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Novo blog…

Que é para treinar a escrita enquanto me ocupo vivendo – Eu Sou Laranja.

 

 

Bendigeidfran

Lá onde se ergue o cumo da mais alta montanha
Onde se confundem e misturam as nuvens e o céu
Lá é o meu reino, Eu que governo o limbo, a chuva e a escuridão

Com um grito fantástico, romperei o silêncio que prenuncia a aurora
E seguirei para a terra dos homens com pés silenciosos feito a morte
Eu, que sei dos segredos que sussurram as sombras,
Virei revestido pela noite, acompanhado do meu séquito:
Meus irmãos negros alados, meus irmãos corvos

Quem não me conhece estremecerá e o pavor tomará suas entranhas
Pois Eu a tudo enxergo, até o fel, até a desesperança
E a amargura que correm pelo sangue dos descrentes

Quando eu fizer soar estrondoso meu cajado sobre a terra árida
Sobre os homens cairão mil anos de oblívio
E meu sangue escorrerá pela terra a tudo enegrescendo
A tudo repovoando com palavras mágicas e com a antiga ciência
Que os homens enterraram sob deuses e templos estéreis

Então, sob outro estalar do meu cajado, derramar-se-á sobre eles
O conhecimento de mundos esquecidos
A magia dos deuses inomináveis, cantada em línguas obscuras

E quando eu esticar minha mão esquerda as nuvens se dissiparão
Soprará furioso e gélido o vento que anuncia o retorno do oculto
Surgindo nos sonhos dos herdeiros das sombras
E a meus filhos será revelado o verdadeiro conhecimento
Que minha voz cravará nas pedras: as letras da minha profecia

Quando o vento soprar os compassos do meu chamado
Se erguerão enfeitiçadas a terra, as folhas e a bruma
E aqueles esmaecidos caminhos que levam ao tempo mágico
Se farão nítidos aos que atenderam à minha voz
Porque minhas palavras falam de dentro do peito de cada homem
Densas e escuras como o sangue que corre em suas veias
Elas sopram em sua alma como sopra a brisa
Em que navego com meus irmãos corvos

Enquanto as horas escoam intermináveis pela madrugada fria
Sobrevoarei a terra descoberta com meu bando errante
Quando em trovão se ouvir pela última vez meu cajado
A romper o espesso véu do tempo, anuncia-se minha partida
Mas aqui deixarei minhas pedras e meus corvos encantados
Para que minhas palavras se mantenham vivas entre os homens

Permanecerei escondido entre as dobras do tempo
Até que Eu seja esquecido, até que reste nada senão meu legado:
Meu canto dissolvido no vento, as pedras e os corvos
Até que meu reino se misture, novamente, às trevas
Até que Eu seja nada senão uma réplica da noite,
Sombra grave que paira sobre os sonhos, etérea, escura,
Tecida em magia ancestral – e sempre presente.

 

*****
- Nota:
O poema foi inspirado por este desenho aqui.
Inseri no meio dos corvos alguns dos meus pássaros negros, esses que me acompanham há tempos, que atravessam até a linha do imaginário: vão também acompanhar minhas personagens. Não poderia ser diferente aqui, portanto – e os meus pássaros, atentem!, se fazem reconhecer pelas pupilas incendiadas.

Carta a Ulisses

Escrevo para aquele que está tão distante como se em outro continente. Mas o que nos separa não é o oceano: é um deserto.

25 de outubro de 2011, 01h47

Querido,
Como está?

Por aqui as coisas vão andando e evoluindo. Não na velocidade dos meus anseios, mas em um ritmo próprio, compassado feito valsa.

Parece que a vida tem um jeito de ser vivida que não se faz apressar pelo meu relógio. Mas que de certa forma ri e às vezes até se compadece de mim, como se eu fosse nada mais que uma criança afoita nos seus quereres.

O tempo, por outro lado, corre largo, corre solto e ligeiro, acrescentando uns números ingratos ao meu corpo; mas te juro que me recuso a deixar que números definam ou cerceiem minha alma.

