Fênix em Verso e Prosa

Sufoco

Deixo meu corpo lasso na água quente submerso, a cabeça reclinada e meus cachos derramando seu fogo líquido, feito lava dourada. “Ofélia”, tu dizes, risonho; mal abro os olhos para te lembrar que estou viva. E continuas, jocoso, tuas mãos na minha pele, tua boca dizendo em beijos palavras que não me importo em compreender, tamanha a luxúria das sensações que me despertam teu calor, a água, o aroma, o sabor dos teus lábios e este teu hálito que eu tanto gosto.

Abro os olhos e sinto gelar a pele dos meus braços. Suor goteja em minha testa e nuca. Tenho medo de dormir. O cobertor macio é ameaça à minha respiração. Se, por instante sequer, distrair-me do sonho acordado, temo render-me ao sono. Penso em ti, meu refúgio dourado. Acendo a luz e vago pela casa deserta e fria, abro a janela e deixo entrar o vento da madrugada; eu preciso de ar!

Perdi tudo: o desejo, o ritmo dos passos, a cadência fácil da respiração. Devagar, volto a pensar em ti, recito números primos e amanso meu peito acelerado. Parece que tu e eu acontecemos em outra vida, quando eu era mais fácil, quando meu corpo sabia melhor, quando eu estava viva.

Falta tudo, falta você, o ar; falto eu e sobra o mundo, vasto e insípido.

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Restos de Saudade

De Luís Nassif e Jorge Simas, interpretada por Renato Braz e o conjunto Flor Amorosa.

Ouça:

Faça o download Restos de Saudade

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Aquarela


Desprovida de talentos artísticos, não tenho como escoar ou traduzir a gama de sentimentos para os quais a palavra tantas vezes é insuficiente. Abuso da pouca intimidade que tenho com a fala e com a escrita, mas há tempos que não nos fazemos entender. Ao contrário, o discurso vem para confundir e complicar o que já é tão incerto e ambíguo.

Ausente e falha a língua, busquei nos pincéis e nas cores a ajuda que precisava: retratar o que há de bom em mim e em nós. Read the rest of this entry »

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Maçã podre

Intoxicada pela libido que não se realiza, este foi seu diagnóstico.

Você diz que fui envenenada pelas tantas vontades que saíram de mim, velozes, embocaram em rua pequena, atropelaram-se e quebraram os ossos na placa: “sem saída”.

Pois eu digo que lá, sob os pés da placa, deveriam jazer, apodrecer, estrebuchar, sabe Deus o quê – ou fossem lavadas pela chuva e tragadas pelas bocas-de-lobo. Desde que a mim não retornassem, tão tortas e disformes que, até eu – que dou jeito em tudo, nem eu soube o que fazer delas e deixei que aqui ficassem, decompondo-se no céu aberto dos meus dias esquerdos.

E eis-me então: envenenada.

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Esvai em sangue todo amor

A segunda música – Serenata do Adeus – vai para o Carlos Manoel.

Com Paula Morelembaum, letra e música de Vinícius de Moraes.

Ouça:

Ou faça o download: Serenata do Adeus

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A saudade pode matar-me

Do fantástico CD “Tom Jobim canta Vinícius ao vivo”, coloco duas faixas lindíssimas.

A primeira – Valsa da Eurídice – vai para o Mário Mendonça.

Com Paula Morelembaum, letra e música de Vinícius de Moraes.

Ouça:

