Fênix em Verso e Prosa

Noturno

O farfalhar da minha saia traz de volta estes pássaros, estes mesmos que me deixaram quando a lua se fez alta e nova e tantas luas se passaram até que hoje o canto da seda os reunisse outra vez. Ah, que eu vivo cercada por meus imaginados companheiros escuros e tu os conhece tão bem que ouviste ‘alto e claro’ o som de sua revoada. Desconfio que aí foram matar a saudade que tenho de ti e não te conto; e se até aí voaram talvez tenha sido para celebrar o que não fomos — que até disto sinto falta: do sonho cujo final se tingiu rubro ‘não’ em um muro perdido distante, em quente novembro de cinco anos passados. E se agora volto a te chamar é que a mesma necessidade que me impeliu a ti volta a me acordar. E mesmo sabendo que te perturbo te rabisco estas linhas: para me lembrar que um dia foste esperança e depois foste invencível negativa. E foste então amigo e amparo — mas ah!, como eu precisava do homem, agora te peço: devolve meu sonho decomposto, devolve o que de mim ficou preso no passado. Devolve meus pássaros, devolve minha ave opala negra de olhos inflamados que ela é nada menos que um pedaço alado e umbroso da minha alma, ela é a fênix negra, meu duplo escuro, meu gêmeo oposto, ela é a imagem que se confunde à minha quando ao espelho vejo a mulher de olhos revoltos e cabelo incendiado.

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O solitário

Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.

Ainda uma coisa, só, no imenso mar
das coisas, e uma luz depois do escuro,
um rosto extremo do desejo obscuro
exilado em um nunca-apaziguar,

ainda um rosto de pedra, que só sente
a gravidade interna, de tão denso:
as distâncias o extinguem lentamente
tornam seu júbilo ainda mais intenso

Rainer Maria Rilke
(Tradução: Augusto de Campos)

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Letra: ferida exposta ao tempo

É forçoso dizer que me faz falta
o poema que existe e nunca li,
como se alhures
brotassem coisas que não vi
e que distantes,
carentes,
dependessem de mim.
Algo como se o intocado fosse a sinfonia
inacabada, mais:rasgada
como o quadro nunca esboçado, perdido
na abatida mão do artista.

O ausente
é uma planta
que na distância se arvora
e é tão presente
quando o passado que aflora.

E a literatura, mais que avenida ou praça
por onde cavalga a glória, é um monumento,
sim, de dúbia estória: granito e rima,
alegoria ao vento, lugar onde carentes
e arrogantes
cravamos nosso nome de turista:
-estive aqui, desamado,
riscando a pedra e o tempo
expondo meu sangue e nome
com o coração trespassado.

Affonso Romano de Sant’Anna

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Pintura

Eu sei que se tocasse
com a mão aquele canto do quadro
onde um amarelo arde
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio
a ponta dos dedos

Ferreira Gullar

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Garganta aguda, madrugada larga

Aos amantes é lícito a voz desvanecida.
Quando acordares, um só murmúrio sobre o teu ouvido:
Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo, senhora,
Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês
Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo
Ronda escurecida?

Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento
Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor
Quando tudo anoitece? Antes lamenta
Essa teia de seda que a garganta tece.

Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito
Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome
Tão intenso meu canto, tão flamante meu preclaro tecido
Que o mundo inteiro, amor, há de cantar comigo.

Hilda Hilst

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Insulados

advirto:

a solidão que enxergas
aqui a meu lado
não reconhece fronteiras

espalha-se pelas frestas
invade teus dias
tuas noites permeia

por ela ungidos,
seguiremos irmanados

obscuros e desencontrados

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Centenário

Desconfio que sou um individualista feroz, mas disciplinadíssimo. Com aversão ao histórico, ao político, ao sociológico. Acho que a vida neste planeta é caos, queda, desordem essencial, irremediável aqui, tudo fora de foco. Sou só RELIGIÃO – mas impossível de qualquer associação ou organização religiosa: tudo é o quente diálogo (tentativa de) com o ¥. O mais, você deduz.

Guimarães Rosa

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Borralho

Em meio às cinzas, brasas que teimam em ser.

