Fênix em Verso e Prosa

Questão

Sentada contigo nesta viagem, estranho sonho teu, em cujo universo tenho inesperada existência – é aqui, neste lugar que é teu e me é familiar como a casa de meus pais, é onde reconheço: como somos parecidos!

Solitários que cultivam irracional esperança de sermos salvos por alguém, ah! salvos de nós mesmos, desta tragédia que diariamente lapidamos. E nosso maior sucesso – isto que escondemos de nós e do mundo, sabes bem do que falo, que me adivinhas com teu olhar sombrio e teu cenho severo.

Porque ansiamos pelo alguém que adivinhe a riqueza de nós, o que a custo tentamos – e conseguimos, oh! nós conseguimos! – esconder.

E se somos reflexo e complementares, envio a ti a pergunta: por que dirigimos nosso potencial para a miséria?

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No me dejes nunca jamás

Ouça Nunca jamás, com Nana Caymmi

Nunca jamás pensé llegar a quererte tanto,
nunca jamás pensé llegar a quererte así.
Nunca jamás pensé derramarme llanto,
por un amor que había de tratarme así.

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Help me solve the mystery of it

De Gene De Paul e Sammy Cahn, ouça Teach me tonight, com Amy Winehouse

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Eu carrego tua tênue pele

eu quero carregar a tua sombra
como lastro do olho que me habita.
teu elo, se existe, pode ser
um calo em ricochete pela alma.

estados de olhar são puros astros,
amadas no horizonte, puro vento
como pedra se faz no corpo ardente
e estrada a recompensa de uma mão.

Romério Rômulo

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Sonhos que se enterram a sete palmos

Foi inesperado e, como todo nascimento, veio através da dor.

Não o matei, mas tive que cuidar de todos os preparativos de seu enterro.

Suspeito que tenha nascido já condenado. Dediquei a ele tanta alegria e energia que não tinha, mas arranjava. Foi vão, entretanto, o esforço todo e adivinhei a brevidade da sua existência — sua morte não foi surpresa. Mesmo adivinhada, a morte dói latejante. Cuidar do seu enterro e pranteá-lo consumiu mais daquela energia que já não tinha para dedicar-lhe, resultando em falência – espero que temporária – do meu gerador energético.

Enterrei este sonho ao lado de tantos outros que tive, na mesma pradaria verde e ensolarada. Não há lápides ou quaisquer marcos no meu cemitério. Olhos atentos talvez percebam o pedaço de terra recém revolvida, onde a grama ainda cresce tímida e que hoje abriga seu mais recente inquilino, meu sonho morto. Read the rest of this entry »

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Das artes de rua

Vitché e Jana Joana

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Vaga

Falta tudo,

falta você,

o ar;

falto eu

e sobra o mundo,

vasto e insípido.

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Encadenados

Comprei os morangos na saída do trabalho e não me importei em lavá-los; só precisava devorá-los, com fome de ti, saudade, com raiva de ti. É porque se aproxima teu aniversário e fiz disso álibi para ouvir tua voz. Enterro os dentes como quem morde, voraz, tua carne que tanto desejo, e ando pelas ruas geladas pensando nas poucas palavras que nos dissemos.

Tua voz satisfeita e tua risada incontida e eu como os morangos – é minha boca devorando teu corpo, tão ansiado. Teu sorriso cristalino se derramando pela linha telefônica. De quê ris, eu pergunto, o quê tanto te diverte? De nada, é porque eu sou bobo, tua fala entrecortada pelo riso, é de contentamento, de ouvir tua voz, tenho saudades de ti, dizes, alheio a tudo que interrompi com minha ligação. Estás ocupado e falarei contigo mais tarde – mas tu não te importas, tua risada ecoa, ritmada com meus passos percorrendo a avenida, onde transeuntes caminham em câmera lenta.

Minhas mãos úmidas pelo sumo das frutas que eu como com gula e fúria, com pressa – em contraste a meus movimentos fluidos, como se em outra gravidade. São estas mãos que percorrem, em fantasia, mais uma vez teu corpo quente; os morangos são gelados e tua pele arde em resposta a meu toque. Talvez cause estranheza esta mulher andando agarrada a uma porção de morangos, em mordidas selvagens, os dentes afoitos e os lábios sorvendo frutas e dedos, com febre e luxúria.

Tempo e distância não abrandaram o que é nossa maldição. Acorrentados, prosseguimos, cada qual em sua jornada, assombrados pela incessante presença um do outro. Atirei longe os dias desbotados e tua lembrança grita, viva e lancinante, preenchendo o vazio que eu não ouso viver.

Logo amanhecerá o dia do teu aniversário, quando nos falaremos novamente, teu riso dizendo muito mais são capazes nossas palavras.

