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Pequena morte (2)

Desenho: Maína Junqueira

Corujices

Da poetinha Bibi:

Era uma vez uma menina
chamada Beatriz
as vezes desenhava e escrevia relacha-
do as vezes muito capri-
chado
as vezes queria brincar com
as pessoas as vezes queria
brincar sozinha

Era uma menina muito gentil
que falava bom dia e boa tarde
e tinha um porteiro muito
amigo dela

Essa menina queria ser amiga
das outras pessoas
vai fazer 7 anos e é
muito esperta

Fim

Mais palavra imagem

Desenho de Maína Junqueira

A hora do cansaço

Do sonho de eterno fica esse gozo acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

Carlos Drummond de Andrade

Dos visitantes poéticos

Que sei eu, senão o que vejo e sinto?
uma imagem viva
que lavra a palavra
anatomia
num delírio de cor
curvas e contornos
sólidos
de perder a respiração

Meg

Desenho de Maína Junqueira

A fênix

Bruno Tolentino

Algoz e torturado
à superfície são
uma excrescência só.
Da tenaz à carcaça
a mesma sombra passa
indiferente aos dois.
Num mesmo giro esvaem-se
uma garra e uma face. Continuar Lendo »

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Carlos Drummond de Andrade

Doação ilimitada…

Nunca viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
E eu sei que ela se vê bem…
Só se aquele mesmo vento
fechou teus olhos, também…

Cecília Meireles

Resguardando silêncio

Só não me peçam mais do que algumas palavras rabiscadas e a esmo espalhadas, lá e cá, como se cuspidas de alma atormentada, sentimentos deformados, incompletos e inconsequentes.

Só não me peçam sentido ou coerência.

Ouça Misty, com Sarah Vaughan





Ouça Autumn Leaves, com Nat King Cole

Thiago de Mello

A Carlos Heitor Cony

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança. Continuar Lendo »

Ninguém me habita

Ninguém me habita. A não ser
o milagre da matéria
que me faz capaz de amor,
e o mistério da memória
que urde o tempo em meus neurônios,
para que eu, vivendo agora,
possa me rever no outrora.
Ninguém me habita. Sozinho
resvalo pelos declives
onde me esperam, me chamam
(meu ser me diz se as atendo)
feiúras que me fascinam,
belezas que me endoidecem.

Thiago de Mello

Tempestade na alma

Diga-me por favor que horas são para eu saber que estou vivendo nesta hora.

A criatividade é desencadeada por um germe e eu não tenho hoje esse germe mas tenho incipiente a loucura que em si mesma é criação válida.

Mas se não compreendo o que escrevo a culpa não é minha. Tenho que falar pois falar salva. Mas não tenho uma só palavra a dizer. As palavras já ditas me amordaçaram a boca. O que é que uma pessoa diz à outra? Fora “como vai?” Se desse a loucura da franqueza, que diriam as pessoas às outras? E o pior é o que se diria uma pessoa a si mesma, mas seria a salvação, embora a franqueza seja determinada no nível consciente e o terror da franqueza vem da parte que tem no vastíssimo inconsciente que me liga ao mundo e à criador inconsciência do mundo. Hoje é dia de muita estrela no céu, pelo menos assim promete esta tarde triste que uma palavra humana salvaria.

Abro bem os olhos, e não adianta: apenas vejo. Mas o segredo, este não vejo nem sinto. A eletrola está quebrada e não viver com música é trair a condição humana que é cercada de música. Aliás, música é uma abstração do pensamento, falo de Bach, de Vivaldi, de Haendel.

Clarice Lispector

Noturno

O farfalhar da minha saia traz de volta estes pássaros, estes mesmos que me deixaram quando a lua se fez alta e nova e tantas luas se passaram até que hoje o canto da seda os reunisse outra vez. Ah, que eu vivo cercada por meus imaginados companheiros escuros e tu os conhece tão bem que ouviste ‘alto e claro’ o som de sua revoada. Desconfio que aí foram matar a saudade que tenho de ti e não te conto; e se até aí voaram talvez tenha sido para celebrar o que não fomos — que até disto sinto falta: do sonho cujo final se tingiu rubro ‘não’ em um muro perdido distante, em quente novembro de cinco anos passados. E se agora volto a te chamar é que a mesma necessidade que me impeliu a ti volta a me acordar. E mesmo sabendo que te perturbo te rabisco estas linhas: para me lembrar que um dia foste esperança e depois foste invencível negativa. E foste então amigo e amparo — mas ah!, como eu precisava do homem, agora te peço: devolve meu sonho decomposto, devolve o que de mim ficou preso no passado. Devolve meus pássaros, devolve minha ave opala negra de olhos inflamados que ela é nada menos que um pedaço alado e umbroso da minha alma, ela é a fênix negra, meu duplo escuro, meu gêmeo oposto, ela é a imagem que se confunde à minha quando ao espelho vejo a mulher de olhos revoltos e cabelo incendiado.

O solitário

Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.

Ainda uma coisa, só, no imenso mar
das coisas, e uma luz depois do escuro,
um rosto extremo do desejo obscuro
exilado em um nunca-apaziguar,

ainda um rosto de pedra, que só sente
a gravidade interna, de tão denso:
as distâncias o extinguem lentamente
tornam seu júbilo ainda mais intenso

Rainer Maria Rilke
(Tradução: Augusto de Campos)

É forçoso dizer que me faz falta
o poema que existe e nunca li,
como se alhures
brotassem coisas que não vi
e que distantes,
carentes,
dependessem de mim.
Algo como se o intocado fosse a sinfonia
inacabada, mais:rasgada
como o quadro nunca esboçado, perdido
na abatida mão do artista.

O ausente
é uma planta
que na distância se arvora
e é tão presente
quando o passado que aflora.

E a literatura, mais que avenida ou praça
por onde cavalga a glória, é um monumento,
sim, de dúbia estória: granito e rima,
alegoria ao vento, lugar onde carentes
e arrogantes
cravamos nosso nome de turista:
-estive aqui, desamado,
riscando a pedra e o tempo
expondo meu sangue e nome
com o coração trespassado.

Affonso Romano de Sant’Anna

Pintura

Eu sei que se tocasse
com a mão aquele canto do quadro
onde um amarelo arde
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio
a ponta dos dedos

Ferreira Gullar

Aos amantes é lícito a voz desvanecida.
Quando acordares, um só murmúrio sobre o teu ouvido:
Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo, senhora,
Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês
Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo
Ronda escurecida?

Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento
Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor
Quando tudo anoitece? Antes lamenta
Essa teia de seda que a garganta tece.

Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito
Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome
Tão intenso meu canto, tão flamante meu preclaro tecido
Que o mundo inteiro, amor, há de cantar comigo.

Hilda Hilst

Insulados

advirto:

a solidão que enxergas
aqui a meu lado
não reconhece fronteiras

espalha-se pelas frestas
invade teus dias
tuas noites permeia

por ela ungidos,
seguiremos irmanados

obscuros e desencontrados

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