Se o final do ano não é das minhas estações preferidas é porque meu ano se finda e recomeça em datas que são alheias ao ano fiscal, sabe? Meus circadianos não se medem pelo calendário cristão, daí que fico nesse descompasso estranho, como que perdida entre as espirais de uma dimensão desconhecida.

Acho que faço pouco sentido, talvez? É o avançado da hora, a insônia e esse silêncio excessivo, que me perturba um pouco.

Escrevi mesmo para dizer que sinto saudades.

Cama de gato

É que ali, meu rosto encostado no seu peito quente, ah! ali aconteceu de novo: aqueles sentimentos antigos, dissolvidos na memória e no passado, agora refeitos e renascidos. Como dedos que se movem e entrelaçam aquele único pedaço de barbante em novos desenhos e antigas histórias. Um barbante e tudo que nele se trespassa – e esse desejo transfixado no meu flanco. Minhas veias sinuosas por onde navegam nossas noites, tecidas e cantadas em ciclos que se renovam e ressurgem a cada laçada; um suspiro a cada curva, a cada volta do barbante.

E se os dedos do destino assim nos trançam e se eu me quedo embriagada demais para resistir? Se meu corpo é nada senão lasso e cativo do seu?, se a cada noite eu me enredo mais pelas tramas do fio que nos retrata?

E se eu restar embaraçada por esses sentimentos, as pernas tortas e as mãos crispadas, o peito rasgado sob o céu aberto, enquanto ouço ao longe a revoada e o barulho das suas asas?

Ilustração “Cama de Gato #2″ por Cecília Murgel

O dom das línguas estranhas

Ah, então ando calada? É que cantei até final aquele meu amor – e também aquela tristeza. E o que renasce nas minhas entranhas prescinde das minhas palavras; o novo tem sua voz própria, que verseja e dança no ar, valsando em torno e no meio daqueles pássaros, aqueles meus escuros pássaros finalmente retornados.

E essas novas palavras, pertencentes a uma língua até então a mim desconhecida, elas se debruçam lânguidas sobre o parapeito dos meus sonhos e se elevam em sua dança hipnótica, deixando da minha casa todas as portas abertas, livres saídas e chegadas, a qualquer nota que se faça soar.

Foi assim que ele, que por ali pairava com seus próprios pássaros, veio pelas portas, janelas e frestas; veio pela calha, pela clarabóia, desceu pelas telhas inundando toda a minha casa, o meu corpo, as minhas veias, a minha carne.

Foi porque ele desceu também pela minha garganta e subiu minhas pernas; foi pelo meu ventre todo tomado, meu hálito misturado no dele. E não há, ali fora da minha varanda, ouvido capaz de compreender nosso canto.

Chasing butterflies

Strange currencies

I don’t know why you’re mean to me
When I call on the telephone
And I don’t know what you mean to me
But I want to turn you on, turn you up, figure you out, I want to take you on

These words, “You will be mine”
These words, “You will be mine” all the time

The fool might be my middle name
But I’d be foolish not to say
I’m going to make whatever it takes,
Ring you up, call you down, sign your name, secret love,
Make it rhyme, take you in, and make you mine

These words, “You will be mine”
These words, “You will be mine” all the time, oh
I tripped and fell. Did I fall?
What I want to feel, I want to feel it now

You know with love come strange currencies
And here is my appeal:

I need a chance, a second chance, a third chance, a fourth chance,
A word, a signal, a nod, a little breath
Just to fool myself, to catch myself, to make it real, real

These words, “You will be mine”
These words, “You will be mine” all the time, oh

These words, “You will be mine”
These words, they haunt me, hunt me down, catch in my throat, make me pray,
Say, love’s confined, oh

19

Hilda Hilst

Promete-me que ficarás
Até que a madrugada te surpreenda.
Ainda que não seja de abril
Esta noite que desce.
Ainda que não haja estrela e esperança
Neste amor que amanhece.

