Dia de mudança
11, Maio, 2008 de Fênix
Seu sorriso foi tão largo que os cantos da boca quase se encontraram com as linhas que saíam dos olhos, descendo pela face vincada por anos de trabalho duro e sol. Surpreendi-me com a alvura dos dentes, aquele sorriso fácil, entregue com doçura. Senti espalhar pelo meu corpo uma raiva triste, quieta e amarga. De tão artificiais, parecem teclas de piano e é por isso que ele sorri, orgulhoso, sem saber que meus olhos treinados perceberiam de imediato a dentadura barata. Minha fúria silente é mais nada que tristeza, perdas sucessivas, a desesperança entranhada nos ossos. É que me tornei escura e vil. E a raiva agora é de mim, dessa pessoa que, com seus olhos amarelos e pensamentos cinicos, transforma em crítica e agressão a candura que recebe.
Eu tento sorrir de volta, mas meus músculos se contraem dolorosamente produzindo só uma boca meio arreganhada, destacada no meu rosto tenso. Talvez eu tenha inveja da tranquilidade daqueles olhos brilhantes, desse homem que adivinha minha dor e me olha com carinho. A senhora quer que embale também esses quadros?
Não consigo sustentar seu olhar, não consigo desviar-me do seu olhar, por que me tem carinho este homem que nunca me viu? Este homem que faz e desfaz lares todos os dias, carregando móveis, pedaços do cotidiano, fragmentos de vida? Não, estes quadros ficam, vão aqueles espelhos e os cristais. É mais fácil que retome minha postura enérgica, separando os objetos que um dia compuseram nossos sonhos. Não sei o que fazer com os cacos da ilusão estilhaçada — ou melhor, do conjunto de ilusões e esperanças que depositamos em nós. Não sei organizar todos os anos que eu iniciei fazendo promessas e orações para dias melhores. E os planos de futuro e os filhos que teríamos — em quais caixas devo colocar? Para quem ficarão? Deixarei contigo as fotos, os porta-retratos a enfeitar o móveis que a ti se destinam. Aquela viagem que fizemos, no começo de tudo, quando o dinheiro era escasso e farto era o amor. Nossas luvas baratas acenando para a câmera, nós, que éramos tão felizes. O retrato de quando me amavas, Querida!, estávamos na festa de bodas de teus pais, capturaste o movimento de minha cabeça atendendo teu chamado, um copo de champagne na mão e o rosto tão desarmado - eu nem me lembrava que era espontânea assim, eu era bonita na minha alegria levemente barulhenta e extravagante. A volta para casa, as risadas altas, embriagados de amor e vinho, as roupas espalhadas pelo chão e eu de repente em teus braços, neste lugar maravilhoso onde tantas noites eu me aninhei.
Quando eu morrer, que seja aqui e seja assim, eu te dizia, porque teus braços eram meu refúgio. Tu e eu achávamos que era eterno, contudo hoje há aqui o Casemiro, com seus olhos pacientes, esperando que acorde do meu torpor, para prosseguir empacotando os despojos da minha vida contigo. Pisco para segurar as lágrimas, sim, este aparelho de jantar vai, aquele relógio fica. O que eu faço com essa dor? O que eu faço com tudo o que planejei contigo? Eu soluço alto, já não me importo com o Casemiro, com os móveis, com nada. Já não te amo mais, nada há além desta ruptura maldita, desta vontade de gritar e chorar alto, de mandar todos ao inferno. Agarro o telefone, ante os homens atônitos, que eu seja louca, que as paredes caiam, minha dor não se contém, vem para cá agora, que esta separação também é tua, não sejas covarde e vem ver nossa vida se desmanchando, venha com teus olhos gélidos e tuas mãos agora frias, vem ver tudo encaixotado e desfeito! Vem agora, eu grito, vem agora que tudo é teu, não quero nada, só que alguém me diga por onde recomeçar, só que me ensinem o que fazer com os sonhos que por tantos anos cultivei. Tua voz modulada tenta acalmar minha angústia, tu que tens arrepios com meus excessos, mas eu uivo, eu brado, vem que estou aos pedaços, vem ou mando todos embora, ou quebro as taças da tua mãe, vem!
Os homens olham, eu choro alto, eu soluço, a maquiagem mancha minha pele, em caminhos negros por onde desceram as lágrimas, um reflexo mostra minha cara assombrada, os homens temem. Enfio umas peças de roupa em uma mala, as jóias que tu me deste, o coração que não era de vidro, mas se quebrou. Deixo para trás sapatos e roupas que eu tanto apreciava, e que agora são apenas os símbolos da nossa destruição. Deixo o Casemiro e seus homens. Vou, com minha mala pequena, o cabelo desfeito e o choro incontido. Para não sei onde. Só vou.