Desviou os olhos da tela do computador e desligou o telefone. Pensou na própria e incômoda vida de escassos acontecimentos, que talvez fosse em consequência de ser ela mesma tão banal a ponto de impregnar de tédio seus dias. Levantou-se para ajeitar as persianas da janela do escritório, que estavam encardidas e deformadas; trabalhou nelas até que ficassem sobrepostas e uniformes, os dedos alisando uma a uma, mas é que talvez sejam como eu, amarfanhadas e baratas, eu com minha essência mediana e vulgar.

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A busca pela felicidade encontra repouso na poesia


Gustav Klimt
The Beethoven Frieze: The Longing for Happiness Finds Repose in Poetry. Right wall, 1902

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Voodoo Girl

Tim Burton

Her skin is white cloth,
and she’s all sewn apart
and she has many colored pins
sticking out of her heart.

She has many different zombies
who are deeply in her trance.
She even has a zombie
who was originally from France.

But she knows she has a curse on her,
a curse she cannot win.
For if someone gets
too close to her,

the pins stick farther in.

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Limiar

vou retesada –
como corda de violino
e sou eu mesma a corda
que me suspende à beira
do abismo

vou por um fio,
vou no fio da faca
que esgota o dia
pés descalços no caminho
afilado, afiado gume
corte talhado, sangue à borda

vivo a fio de espada

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Canto quinto

Eu nem soube falar do amor nos homens.
(Amor feito de júbilo aparente)
Nem soube replantar no que era terra
Uma mesma semente.
Tive no peito o mantra mais secreto
E não pude vibrá-lo, alento, lira
Corda divina no seu veio certo.

Elaborei em vão todos meus sonhos.
E súbito me tomas e me ordenas
A solidão mais funda:
Estes cantos agora, alguns poemas
Um amor tão perfeito e indizível
Porque não é tumulto nem tormento.
(E se o homem na carne foi punido
O verbo diz melhor do sofrimento).

Que nome te darei se em mim te fazes?
Se o teu batismo é o meu e eu só te soube
Quando soube de mim?

Hilda Hilst

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Pequena morte

é no insuspeito caminho
que o mundo tamanho
súbito atira aos olhos
o horror e sua face medonha
– tanto que a alma se contorce
escurece e se recolhe
em luto, à sombra.

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ruído embrenhado na veia

tensos, passamos pó sobre as feridas,
lambemos nossas almas de pedra,
reviramos cada estalo, cada medo.

Romério Rômulo

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Aquecimento para o Centenário

Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranqüilos e escuros
como o sofrimento dos homens.

João Guimarães Rosa (27/06/1908 – 19/11/1967)

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Torrencial

Sinto escoar meu corpo misturado à água turbulenta, braços e pernas emaranhados aos peixes, às algas; eu gosto do mergulho azul e frio, à tona o sol lambe minha pele que quase se dissolve no caudaloso rio; talvez meus pés sejam cauda de sereia — sereia de água doce e cheiro de barro, Ofélia hipnótica no vertiginoso manancial; o abraço-meandro, volteio e valsa, a voz do remoinho: grave, cavernosa; a palavra rascante, a música da correnteza que me encanta e sorve; fluida e liquefeita, eu jorro.

Moving Water – Gustav Klimt

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Uma poesia carrega sempre outra

o texto é naufrágio e é silêncio.

Romério Rômulo

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And if I could be who you wanted

Fake Plastic Trees live, com Radiohead

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Dos visitantes poéticos

Passei pra uma visita… deixei, ali, naquele cantinho, um raminho de flores da caatinga… (é que choveu!)… e, sabe?, quando isso acontece o sertão põe chapéu e terno de festa pra admirar a noiva…

Xico Santos

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What’s inside her never dies

Ouça He can only hold her com Amy Winehouse

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Para tua fome

Eu teria colocado meu coração
Entre os ciprestes e o cedro

E tu o encontrarias
Na tua ronda de luta e incoesão:
A ronda que persegues.

Para tua sede
As nascentes da infância:
Um molhado de fadas e sorvetes.

Abriria em mim mesma
Uma nova ferida

Para tua vida.

Hilda Hilst

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Matéria

Jonathan chegou.
E o meu amor por ele é tão demente
que me esqueci de Deus,
eu que diuturnamente rezo.
Mas não quero que Jonathan se demore.
Há o perigo de eu falar
na presença de todos
uma coisa alucinada.
O que quer acontecer pede um metro imprudente,
clamando por realidade.
Centopéias passeiam no meu corpo.
Ele me chama Agnes
e fala coisas irreproduzíveis:
” entendo que uma jarra pequena
com três rosas de plástico
possam inundar você de vida e de morte”.
Você existe, Jonathan?