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Talvez sería mejor que no volvieras

Ouça Encadenados, com Nana Caymmi

quizás fuera mejor que me olvidaras
por eso no habrá nunca despedida
ni paz alguna habrá de consolarnos
el paso del dolor ha de encontrarnos
de rodillas en la vida
frente a frente… y nada más

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Coruja

Todos os dias, deitamos juntas. É quando ela se aconchega a mim com toda sua pele — é quando permite que meu amor antropofágico se realize em plenitude.

Aninhada no meu abraço, ela diz:
– Mamãe, aqui o mundo é sereno.

Daqui em diante, faltam-me palavras. Deixo meu suspiro…

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Solilóquio

deus, tende piedade
anuncia em minha vida
o inesperado
o fulgor e a centelha
a chegada do sonho

ele pára, por breve instante
ouve minha rogativa
dá de ombros
meneia a cabeça
ri despreocupadamente

volta se distrair
com a incessante
leve e divertida
– a divina atividade
de não existir

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I have longed to move away

I have longed to move away
From the hissing of the spent lie
And the old terrors’ continual cry
Growing more terrible as the day
Goes over the hill into the deep sea;
I have longed to move away
From the repetition of salutes,
For there are ghosts in the air
And ghostly echoes on paper,
And the thunder of calls and notes.

I have longed to move away but am afraid;
Some life, yet unspent, might explode
Out of the old lie burning on the ground,
And, crackling into the air, leave me half-blind.
Neither by night’s ancient fear,
The parting of hat from hair,
Pursed lips at the receiver,
Shall I fall to death’s feather.
By these I would not care to die,
Half convention and half lie.

Dylan Thomas

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Estilhas, mortes e um renascimento

Daquela que hoje quase matei, não lembro senão de seus olhos indignados após se descobrir ainda viva. Dirigia pensando nos teus discos preferidos, talvez tenha notado que era azul a sandália da mulher, movendo-se contra a faixa branca desenhada na avenida.

Não fosse meu pé involuntariamente ligeiro, teria cometido mais um assassinato – é que hoje quebrei teus quatro discos, com os mesmos dedos ora de cuidado, ora volúpia, ah! foi com os mesmos dedos que usei para construir nós dois, dobrando-os em fúria e gozo, o estampido e os estilhaços, a vingança. Read the rest of this entry »

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Sagração

em noite rara
quando até a insônia dorme
foi concedido a mim
inesperado sono

e na vida do sonho
eu era outra:
era a habitante secreta
esta que me devora
a que me liberta

agora sou a fera
em rugido, garra
gana e fome
violenta ameaça
que incontida estoura
em cólera e sanha
fulvos olhos injetados
o grito bárbaro

ruge um chamado
ao pé da montanha
será o encontro
na claridade ofuscante
estalado mormaço
os animais luxuriantes
rubros dentes saciados
pelo sangue

reúno minha matilha
furiosa confraria
saúda-me em estrondo
– sou sua soberana

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Minha Dora agora vai passar

Venham ver o que é bom…

De Dorival Caymmi, ouça Dora, com Toquinho e Vinícius

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Outono e primavera

As folhas, as árvores e os arbustos estavam marrons e dourados, a paisagem era toda seca. Contemplava, pela janela do trem, os dias finais daquela vegetação – que em breve ressurgiria fresca, úmida e verde, vivendo pelas estações até o momento de fenecer para, mais uma vez verde, voltar. Talvez só eu compreenda a beleza das folhas ressequidas, talvez só meus olhos enxerguem o dourado onde outros definiriam como pardo e sem vida. Read the rest of this entry »

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A medida do imenso

Sabes ainda meu nome?
Fome. De mim na tua vida.

Hilda Hilst

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Der Blaue Engel

Ouça com Marlene Dietrich

Cabaret





Lili Marlene

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Âmbar e penumbra

Tão logo teus olhos aprendam a tatear a penumbra, vão se deparar com o que antes parecia sólida escuridão, mas é matéria rutilada por raios de luz, nesgas laranjas e vermelhas, filamentos de âmbar a reluzir em pontos dispersos. Tépido, este universo à meia luz não te cortará tua pele com cantos abruptos. Tudo aqui é arredondado e as curvas brincam em variedade, sinuosas, sutis, lânguidas… Read the rest of this entry »

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Come along with me to the Mississippi

De Spencer Williams, ouça Basin Street Blues, com Ella Fitzgerald

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Repetente

Escrevo minha própria história, sou personagem principal e prisioneira das minhas neuroses, vícios e paixões – ah!, sou reincidente de mim.

Tudo parece mais do mesmo: meus amores começam e terminam iguais — é o ciclo vital do qual sou vítima e produto, fênix em essência e nome.

