Daquela que hoje quase matei, não lembro senão de seus olhos indignados após se descobrir ainda viva. Dirigia pensando nos teus discos preferidos, talvez tenha notado que era azul a sandália da mulher, movendo-se contra a faixa branca desenhada na avenida.
Não fosse meu pé involuntariamente ligeiro, teria cometido mais um assassinato – é que hoje quebrei teus quatro discos, com os mesmos dedos ora de cuidado, ora volúpia, ah! foi com os mesmos dedos que usei para construir nós dois, dobrando-os em fúria e gozo, o estampido e os estilhaços, a vingança.
Este pé que salva vidas dançou sobre os fragmentos dos teus preciosos LPs e neles eu cuspi e chorei, saboreando tua morte. Como urna, usei a pá de plástico que encontrei atrás da porta do teu escritório. E foi ali que joguei tuas cinzas negras e agora opacas, teus restos vinílicos espalhados na mesa clara, salientes e pontiagudos como meu rancor.
Haverás de reconhecer meu sangue no meio dos teus despojos, estes que celebro para me compensar da tua rejeição continuada. Em vão, gritei por ti até que se arrebentassem as vidraças e seus cacos se enterrassem na minha carne frágil. No teu exílio e torpor, recusaste a mão que, estendida, salvaria da insanidade esta mulher que de ti esperava os antigos olhos de querer.
Ao teu silêncio infame, contraponho meu uivo infernal; à tua secura, meu jorro de lágrimas e sangue, minha paixão e as flamas que um dia te seduziram. À tua odiosa imobilidade, meu corpo vivo e explosivo; às tuas mãos crispadas, minhas palmas abertas em raiva e dor. À tua contenção, minha loucura exposta.
O brilho azul e a faixa branca, um pedaço de asfalto, o grito que adivinhei; da quase morte, ela emergiu mais viva e pulsante, o coração batendo surdamente contra seus ouvidos. Chegaria em casa e beijaria o filho, o gato e o marido, surpreso. Rediviva e grata.
As lascas dos teus quatro discos mortos desafiando, inutilmente, teus dias embotados. Até que, em ferrugem e pó, eu nada traga de ti a não ser na boca o gosto acre e esmaecido do passado.

“Chegaria em casa e beijaria o filho, o gato e o marido… “. ” Rediviva e grata. ”
Claro, pois quase que uma neurótica a mata.
Lindo texto, embora textos legais como esses estão frequentes aqui, pois estás ficando craque na prosa. Parabéns Renata.
Br_Ed, hahaha entendi seu recado
Beijoooooooooooo e obrigada!