As folhas, as árvores e os arbustos estavam marrons e dourados, a paisagem era toda seca. Contemplava, pela janela do trem, os dias finais daquela vegetação – que em breve ressurgiria fresca, úmida e verde, vivendo pelas estações até o momento de fenecer para, mais uma vez verde, voltar. Talvez só eu compreenda a beleza das folhas ressequidas, talvez só meus olhos enxerguem o dourado onde outros definiriam como pardo e sem vida.
À sua frente, a moça chorava, o rosto escondido no lenço branco, as mãos pálidas e contraídas. O soluço espremido no pedaço de pano amassado era dolorido, atravessava sem pudor a contenção dos dedos e do tecido e sacudia o corpo dela em ligeiros espasmos. Ah, teve seu coração partido, a pobre coitada, adivinhou. Ninguém haveria de prantear assim não fosse por amor; eu mesma já verti tantas lágrimas, já fui jovem e apaixonada – conheço bem teu tormento, menina. O que via, ali, era a fratura exposta de uma esperança tenra e inocente.
Lembrou das suas próprias fraturas, a dor lancinante, a carne rasgada, o sangue quente. Muitas delas foram curadas justamente por aqueles que infligiram o golpe, a mão que machucava era a que aliviava. E assim era bom, suspira, melhor do que agora. A mocinha já não soluçava mais, endireitara o corpo e podia ver seu rosto ruborizado; olhava para a janela e apertava os lábios, em força para não chorar.
Quantas ocasiões quebrei-me toda; depois, já dura e estóica, era a morte que me aguardava, como as folhas secas que caem das árvores, para dar lugar às novas, vivendo e sobrevivendo pela dança circular do tempo e suas estações. Assim, fui tua cúmplice: tantas vezes lavei das tuas mãos o meu sangue e misturei a água tinta com o vermelho dos meus cabelos. Das cinzas ressurgia como a fênix reconstruindo meu corpo e nosso amor. A dor da morte recente se confundia com a do renascimento – e não percebeste que, a cada ciclo, se desgastavam os sentimentos.
Ele vinha com olhos doces e mãos carinhosas, com gracejos e palavras de amor; promessas que mais tarde ela descobriria vãs. Até que voltasse a matar uma vez e mais outra. Quantas vezes morri em nossa cama e não percebeste que ao lado de um cadáver dormias?
Olha novamente para a moça à sua frente, de faces brilhantes e olhos ansiosos para a janela. Aposto que o enamorado virá lhe buscar – quase tinha saudades de quando a reconciliação ainda era possível. Desta vez, pouco agonizara, mas não conseguia reconstituir nada; não conseguia ficar em sua presença sem que a noite anterior viesse lhe assombrar. Pouco valem, agora, tuas palavras doces, que soam como aquelas outras, cruéis; nos teus olhos vejo apenas o brilho do punhal; teu carinho é inútil, pois que só vejo das tuas mãos o meu sangue.
O trem pára na estação e aquela que soluçava ajeita o cabelo e o vestido. Segue apressada em direção à saída, inebriada de amor, como se há instantes não chorasse justamente por aquele que haveria de lhe consolar. O maquinista apita, o trem segue – nele, vai a mulher em cuja boca ainda amarga o veneno da sua derradeira morte.
Yet each man kills the thing he loves
By each let this be heard,
Some do it with a bitter look,
Some with a flattering word,
The coward does it with a kiss,
The brave man with a sword!
Some kill their love when they are young,
And some when they are old;
Some strangle with the hands of Lust,
Some with the hands of Gold:
The kindest use a knife, because
The dead so soon grow cold.
Some love too little, some too long,
Some sell, and others buy;
Some do the deed with many tears,
And some without a sigh:
For each man kills the thing he loves,
Yet each man does not die
Ballad of Reading Gaol (trecho)
Oscar Wilde

Deus na Antecâmara
Mereço (merecemos, meretrizes)
perdão (perdoai-nos, patres conscripti)
socorro (correi, valei-nos, santos perdidos)
Eu quero me livrar desta poesia infecta
beijar mãos sem elos sem tinturas
consciências soltas pelos ventos
desatando o culto das antecedências
sem medo de dedos de dados de dúvidas
em prontidão sangüinária
(sangue e amor se aconchegando
hora atrás de hora)
Eu quero pensar ao apalpar
eu quero dizer ao conviver
eu quero partir ao repartir
filho
pai
e
fogo
DE-LI-BE-RA-DA-MEN-TE
abertos ao tudo inteiro
maiores que o todo nosso
em nós (com a gente) se dando
HOMEM: ACORDA!
Poema de Ana Cristina César
(era de família protestante…)