Estado suspenso
9, Maio, 2008 de Fênix
Mais do que sobreviver aos dias, tem conseguido quase ser feliz – tranqüila, pelo menos. Tanto, que não se incomodou com o dia cinzento e úmido, achou graça nas preguiçosas gotas de chuva que se debruçavam em sua janela. Já era hora mesmo de passar bem dias e noites, sem tua ausência como mão gelada sobre minha pele.
Foi porque cortara viva a esperança que antes tinha e que a acompanhava como um pedaço doente do próprio corpo, a envenená-la, a despejar angústia em sua corrente sanguínea. Tenho que dar um jeito neste estorvo, esta tormenta que cai como véu negro no meu presente, os lábios entreabertos sempre à espera, como se o amanhã pudesse trazer consigo a redenção pela dolorosa falta de hoje. E os olhos longínquos e etéreos que os homens gostavam, atraídos pela sua impossibilidade; mas não o homem que ela esperava.
Cansada de conviver com o latejar constante da esperança, a voz incansável atormentando seus ouvidos, num impulso incontrolável ela a cortara fora. Sem temer o jorro abrupto e escuro, o sangue escoando livremente pela ferida aberta; sem se importar que se esvaísse também algo que lhe fosse vital – desde que fique livre desta pulsação agônica, desde que eu possa andar sem arrastar comigo este peso!
Saiu do trabalho, queria sentir a chuva na face, a umidade acariciando sua pele. Lembrava dos dias de assombro, a esperança amputada um espectro quase permanente, que coçava e ardia. Não dormia, acomodava mal o corpo à noite, a pulsação dolorosa do que já fora extirpado. A garoa suave e a multidão apressada, os guarda-chuvas impacientes, ela deixava o corpo ao léu, estranha correnteza o levava adiante. Suspirou, como foram tristes os dias de recuperação, a cicatrização difícil; pela primeira vez, cuidava de si mesma, àquela época movia-se com vagar, sentindo e pranteando por inteiro sua perda.
Ali, aprendi que a solidão é minha única e confiável companhia, sempre em mim, transgredindo as barreiras da pele e da alma – fui eu mesma meu conforto e consolo. Ah, sentia alívio em não precisar, a boca entreaberta em ligeiro sorriso para a chuva; chega de ansiar, de arfar, ah!, a respiração agora vem suave, quase musical. Finalmente, não sinto aquele desconforto em mim, ah, nada de grandes expectativas perturbando meu cotidiano; terminará este dia como os outros, que importa que tenha sido cinzento e chuvoso, terminará plácido. Findaram, também, os pesadelos; ela imaginava seus neurônios se reagrupando dentro da nova ordem – agora era toda cérebro, que sua alma escoara junto com o sangue escuro e envenenado. Enfim, a paz.
Inesperado, ele veio. Alegrou-se e o recebeu com doçura e aconchego; vagamente, como que em outra dimensão, lembrou de deseja-lo com desespero, ofegar em sua presença, a face rubra, o coração aos saltos. Está bonito e nem assim me acelera o pulso, sorriu para ele com ternura. Era bom gostar dele, era bom ficar a seu lado sem ser atormentada por todo aquele insensato querer.
Estás fria, distante e engessada, a voz estarrecida, os olhos incrédulos, a mão que se estendia em quase gesto. Ela recuou, balançou a cabeça, não, não! E cerrou os olhos para que ele não visse que ardiam em chispas amarelas; escondeu a raiva repentina, que a ele nada devia – tudo nele é passado e assim será, os lábios apertados, os punhos cerrados. Ele gostaria que ainda sofresse, sempre à espera dele, mas não, não. Ele era passado.
Mas, então, e sentia raiva pelo seu retorno súbito – então, por que se estranhava, por que se incomodava? A esperança, que julgava extinta, gritava, esmurrando a parede das suas artérias, fazendo borbulhar o sangue que julgava curado. Esta esperança soltava seus urros de fera, vindo das suas vísceras; ela sentia-se menos mulher e mais esboço. Como se fosse figura desenhada a giz na parede, ela não tinha carnes nem profundidade – era rascunho de si mesma.
Ele com aqueles olhos perturbadores e as palavras inconvenientes, aqueles olhos que não a reconheciam; ela fora doce, atenciosa e novamente ele vinha perturbar sua paz, oh, tu devias me ter deixado quieta aqui em meu canto, oh, que eu era feliz ainda que minha paz fosse a de um cemitério! Não percebes que não creio mais em mágica, que nada mais há de nos fazer encantados novamente? Nenhum ponto de desconforto em minha concha haverá de me transformar em pérola; eu sou um vórtice de angústia girando em si mesmo; abismo no fim do mundo que encerra desencantos e dores.
Ergue as mãos, impotente, ele lá, com seus olhos de estranheza. Abraça o corpo duro, os braços dormentes, não sentirei raiva, não sentirei coisa alguma, nem indignação por tua ousadia, tua insensibilidade; mal falarei contigo. Sinto saudades, ele diz.
Seu coração pára por um minuto, sinto muita saudade, ele repete.
Todo seu mundo pára por um minuto.
Quem vive sem esperança? Sem o “galope no peito”?
RENATA: Daniel, como dizia Clarice, por vezes eu quero prescindir da espera-esperança e viver a felicidade hoje. E viver o hoje, o já, o neste-instante! Por outro lado, quando o dia está muito ruim, é a esperança que me faz continuar… Não, ninguém vive sem.
Beijoooo
não deu pra lutar contra…?
RENATA: Rosinha, pelo jeito, não, hehe