo brilho , em terra de cego quem é mais cego é rei?
ah que me distraio e assim evito o âmago do meu desencontro, o coração da minha própria unidade; evito meu coração e meu estado de um – eu olho as pessoas e tudo nelas realça minha imparidade. minha solidão.
enquanto elas se movem em massa uniforme e ocre – eu, aqui desalojada, aqui eu brilho, alvura desconfortável sob meu chapéu de palha e uns óculos vermelhos e também vermelhos são meus pensamentos, sabe? vermelho é tudo aquilo que lateja e se esbarra no meu crânio, como se nós dois e nossas lembranças fôssemos vistos através de uma névoa de sangue vivo, pulsante — mas, vivo? vivo? o que de nós dois ainda vive, senão essas lembranças que eu carrego enterradas na minha estranheza?
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• 10:28 pm 0
There must be some way outta here
1, Novembro, 2009 • 2:00 pm 0
Relendo Raduan Nassar – II
Lavoura arcaica – trecho
O tempo, o tempo é versátil, o tempo faz diabruras, o tempo brincava comigo, o tempo se espreguiçava provocadoramente, era um tempo só de esperas, me guardando na casa velha por dias inteiros; era um tempo também de sobressaltos, me embaralhando ruídos, confundindo minhas antenas, me levando a ouvir claramente acenos imaginários, me despertando coma gravidade de um jugamento mais áspero, eu estou louco! e que saliva mais corrosiva a desse verbo, me lambendo de fantasias desesperadas, compondo máscaras terríveis na minha cara, me atirando, às vezes mais doce, em preâmbulos afetivos de uma orgia religiosa, esfolando as farpas sanguíneas de nossas cercas, me guiando até a gruta encantada dos pomares! que polpa mais exasperada, guardada entre as folhas de prata, tingindo meus dentes, inflamando minha língua (…)
…
O tempo, o tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso, ele próprio conhecendo seus caminhos, recolhendo e filtrando de vária direção o caldo turvo dos afluentes e o sangue ruivo de outros canais para com ele construir a razão mística da história, sempre tolerante, pobres e confusos instrumentos, com a vaidade dos que reclamam o mérito de dar-lhe o curso, não cabendo competir com ele o leito em que há de fluir, cabendo menos ainda a cada um correr contra a corrente, ai daquele, dizia o pai, que tenta deter com as mãos seu movimento: será consumido pelas águas (…)
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31, Outubro, 2009 • 9:43 pm 2
Relendo Raduan Nassar
Um copo de cólera – trecho
(…) eu estava dentro de mim, precisava naquele instante é duma escora, precisava mais do que nunca – pra atuar – dos gritos secundários duma atriz, e fique bem claro que não queria balidos de platéia, longe disso, tinha a lúcida consciência então de que só queria meu berro tresmalhado, e ela nem tinha tanto a ver com tudo isso (concordo que é confuso, mas era assim), eu estava dentro de mim, eu já disse (e que tumulto!), estava era às voltas c’o imbróglio, co’as cólicas, co’as contorções terríveis duma virulenta congestão, co’as coisas fermentadas na panela do meu estômago, as coisas todas que existiam fora e minhas formigas pouco a pouco carregaram, e elas eram ótimas carregadeiras as filhas-da-puta, isso elas eram excelentes, e as malditas insetas me tinham entrado por tudo quanto era olheiro, pela vista, pelas narinas, pelas orelhas, pelo buraco das olheiras especialmente! e alguém tinha que pagar, alguém sempre tem que pagar queira ou não, era esse um dos axiomas da vida, era esse o suporte espontâneo da cólera (quando não fosse o melhor alívio da culpa) (…)
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30, Outubro, 2009 • 10:54 am 9
Só eu…
… que acho que esse blog está com cara de repartição pública?
EDITADO
Não acho mais. Agora acho que está com cara de … seilá.
Não sei o que acho.
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24, Outubro, 2009 • 12:02 am 0
Visitantes Poéticos
ah! cão
que sabe na ponta da língua
o gosto desta feridade noite no raro sonho
pode ser que ele desça de Sirius
e sussurre:te lambo
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23, Outubro, 2009 • 12:39 am 2
I’m gonna love you till the Heaven stops the rain
22, Outubro, 2009 • 10:18 pm 3
impublicáveis
há um turbilhão de palavras que eu escrevo compulsivamente enquanto uns dormem, outros sonham e alguns talvez amem; nessas palavras eu me afogo, elas me distraem da minha dor, do meu próprio sofrimento — este que eu escondo, mas segue me envenenando as entranhas, me azedando o sangue.
escrevo e me escondo, escrevo e fujo.
20, Outubro, 2009 • 4:15 pm 3
Mais luzente quando não estás
De Zeca Baleiro e Hilda Hilst, ouça Canção VI, com Ná Ozetti
Três luas, Dionísio, não te vejo.
Tres luas percorro a Casa, a minha.
E entre o pátio e a figueira
Converso e passeio com meus cães.
E fingindo altivez digo à minha estrela
Essa que é inteira prata, dez mil sóis
Sirius pressaga
Que Ariana pode estar sozinha
Sem Dionísio, sem riqueza ou fama
Porque há dentro dela um sol maior:
Amor que se alimenta de uma chama
Movediça e lunada, mais luzente e alta
Quando tu, Dionísio, não estás.
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19, Outubro, 2009 • 6:43 pm 0
Cantares – XXXVIII
Hilda Hilst
Toma-me ao menos
Na tua vigília.
Nos entressonhos.
Que eu faça parte
Das dores empoçadas
De um estendido de outonoDo estar ali e largar-se
Da tua vida.Toma-me
Porque me agrada
Meu ser cativo do teu sono.
Corporifica
Boca e malícia.
Tatos.
Me importa mais
O que a ausência traz
E a boca não explica.Toma-me anônima
Se quiseres. Eu outra
Ou fictícia. Até rapaz.
É sempre a mim que tomas.
Tanto faz.
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• 6:20 pm 0
Don’t swallow this time – II
Antony and the Johnsons – River of sorrow
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• 1:54 am 2
Don’t swallow this time
14, Outubro, 2009 • 9:00 pm 2
negativo
resta em nós a tristeza do que não fomos.
sombra que cresce na madrugada insone
em azul, em púrpura e vinho —
em sangue pisado.
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10, Outubro, 2009 • 12:44 pm 3
fênix em verso
sinto falta
de quando me dissolvia
na ponta do lápis,
para então renascer
- breve e desconhecida -
em poesia.
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25, Setembro, 2009 • 6:41 pm 2
Além alma (uma grama depois)
Paulo Leminski
Meu coração lá de longe
faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze:
NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.
Pra que me serve um negócio
que não cessa de bater?
Mais me parece um relógio
que acaba de enloquecer.
Pra que é que eu quero quem chora
se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?
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