Pretérito

A saudade  lateja tão calma e sutilmente que fica ao fundo, trilha sonora suave  que me acompanha pelos dias. E eu prossigo vivendo, com pressa, sem atentar para seus acordes, seu ritmo delicado. Até que me distraio de mim, até que me perco em mim e a ela toda jorra. E me inunda a pele, os nervos, me preenche súbita; me toma por completo teu cheiro, tua boca; me toma de assalto a tua falta, e aquelas noites de amor que vivemos, azuis, azuis…

E findas.

Morfeu

Ah que o quotidiano que se dobra à sucessão de uns dias governados por uma cigana – talvez?, um espírito livre qualquer que me trouxe inusitadas ainda que sedutoras surpresas. Talvez tenha sido quem fez voltarem meus pássaros, atraídos pela canção antiga, em língua que jamais ouvi mas sempre soube, sempre me falou; e que me carregou pela insônia, pelas madrugadas de tumultuados sonhos, assombrados por uma esperança que me doía nos ossos.

Faço pouco sentido? Mas o que quero contar, nestas linhas que nunca te chegarão aos olhos, é das reviravoltas tamanhas que retorcem meus dias. E meus passos que vão como se guiados por um raio de sol, prismático e mágico, estes passos que por pouco não desenham espirais pela calçada dura. Como se em valsa.

Quero te contar também das noites em que acordo e mantenho fechados os olhos, presa a respiração, que é para que aqueles momentos nunca se acabem, teu cheiro e o tempo aprisionado em meus pulmões; a vida pulsando na cadência do teu peito, teu sangue correndo, salgado e espesso, se confundindo com o que é meu, como se entrelaçam nossos braços e pernas na madrugada fria.

E se é com uns dedos lunares que te escrevo, sem qualquer discernimento se vivo, se sonho? E se aquele pássaro de obsidiana e olhos fulgentes – ah!, ah! – e se aquele pássaro é senão um do teu bando, ou uma das tuas formas? Das diversas formas que agora percebo que atravessam a minha vida? Se noites e dias, vigília e sonho se confundem como nosso sangue e nossos corpos; se indistintamente danço entre os mundos?

Ssshh, ouço teu sussurro, tua mão que me aquieta os pensamentos com leve toque. Ssshh, e me aperta e me enreda mais e não sei nada senão de umas estrelas que espiam pela fresta da janela.

Ssshh, me rendo e me dissolvo…

Four Letter Word

Neil Gaiman

Let us begin this letter, this prelude to an encounter, formally, as a declaration, in the old-fashioned way: I love you. You do not know me (although you have seen me, smiled at me). I know you (although not so well as I would like. I want to be there when your eyes flutter open in the morning, and you see me, and you smile. Surely this would be paradise enough?). So I do declare myself to you now, with pen set to paper. I declare it again: I love you.

 

Ave sso

Não foi ainda o farfalhar, nem a música de suas penas, mas um arrepio ligeiro, daqueles que me percorre a pele – e a alma! – quando passo por uma sombra, saída do sol. Breve frio que acinzenta levemente o amarelo da calçada, naquele único, naquele único passo!, naquele único passo eu quase senti seus olhos de fogo, como se fossem a minha redenção. Eu, que já fui Senhora e companheira do seu bando negro, a filha do quarto minguante; eu hoje espero inquieta pelo retorno das asas em revoada, essas que hoje quase, ah quase se anunciaram…

Então, com uma sacudida de ombros que silencia a esperança, retomo a caminhada.

Morrígan

Agora te rogo: devolve meu sonho decomposto, mas ainda presente!, devolve o que de mim ficou preso no passado. Devolve meus pássaros, devolve minha ave – opala negra de olhos inflamados, que ela é nada menos que um pedaço alado e umbroso da minha alma. Ela é a fênix negra, meu duplo escuro, meu gêmeo oposto, ela é a imagem que se confunde à minha quando ao espelho vejo a mulher de olhos revoltos e cabelo incendiado.

What is the what

“I cannot count the times I have cursed our lack of urgency. If ever I love again, I will not wait to love as best as I can. We thought we were young and that there would be time to love well sometime in the future. This is a terrible way to think. It is no way to live, to wait for love.”

