Comprei os morangos na saída do trabalho e não me importei em lavá-los; só precisava devorá-los, com fome de ti, saudade, com raiva de ti. É porque se aproxima teu aniversário e fiz disso álibi para ouvir tua voz. Enterro os dentes como quem morde, voraz, tua carne que tanto desejo, e ando pelas ruas geladas pensando nas poucas palavras que nos dissemos.
Tua voz satisfeita e tua risada incontida e eu como os morangos – é minha boca devorando teu corpo, tão ansiado. Teu sorriso cristalino se derramando pela linha telefônica. De quê ris, eu pergunto, o quê tanto te diverte? De nada, é porque eu sou bobo, tua fala entrecortada pelo riso, é de contentamento, de ouvir tua voz, tenho saudades de ti, dizes, alheio a tudo que interrompi com minha ligação. Estás ocupado e falarei contigo mais tarde – mas tu não te importas, tua risada ecoa, ritmada com meus passos percorrendo a avenida, onde transeuntes caminham em câmera lenta.
Minhas mãos úmidas pelo sumo das frutas que eu como com gula e fúria, com pressa – em contraste a meus movimentos fluidos, como se em outra gravidade. São estas mãos que percorrem, em fantasia, mais uma vez teu corpo quente; os morangos são gelados e tua pele arde em resposta a meu toque. Talvez cause estranheza esta mulher andando agarrada a uma porção de morangos, em mordidas selvagens, os dentes afoitos e os lábios sorvendo frutas e dedos, com febre e luxúria.
Tempo e distância não abrandaram o que é nossa maldição. Acorrentados, prosseguimos, cada qual em sua jornada, assombrados pela incessante presença um do outro. Atirei longe os dias desbotados e tua lembrança grita, viva e lancinante, preenchendo o vazio que eu não ouso viver.
Logo amanhecerá o dia do teu aniversário, quando nos falaremos novamente, teu riso dizendo muito mais são capazes nossas palavras.
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Quem falou