Adélia Prado

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Diário de Bordo – da frustração

Eu decidi que faria um livro com a Maína antes sequer que nos conhecêssemos pessoalmente. Assim, não foi bem um convite que ela recebeu em seu e-mail, foi quase um informe. Ela aceitou. Outro dia disse que a viagem era intensa, que tinha medo, mas que estava indo.

Desde o Ventura que vocês não têm mais notícias da nossa parceria. O trabalho é difícil, é viagem tumultuada rumo ao desconhecido de nós mesmas. Resolvi, então, contar um pouco dos bastidores.

Ela diz que ainda está com a “mão dura”, pois há pouco que voltou a desenhar. E há o pão nosso de cada dia, que é preciso garantir. A inspiração às vezes tem que vir com hora marcada, às vezes atropela tudo.

Eu já passei por várias fases — e volto agora do cangaço poético, tempo brabo de aridez, veia seca, jorro estancado. E foi graças ao Romério, grande poeta e agora amigo, mas esta é história para outra postagem.

Foi Romério, também, quem me disse que até do avesso se escreve; ensinamento que hoje transmiti à Maína. Se há o cangaço, verseje sobre a secura, ele falou. Obedeci.

Não pedi autorização à ela, apesar do pudor com que trata seus desenhos. Sei que ela está triste, frustrada – é aquele sentimento que todos conhecemos, que me faria rabiscar com força de rasgar o papel, se escrevesse com caneta e bloquinho.

Publico aqui a imagem definitiva da frustração: um monstro plúmbeo, gordo, feio e inevitável, sentado na minha sala. E na sala dela. Na sua também.

“Fracasso” de Maína Junqueira

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Salvador, espanhol dos olhos-céu

Hoje eu vi.

Como se fosse súbita a compreensão.

Foi um desenho da Maína que se fez verdade para mim, que fez sentido naquele instante; foi com suas linhas e suas cores que ela adivinhou o que me viria a acontecer agora. E foi com a minha palavra-verso que ela entendeu o seu próprio traço-premonitório — e foi com minha escrita que ela viu. Como se fosse súbita a compreensão.

Mais tarde, conversamos. Amadureço seus desenhos por um tempo, expliquei, eles ficam em mim, latejantes e silenciosos. Eu matuto também os seus escritos, ela respondeu.

Como o quartinho de bananas do meu avô, que me surgiu vívido e sorridente, olhos azuis irisados e o chapéu. Porque ele era da época que não se saía à rua sem chapéu, meu avô muito magro e alto, espanhol dos olhos de céu, sorriso quieto e a ternura imensa.

Vôôôôôô!!!!, quando ele emergia do quartinho, a penca de bananas enormes, amarelas, amarelas, amarelas como o sol de sua casa, como o gosto da cajamanga que ninguém conhece aqui na cidade grande, amarelas como abraço de avô espanhol dos olhos de céu e ternura imensa.

(E, mais tarde, talvez ainda hoje, o desenho e o verso)

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Epigrama nº8

Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.

Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar, quando caí.

Cecília Meireles

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Receita

Deus (?) ajuntou um novelo vermelho de ansiedade, mais umas moléculas de água, pendurou umas proteínas, adicionou um par de ácidos graxos. Parou, coçou o queixo, franziu o cenho, decidiu inovar: enfiou no topo um tufo de cabelos de milho. E, como sina ou bênção?, decidiu que minha essência seria a do renascimento.

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  • Pronto. @bibinassif despachada. E eu me comportei linda e dignamente e nem chorei (não na frente dela pelo menos)...1 day ago
  • A piveta ansiosa @bibinassif finalmente no quase embarque. http://twitpic.com/plyoa...1 day ago
  • para matar a saudade daquele tempo: joy division. ian curtis, muito, mas muito antes e melhor que seus "herdeiros" new orders......2 days ago
  • why is it something so good/ just can't function no more? love. love will tear us apart again/ love, love will tear us apart again...2 days ago
  • do you cry out in your sleep?/ all my failings exposed.../gets a taste in my mouth/as desperation takes hold/...2 days ago


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