Deixo meu corpo lasso na água quente submerso, a cabeça reclinada e meus cachos derramando seu fogo líquido, feito lava dourada. “Ofélia”, tu dizes, risonho; mal abro os olhos para te lembrar que estou viva. E continuas, jocoso, tuas mãos na minha pele, tua boca dizendo em beijos palavras que não me importo em compreender, tamanha a luxúria das sensações que me despertam teu calor, a água, o aroma, o sabor dos teus lábios e este teu hálito que eu tanto gosto.
Abro os olhos e sinto gelar a pele dos meus braços. Suor goteja em minha testa e nuca. Tenho medo de dormir. O cobertor macio é ameaça à minha respiração. Se, por instante sequer, distrair-me do sonho acordado, temo render-me ao sono. Penso em ti, meu refúgio dourado. Acendo a luz e vago pela casa deserta e fria, abro a janela e deixo entrar o vento da madrugada; eu preciso de ar!
Perdi tudo: o desejo, o ritmo dos passos, a cadência fácil da respiração. Devagar, volto a pensar em ti, recito números primos e amanso meu peito acelerado. Parece que tu e eu acontecemos em outra vida, quando eu era mais fácil, quando meu corpo sabia melhor, quando eu estava viva.
Falta tudo, falta você, o ar; falto eu e sobra o mundo, vasto e insípido.
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