Foi inesperado e, como todo nascimento, veio através da dor.
Não o matei, mas tive que cuidar de todos os preparativos de seu enterro.
Suspeito que tenha nascido já condenado. Dediquei a ele tanta alegria e energia que não tinha, mas arranjava. Foi vão, entretanto, o esforço todo e adivinhei a brevidade da sua existência — sua morte não foi surpresa. Mesmo adivinhada, a morte dói latejante. Cuidar do seu enterro e pranteá-lo consumiu mais daquela energia que já não tinha para dedicar-lhe, resultando em falência – espero que temporária – do meu gerador energético.
Enterrei este sonho ao lado de tantos outros que tive, na mesma pradaria verde e ensolarada. Não há lápides ou quaisquer marcos no meu cemitério. Olhos atentos talvez percebam o pedaço de terra recém revolvida, onde a grama ainda cresce tímida e que hoje abriga seu mais recente inquilino, meu sonho morto.
Nesta cova, o ar é levemente mais fresco e o sol se lança com suavidade, permitindo que as sombras formem penumbra contida, velando pelo último sopro de esperança que lamenta e anseia por mais alguns segundos do sonho. Segundos, segundos, segundos que adoçariam minha boca, mente e meu corpo por momentos eternos.
Meu cemitério de sonhos é também um campo de flores. Espécies improváveis que brotaram de uma terra que abriga cadáveres de sonhos em putrefação. Nada mais forte e indomável que o poder transformador da Natureza, seus corpos e seres, que fazem vida e sorrisos surgirem de morte e pranto.
Até que o processo de transformação se complete, aquele vento quase gélido trará resquícios de aromas desejados e a memória de sentimentos que se recusam ou se demoram a morrer.
Visto de longe, é apenas um prado radiante e repleto de aromáticas flores coloridas. Não há quem imagine quantos sonhos precisaram ser enterrados, anônima e sileciosamente, sem o alarde dos grandes funerais; não há quem imagine de quantos sonhos mortos foram feitas estas flores, quase fúteis e vãs na sua beleza perecível.

Renata
Quanto mais velha se fica, o cemitério vai aumentando. São sonhos que não se concretizaram e morreram. Mas como é bom sonhar. A vida seria inútil se não conseguissemos sonhar. O meu cemitério também é florido, pois foram lindos sonhos que embalaram meu viver. E continuo sonhando..sonhando. Até o apagar da última gota do meu ser.
E é sonhando que me sinto viva.
Um beijão
Marise,
a muitos soa paradoxal, mas como é belo este jardim cemitério de sonhos mortos que se transmutaram em flores!
Beijoooooooo
E qdo não se consegue enterrar os sonhos?
E qdo esses sonhos sonhados e não concretizados se rebelam por não serem alcançados e passam a nos assombrar?
Um eterno limiar entre a dor e o paraíso, entre a posse e a perda, entre o controle e a paranóia, entre as músicas e o eco do vazio…
Um limar entre viver e vegetar…