Ou faça o download: Valsa de Eurídice

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Anabela

Ouça com Consuelo de Paula

Download Anabela – Consuelo de Paula






Ouça com Renato Braz

Download Anabela – Renato Braz

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Recomeço

Arranco a gravata ao entrar em casa, eufórico. Mulher, arruma tua mala e vamos embora para a praia. Não, deixa a mala aí, vem como estás, agarra um biquíni velho e pega tua Hering branca, vamos para o Litoral Norte, vou ser caiçara e te quero minha sereia. Desmancha já esse teu penteado, que eu te gosto leoa de juba revolta, te abraço, te enlaço e te beijo, vem mulher, que é hora de voltarmos a ser felizes. Tua cara incrédula e boquiaberta, enlouqueceste? Te afasta, que me desarruma toda, deixa de sandice e vai comer teu jantar. Minhas mãos tentam, em vão, se perder nas tuas curvas e meus olhos naufragar na tua intensidade azul, minha boca quer teus lábios quentes e úmidos; mas, és ríspida, te afasta, já disse! São teus hormônios? É a crise da meia idade? Escarneces do meu rompante quase infantil, de tão sincero – e eu te odeio. Minhas mãos quedam vazias neste corpo que teimas em diminuir e encolher; tua boca é pálida, estirada e fria, como é sem vida a pele da tua cara, de tantas intervenções que fizeste. Teus olhos, teus olhos! Read the rest of this entry »

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Corpos em vão

Acordou com o movimento brusco do marido, seu gemido surdo, o suspiro abafado. Teve outro pesadelo! achei que já não os tinha mais – porque fazia tempo que ele não buscava refúgio tomando o corpo dela em seus braços. Ah, queria beijá-lo para que se acalmasse, acariciando seu cabelo, confortando em silêncio, quando então viesse o sono render aos dois. Mantinha-se imóvel, incapaz de levar sua mão até ele; ah, dormimos os dois tão separados, cabe o mundo entre nós na cama; e urgia sua mão quente, irrequieta como cavalo novo e resfolegante. Temeroso, o braço moveu-se ligeiramente em direção a ele, a mão como oferenda, palpitante e querente. Toma minha mão, toma, pega entre as tuas, toma, ei-la, é tua, toma, em prece silenciosa, como quem implora com a respiração suspensa. Mas, ele levantou-se, lavou o rosto, tomou água; ela e seu corpo em muda contorção, as mãos geladas e rejeitadas, a dúvida um chicote fustigando-lhe a carne: havia ele percebido seu movimento? e rejeitado sua oferta?

Virou-se para o lado oposto, encolheu-se no seu canto da cama, até ouvir que ele ressonava. Descerrou o corpo, abriu as mãos e chorou em segredo, as lágrimas queimavam sua face: chorou porque nunca mais dormiu com seus pés encostados nele; porque ele não se lembrava mais de correr a seu colo ao ter um pesadelo. Nunca mais eu o senti afastando suavemente minhas pernas na madrugada, seu hálito quente no meu pescoço. Nunca mais dormimos abraçados – há um vão entre nossos corpos e nele cabe todo o nosso desentendimento. Read the rest of this entry »

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Abre teu coração

Do mesmo álbum que saiu a belíssima música Beatriz, há A Bela e a Fera, aqui interpretada por Cássia Eller e Nando Reis.

Esta foi uma excelente regravação do CD original. Acho que não foi lançada em disco, apenas para os convidados do show, o qual tive a honra de ir e ver de perto vários de meus ídolos. LN escreveu o texto de abertura do que foi um dos espetáculos mais bonitos que já vi.

Destaco também as grandes interpretações de Renato Braz e Arnaldo Antunes, respectivamente em Beatriz e Ciranda da Bailarina.

Ouça:

Ou faça o download A Bela e a Fera

Veja a letra aqui.

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Canção IX

Mais uma canção do CD de Zeca Baleiro e Hilda Hilst. Aqui, interpretada por Mônica Salmaso.

Ouça:

Ou faça o download  Canção IX

 

Canta-se que havia na China uma mulher belíssima que enlouquecia de amor todos os homens. Mas, certa vez caiu nas profundezas de um lago e assustou os peixes.”

Tenho meditado e sofrido
Irmanada com esse corpo
e seu aquático jazigo

Pensando

Que se a mim não deram
Esplêndida beleza
Deram-me a garganta
Esplandecida: a palavra de ouro
A canção imantada
O sumarento gozo de cntar
Iluminada, ungida

E te assustas do meu canto.
Tendo-me a mim
Preexistida e exata

Apenas tu, Dionísio, é que recusas
Ariana suspensa nas tuas águas

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Leituras preciosas – versos brasileiros

Claro enigma - Carlos Drummond de Andrade

A balada do cárcere – Bruno Tolentino

Júbilo Memória Noviciado da Paixão – Hilda Hilst

Vaga música – Cecília Meireles

Forma e exegese – Vinícius de Moraes

Poesia reunida – Adélia Prado


Sugestões para aumentar a lista?