Dave Eggers, What is the What

das coisas que eu sei

eu sei o que quero agora: que você me abrace, até que eu possa fechar os olhos. e encerrar o horror daqueles dias que vivi. e encerrar cada morte de cada uma daquelas insones horas noturnas.

verdade que seu abraço tem a cadência de valsa, verdade que suas mãos me deslizam as costas como diáfanas borboletas. verdade que você vem em ondas de delicadeza – que não combinam em nada com meus olhos.

sei também que somos efêmeros feito um bater de asas. sei que basta um piscar destes meus olhos de horror para que tudo se dissolva.

ah! que eu sei o que quero agora: que você me abrace até que…

até que.

Só sei que nada sei *

Não sei de amanhã. Isso mesmo: não sei o que vai acontecer – nem me importo. Deixei em algum canto daquela casa vazia as certezas que me sustentavam. Verdade que agora eu ando mais flácida, meio flexível, sei lá; verdade que agora eu ando como se estivesse meio desconjuntada na espinha. E você, tão doce, disse outro dia, ah!, você anda como quem dança. E eu ri. Eu ri meio tragicamente, sem você nem suspeitar, sem você sequer desconfiar o que esconde meu riso que você não adivinha trágico: minhas vértebras mal se equilibram entre os vazios das minhas certezas abandonadas.

Não sei como vivo. E “não sei” anda tão presente na minha vida que inicio com ele dois parágrafos, dois dias, duas semanas e uns meses que foram escoando sem eu saber: só senti. Se eu lhe contasse isso, você daria de ombros, importa é que você sentiu, é o que você sente – é isso que você diria, você que sempre sabe as palavras certas. Você que sempre sabe e não se abala com o tanto que eu não sei. E vai preenchendo tantas lacunas, assim suavemente, assim diretamente, com a mesma segurança com que sua mão se apropria da minha pele, do meu cabelo, madrugada adentro. Você segue, cheio de certezas, implacável. E não me deixa fugir.

(Não que eu tenha tentado com muita seriedade, admito.)

Com tanta sabedoria improvável e inesperada dissolvida na sua juventude – ah, que essa sua juventude calca suas certezas, disso eu sei: já fui assim – constrói para mim um espaço onde o que eu não sei deixa de me assustar e se revela encantador. Assim era quando eu também era jovem e quando o não-saber me inebriava e impelia adiante. E neste espaço que você tece pelas madrugadas, eu me refugio naquelas vezes em que durmo só com sua camiseta e resquícios do seu cheiro.

Não sei mais escrever. Talvez seja temporário. Talvez seja você, que me alivia da tormenta de não-seis. Não sei o que é. Nem quanto vai durar.

Para sempre – você diria. Para sempre – você diz.

E eu sorrio deliciada, de encontro ao seu peito quente. Mesmo (não) sabendo que nada é para sempre.



* Já dizia o bom e velho Sócrates.

Hamletiana

Fico dias imaginando o que vou escrever aqui, ou rabiscando pequenos escritos que eu não tenho vontade de publicar. Porque são meus, porque são pouco, porque … não sei. Por que fazem mais sentido escondidos do que publicados?

E eu sirvo para ter blog se a maior parte do que eu sinto, do que escrevo quando sinto, ou de tudo aquilo que escrever me faz sentir – ah, se tanto sentimento eu mantenho privado, eu sirvo ainda para ter um blog?

Da (não) somatória

Você perguntou minha idade e eu gaguejei. Como explicar que não se conta em números? Que a matemática não serve? – Tenho coração de moça.

Um coração de moça que bate leve e descompassado porque pensa que tem asas. Não tem, não, mas te juro: tantas vezes ele voa…

Yeah! :)

Anil

Agora veio uma tristeza, dessas noturnas e sem razão – não, dessas que a gente finge não saber a razão, que é para não chorar demais. Deu vontade de te acordar, porque assim passa, encostada no teu corpo quente eu esqueço e durmo; muda a perspectiva dos meus problemas e tristezas: ratos e elefantes, como no livro da Alice.