Sempre morro no final.

E renasço em cada recomeço.

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Vermelhas criaturas

Não vemos que todas as coisas na Natureza, são mais ou menos nobres como são mais ou menos ruivas? Entre os elementos, aquele que contam mais essência e menos matéria é o fogo por causa de sua cor ruiva; o ouro recebeu a beleza de sua tintura, a glória para reinar sobre os metais; e dentre todos os astros, o Sol somente é o mais considerável pois é o mais ruivo. Os cometas cabeludos que vemos voltear no céu com a morte dos grandes homens não são os bigodes ruivos dos deuses que são arrancados pelo arrependimento?

Cyrano de Bergerac

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Lettres amoureuses

Por Cyrano de Bergerac. Traduzido por Nicole.

Cartas apaixonadas

Lettre I

Pour une dame rousse

Para uma dama ruiva

Madame,

Je sais bien que nous vivons dans un pays où les sentiments du vulgaire sont si déraisonnables, que la couleur rousse, dont les plus belles chevelures sont honorées, ne reçoit que beaucoup de mépris; mais je sais bien aussi que ces stupides qui ne sont animés que de l’écume des âmes raisonnables, ne sauraient juger comme il faut des choses excellentes, à cause de la distance qui se trouve entre la bassesse de leur esprit, et la sublimité des ouvrages dont ils portent jugement sans les connaître.

Eu bem sei que vivemos em um país onde os sentimentos do vulgar são tão desprovidos de razão a tal ponto que a cor ruiva, cujos mais lindos cabelos são honrados, somente é alvo de muito desprezo; mas eu também sei que estes estúpidos que são somente animados pela espuma das almas razoáveis, não saberiam julgar corretamente coisas excelentes, por causa da distância que se encontra entre a fraqueza de seus espíritos e a sublimidade das obras que julgam, sem conhecer. Read the rest of this entry »

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I need somewhere to begin

This could be the end of everything
So why don’t we go
To somewhere only we know?

Keane

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E, assim, somos

Escrevo-te como quem se confessa pela primeira vez, sem fôlego, aos borbotões; olhos baixos e mãos tensas. Eu te escrevo como quem vomita, em vertigem, suores e calafrio. Para atirar em ti o sentimento que me assombra, a perplexidade e o quase desespero. É para me aliviar em dose dupla: por expelir e por atirar-te este incômodo e esta agonia. Eu te escrevo como quem se vinga. Errando em círculos, vou e vou, como se meus passos fossem valsa e tua silenciosa ausência nos embalasse em doce dançar. Presa ao ritmo circadiano dos meus equívocos e escolhas infelizes, eu avanço e reinvento teus braços – e pouco importa que existam apenas em imaginação, importa é que me envolvam a cintura e dancem comigo até o fim de cada delírio que minha obsessão criar. Sôfrega, sorvo tua nova existência, que me embriaga, turva a mente; tuas palavras que arrastam meu corpo para as brumas; sandice e insensatez – e eu sorrio e rodopio. Como chocolate para esquecer da minha fome por ti, mas não mastigo e é assim que queria teu corpo, famélica e desvairadamente; quase engulo o papel laminado que reflete meu novo cabelo. Ah! é que em uma das nossas noites de ilusão e dança, ébria eu vi imagem no espelho que não reconheci como minha: uns cabelos escuros e embaçados olhos revoltos – mas era nítida minha desordem. Para te alegrar, eu – que agora vivo por ti – cortei uma franja que me faz voltar ao tempo em que era criança e talvez feliz. Voltei à infância e tenho um amigo imaginário; sou mulher e sozinha e és meu amante imaginário. É porque é assim que te amo, duvidando e acreditando, minha fé e meu dogma, meu desconforto e meu abrigo; é assim que te amo. Tua vida pulsa em mim, tua vida ameaça minha sensatez – mas, retiro de mim o orgulho como quem despe um vestido e é nua que te imploro, não me deixes, vem e toma o pouco que de mim que ainda não te entreguei. Tuas promessas traduzem minhas secretas esperanças, estarei sempre aqui, enquanto quiseres – ah!, suas juras de amor! És minha idéia e é por aqui que ficarás, como se não fôssemos inventados – quem sabe a próxima esquina me reserve uma surpresa e nos presenteie com corpos que habitam e se encontram na mesma dimensão.

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Arquivos

Calendário

Receita

Deus (?) ajuntou um novelo vermelho de ansiedade, mais umas moléculas de água, pendurou umas proteínas, adicionou um par de ácidos graxos. Parou, coçou o queixo, franziu o cenho, decidiu inovar: enfiou no topo um tufo de cabelos de milho. E, como sina ou bênção?, decidiu que minha essência seria a do renascimento.

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