*Estou lendo Inácio, o enfeitiçado e Baltazar (novelas), de Lúcio Cardoso. Recomendo.

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Amanhecer

A noite está dentro de mim,
girando no meu sangue.
Sinto latejar na minha boca,
as pupilas cegas da lua.
Sinto as estrelas, como dedos
movendo a solidão em que caminho.
Logo o perfume da poesia
sobe aos meus olhos trêmulos, cerrados,
ouço a música das coisas que acordam
sobre o corpo negro da terra
e a voz do vento distante
e a voz das palmeiras abertas em raios
e a voz dos rios viajantes.

E a noite está dentro de mim.
Como um pássaro,
meu sonho ergue as asas no coração da sombra.
Ouço a musica das fiôres que tombam,
o tropel das nuvens que passam
e a minha voz que se eleva
como uma prece na planície solitária.

Então sinto a noite fugindo de mim,
sinto a noite fugindo dos homens
e o sol que avança na garupa do mar
e as nuvens curvas que enchem o céu
como grandes corcéis de fogo cor-de-rosa
desaparecendo sugados pela treva.

Lúcio Cardoso

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Autumn Leaves

Para suspirar mais uma vez, com vontade, profundamente. Até que a alma se sinta suspirada.

(Suspiiiiiiro) Ai, ai…….

Com Nat King Cole


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O ventre seco

Por Raduan Nassar

1. Começo te dizendo que não tenho nada contra manipular, assim como não tenho nada contra ser manipulado; ser instrumento da vontade de terceiros é condição da existência, ninguém escapa a isso, e acho que as coisas, quando se passam desse jeito, se passam como não poderiam deixar de passar (a falta de recato não é minha, é da vida). Mas te advirto, Paula: a partir de agora, não conte mais comigo como tua ferramenta. Read the rest of this entry »

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Misty

Para ouvir e suspirar…
Com Sarah Vaughan

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Nova

As paredes do meu universo são a música alta e pulsante, umas estrelas brilhantes espiam pelo vidro entreaberto: a noite está fresca.


De olhos fechados, sentindo a textura do telefone sob minhas mãos. Ele é a esperança que volta a respirar dentro deste restrito espaço que criei para nós dois; só existirá aqui dentro – mas, ainda que confinada às paredes de música, será parte do santuário no qual viremos nos encontrar e, com suspiro e tremor de antecipação, sermos.

Não haverá ligações, não ouvirei sua voz; ainda assim, todas as noites estaremos aqui, o telefone, eu e a esperança. Porque é contigo que gosto de conversar por horas e horas e horas, dançando noite afora.

Enquanto resistir nosso santuário, castelo lançado ao ar, viveremos sob a expectativa dourada, sem que nos incomode, por ora, o fato de não existirmos. Não precisamos temer a mão pesada e dura da impossibilidade. Não pensarás senão que seremos menos solitários; acreditarei que nos teus olhos me reconhecerei, que me alegrará encontrar neles o lampejo da familiaridade.

Venço o dia com um sorriso secreto, de gozo antecipado pelo que à noite terei, ao me dissolver e então de ti emergir. Sei que nosso oásis viverá pouco, por período que transgride as unidades temporais humanas. Agora, entretanto, você é – e eu o aceito.

Logo, virá a consciência, tão aguda e dolorosa que será impossível ignorá-la; logo chegará o dia em que do céu o sonho estrelado cairá. Virá intransigente a certeza cruel e definitiva: não haverá reencontro em você nem em qualquer outro. Nenhuma redenção me aguarda ao final desta rua de pedras.

Por ora, antes de acordar para o violento sol e sua claridade reveladora, sonharei com meus braços nos teus, inesperado aroma de baunilha, o arrepio na pele; sonharei que no firmamento uma estrela será batizada com nosso nome.

