Entre a bola de ferro e a erva daninha
8, Maio, 2008 de Fênix
Uma despedida
Longos dias de saudade silenciosa, desde o último contato contigo. Não me concedeste palavra sequer, não insisti. Reconheço no teu excessivo silêncio o amor que atormenta tua pele. Tu, que és sempre tão delicado e polido, agora prima pela deliberada ausência de respostas.
Não derramei uma lágrima, nem de saudade nem de tristeza por teres me repelido. Dia após dia, segui, silente como tu, com minha dor e tua falta. Já não me lembro quando foi que comecei a esquecer de pensar em ti. A dor foi se aquietando, a saudade esmaecendo, o amor morrendo - não sei quando, sei porque, sei como. Sei do vazio que aumenta em meu peito, agora que quase não sofro e não choro por ti.
Foi difícil te deixar ir, mesmo sabendo que há muito não eras meu, mesmo sabendo que já não era amor o que sentia por ti. Não tenho nada para preencher a ausência que deixaste em mim, já não sei a quem dedicar meu último pensamento antes do sono me render. Nenhum aroma tem sido capaz de evocar saudade, paixão ou desejo em mim. Ao menos tenho vontade de ouvir tua voz, que tanto me confortava antes e já me acostumei o frio que a falta das tuas mãos quentes deixou.
Também sei que não tardará o dia em que voltarás. É ainda doloroso perceber que minha respiração continuará inalterada e meu coração tranquilo. Sentirei, talvez, leve simpatia misturada à pena de te ver enclausurado pelo que te negaste a sentir, a viver. Sei que teus olhos chorarão, secos, a falta de ti que verás em mim.
Demorei para te exorcizar porque este vazio terrível me assustava tanto que temia que me paralisasse. Era inevitável que te deixasse, ou jamais voltaria a caminhar, presa que estava à bola de ferro que me prendia a ti. Doía sobremaneira o peso em minha perna e dói, agora, a perna liberta, como se lhe faltasse um pedaço. Sinto falta de sentir, mesmo sabendo o quão sofrido era sentir por ti, o quão devastado meu corpo ficou por tua causa. Talvez seja mais fácil sentir dor a sentir nada, a sentir esta falta, a sonhar este vácuo.
Como erva-daninha a esperança brotará em mim, hoje terreno árido e desgastado. Brota fácil esta esperança que tanto me consola e maltrata; e a ela vem atrelada a decepção e a angústia que tantas vezes senti. Volta sempre a nascer em mim esta esperança barata, esta planta que me sustenta e arrebenta; este vício sem o qual não vivo.
Logo, os primeiros sinais verdes surgirão, inconsequentes e necessários.
Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.
Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.
A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.
RUBEM BRAGA
RENATA: Daniel, às vezes, o adeus se alonga porque não se suporta o vazio. Tem gente que não consegue se haver consigo mesmo… Beijooooo
acho que dói mais ficar sem nenhum amor do que sentir saudade pelo perdido…
RENATA: Rosinha, o peito vazio ecoa angústia e solidão.
E quando não há volta. Quando a ferida não cicatriza. Aí a dor é lancinante…
Renato, aí só nos resta chorar e chorar, até passar.
Beijoooo