E, em vez de ir me enroscar nos teus braços e roubar a tua paz de adormecido, vim te escrever de novo. Estas coisas que sempre te escrevo, ou sempre penso, mas nunca te envio nem nunca te conto. Porque é tudo mais do mesmo e é tudo tão diferente! Não tem espirais vertiginosas, não tem rosas graúdas coloridas de sangue, enfeitadas de espinhos – não, não tem.

Tem umas certezas azuis que se equilibram tão bem na incerteza que permeia a vida, mas tão bem elas se equilibram que nem as percebemos frágeis – mas delicadas, estreladas.

E eu, que vivo o ineditismo destes dias azuis; eu, que me adaptei tanto a eles, já passo longe daquela vermelhidão avassaladora que me roubava o fôlego. Naquele turbilhão em que me perdia a tal ponto de achar que era na vertigem, era no giro alucinado e na perda que eu me encontraria. Tanto rodei que nem sei mais o que perdi – e, agora, nem isso importa! A repetição dos dias vividos em azul me renova: eu criatura de fogo e cinzas, eu renasço e vôo toda colorida – mas levo impregnada a lembrança  e a leveza do azul.

Entende? Por isso escrevo do que é inédito, mas tão cravado nas minhas vísceras que até minhas palavras se repetem como se sucedem os dias. Por isso te escrevo mais do mesmo.

Daquela tristeza eu escreverei outro dia, que ouço tua voz sonolenta me chamando. Mais importante que escrever ou falar tem sido ouvir. E o  que eu ouço antes de dormir é este nosso amor calmo; feito o mar quando se estende, noturno, e acaricia a areia em sussurros.

Billie Holiday – Back in your own backyard

Have you found it?

Doris Lessing

“Writers are often asked, How do you write? With a wordprocessor? an electric typewriter? a quill? longhand? But the essential question is, “Have you found a space, that empty space, which should surround you when you write?” Into that space, which is like a form of listening, of attention, will come the words, the words your characters will speak, ideas – inspiration. If a writer cannot find this space, then poems and stories may be stillborn.” (…)

” Some much publicised new writers haven’t written again, or haven’t written what they wanted to, meant to. And we, the old ones, want to whisper into those innocent ears. “Have you still got your space? Your soul, your own and necessary place where your own voices may speak to you, you alone, where you may dream. Oh, hold onto it, don’t let it go.”

42° Não

agora estou fazendo uma lista de nãos. sendo os mais importantes os que te disse quase sem perceber: os cruciais. mesmo assim, você ficou. 7:56 PM Jul 26th via web

decidi numerar arbitrariamente este “não” – porque perdi a conta daquela lista que faria – este é, então, o “não” 42. quarenta e dois, meu  número da “sorte”, sabe? aquele que eu sempre jogo na loteria. e sempre perco. é aquele número que sempre me falha, o tal 42.

foi um “não” silencioso, este. você me disse na cama, outro dia – ah que já era madrugada fria, isso sim. e tão avançados estávamos que seu corpo ocupava, lasso e despreocupado, um lugar na minha cama, sua escova de dentes ali no meu banheiro; e tão avançados estávamos que você já era meu cotidiano.

e na minha cama, na madrugada fria, você disse eu te amo.

daí se desenrolou, inevitável, clichê na maldita hora, o tal quarenta-e-dois: fingi que dormia. em outros tempos, eu teria que retesar os músculos para segurar a risada que cuspiria a minha boca emudecida; em outros tempos, este meu “não” clichê e banalizado, este que aparece em todos os filmes, ah!, que este “não” daria cabo do meu fingimento. em outros tempos, quando eu era verde e úmida criatura, a própria ironia do meu “não”-chavão o transformaria em “sim”.

porque o quê importa se meu amor é salgado? àquele tempo, ele valeria mais que o medo, tão repetido, tão galvanizado em lugar-comum.

àquele tempo, eu te responderia um “sim” de amor, salgado que fosse. porque o quê importa se meu amor é salgado?

Mais uma vez e de novo

Porque certas coisas são eternas

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