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A vertigem do querer

I.

à tua procura
pelas mil faces
pelos indistintos
e sem pátria
mas amarga o gesto
o logro e a desdita

à multidão me disperso
alheia, vaga e aflita
escoa, quase infinito
o relógio de areia
- sobrevivo ao dia

até despertar
em noturna fantasia
finda a espera
tua chegada se anuncia
homem luz, lua cheia
cheiro de pele e sândalo

II.

teu hálito, minha nuca
orvalho, gerânios
e nossos planos
cantados em versos
diamantes suspensos
no arco de ébano

cetim no vestido
cabelo ao vento
recriando o invisível
em sonhos, cantares
e transparência
no sopro da madrugada
tudo se alarga

é onde te invento
sou criança intensa
em mundo paralelo
extasiada, alongo o braço
e alcanço
tua inexistência

III.

sôfrega, morro
e renasço
na tua língua
através do universo
inflamada e úmida
a nova vida

beijo-te, sonhadora
e sedenta
até que tua saliva
me dissolva
e na tua boca
eu me refaça

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Canção V

Do álbum “Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé”

Com Angela Rô Rô

Essa música é maravilhosa. Interpretação excepcional, melodia linda – afinal de contas, é o Zeca. E a letra é… é a Hilda.

Ouça:

Ou faça o download: Canção V

Quando Beatriz e Caiana te perguntarem, Dionísio
Se me amas, podes dizer que não. Pouco me importa
ser nada à tua volta, sombra, coisa esgarçada
No entendimento de tua mãe e irmã. A mim me importa,
Dionísio, o que dizes deitado, ao meu ouvido
E o que tu dizes nem pode ser cantado
Porque é palavra de luta e despudor.
E no meu verso se faria injúria

E no meu quarto se faz verbo de amor

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Encontro mágico

Encheu-se de coragem o Zeca e enviou um CD seu para Hilda. Surpresa grande foi receber o telefonema dela, convidando-o para serem parceiros. Surpresa maior foi o músico receber um disquete com a obra da poeta. Ela falava sério. Read the rest of this entry »

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À noite

lateja um ponto vermelho
em meu peito
inflamada e dolorosa
gema túrgida

botão de rosa pulsante
que anseia
por se desabrochar
em pétalas de sangue

flor rubra a ecoar
irrefreável esperança
em minha veia
áspera e rígida

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Corpos incandescentes

Estende agora teus braços urgentes, a estreitar meu corpo com a força do desejo indomado que te castiga a alma. Beija minha boca com fúria e puxa meu cabelo com força quase violenta, para aplacar a ânsia que transforma teu sangue em lava a correr escaldante sob tua pele.
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Sangria

o desafio é escrever
neste nível.
beleza intensa,
densa,
amargurada.

nada é tudo,
tudo é nada.
pura água
clarice.

sangue esfolado
na veia.
teia de aranha.
fundo,
o poço é o mundo.

a pedra resvalada
no corpo
pisa o vazio.


Romério Rômulo

(Romério, já me apropriei das tuas palavras novamente e ainda tive a ousadia de cortar em versos e inventar um título… :-) )

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Em cacos

Eu não acreditava mais em promessas e havia banido da minha vida quaisquer vestígios de esperança. Mas, tu vieste com teus olhos de ternura, tua presença se perpetuando em dias que se uniram em meses, acariciando a solidão das minhas noites.

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Agora? Escreve.

“Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica, psicanálise, drogas, acupuntura, suicídio, ioga, dança, natação, cooper, astrologia, patins, marxismo, candomblé, boate gay, ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o quê?”

Caio Fernando de Abreu

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Receita

Deus (?) ajuntou um novelo vermelho de ansiedade, mais umas moléculas de água, pendurou umas proteínas, adicionou um par de ácidos graxos. Parou, coçou o queixo, franziu o cenho, decidiu inovar: enfiou no topo um tufo de cabelos de milho. E, como sina ou bênção?, decidiu que minha essência seria a do renascimento.

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