Você e eu
6, Maio, 2008 de Fênix
Você achou que eu seria sua fênix particular; que, através de mim, sairia dessa prisão voluntária a que se submete dia após dia. Também eu achei que, de alguma forma, nós encontraríamos a felicidade dentro de um pequeno mundo, composto pelos momentos que compartilhávamos. Era nosso universo íntimo, aquele espaço consagrado onde tudo era possível, até o amor.
Era verdadeiro demais para ser apenas bom; éramos nós dois e nosso carinho, quase infinito. Amizade imensa e dedicação um ao outro: você preocupado e zelando por mim, minha saúde emocional. Eu, em eterna campanha pela sua libertação, pelo afrouxamento das suas neuroses e rígidas regras. Pelo seu riso, tão bonito.
Intensa afinidade de sentimentos, pensamentos - até nossas pequenas implicâncias eram parecidas. Seus ombros estavam disponíveis para mim e enxugava minhas lágrimas com paciência e ternura. Você era meu abrigo, provavelmente o único que eu tive, o único que terei.
Talvez eu já soubesse, desde o início, que a enorme proximidade revelava sentimentos tão mais amplos que os nobres e fraternais. Nós dois no cinema, sussurrando cúmplices, a pizza dividida, os programas de TV favoritos. Seu perfume e sua pele, quentes; seu toque sempre presente.
Você me deu um beijo e eu deveria ter sabido. Foi rápido, uma brisa fresca e macia. Inventei desculpas, interpretações e todas aquelas ilações insensatas que as mulheres fazem quando não querem enxergar o óbvio. Tive medo. Aquele medo escuro, denso, que dói até os ossos. Fugi de você.
Eu deveria ter sabido.
Mas, eu voltei. Eu, que não esqueci nada de nós dois, voltei. Passada minha tempestade particular, quando as nuvens se abriram e o horizonte clareou, eu soube. E voltei.
Seus braços, agora de amante, nunca foram tão perfeitos. Como você sabe exatamente do quê eu gosto? Todas as mulheres devem ser iguais, eu faço um muxoxo. Você responde risonho, eu acredito na seriedade dos seus olhos, sei porque sei, você é minha, eu sei e é assim. Você sabe, eu sei, eu sou sua.
Não vivemos meses no Éden. A vida não é justa, tampouco perfeita; acho que não aceita casais sincronizados, acho que inveja a felicidade dos humanos, tão vulneráveis quando finalmente se encontram.
Pensava que simplesmente deveria ter aceitado seu beijo àquela época. Que nosso desajuste era causado por aquela primeira rejeição. Nosso desajuste era querer demais, desejar demais, ansiar demais. O que seria de nós se abraçássemos e aceitássemos aquilo tudo, rude, bruto, ilimitado? Devastando, feito onda gigante, destruindo feito furacão, toda a vida que assentáramos antes de acontecermos?
Eu queria tudo, o diamante não lapidado, a urgência e o exagero. Eu estava disposta. A ter de você o que pudesse, o pouco, os pedaços, os pequenos momentos. Desde que você viesse, eu o teria sob qualquer forma.
Mas, não você. Assim eu não posso, assim não aguento. Nós dois, juntos, destruiremos a calma dos meus dias. Eu a quero todos os dias, o dia todo.Você agarra meu rosto, com fúria, eu a beijo e é pouco, eu quase preciso bater na sua cara, eu a quero engolir, entendeu? Pouco? Momento? Não, você diz, não.
Não nos veremos mais, você disse.
Não nos vimos mais.
É engraçado, tudo flores e um mundo perfeito por fazer,
Mas me convença não é uma guerra de egos,
Paixões… Vermelhas, lilazes, azuis, rosas…?
Mas sempre terminam em cor nenhuma.
RENATA: pior de tudo é que nem dá para convencê-lo que não é guerra. Apenas para lamentar a estupidez dos humanos, que transforma em embate o que deveria ser a conciliação… Beijooooo