Fênix em Verso e Prosa

Por inteiro

Deu-me o amor este dom:
O de dizer em poesia.
Poeta e amante é o que sou
E só quem ama é que sabe
Dizer além da verdade
E da vida à fantasia.

E não dá vida o amor?
E não empresta beleza
Àquele que se quer bem?
Que não vos cause surpresa
O perceber neste amor
Fidelidade e nobreza.

E se eu soubesse que à morte
Meu muito amar conduzia,
Maior nobreza de amante
Afirmar-vos inda assim
Que ele tal e qual seria
Como tem sido agora

Amor do começo ao fim.

Hilda Hilst

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Sazonal

É em maio que a noite cai mais cedo, mais fria e silenciosa; e meu coração pára suavemente. Quando nem os cães vadios se aproximam de mim, repelidos pelo meu cheiro adocicado e enjoativo, cheiro de pétalas soltas e encanecidas, cheiro de morte. Porque é em maio que eu morro pouco a pouco, até ressurgir em junho, pálida e tênue pele, como se meu corpo evanescesse e se perdesse a cada ano; como se mais eu me tornasse espectro e menos matéria. Em maio eu danço meus dedos gélidos à luz fria da lua outonal, eles são libélulas pousando nas vidraças enevoadas e só você sabia do meu gosto por elas. Só você sabe que é pelo nome em inglês, dragonfly, dragonflies; lembra de quando brinquei de libélulas à sombra amarelada da chama do isqueiro? Acendi seu cigarro que era para tocar com meus lábios tudo o que fosse seu, com estes mesmos lábios que agora são pálidos e exangues e beijam outro homem que eu arrumei só para sobreviver à sua ausência, desde o maio primeiro da minha primeira morte. Quando você foi embora em passos macios de veludo insuspeito derramado pela manhã nublada – como se sua partida fosse carícia e promessa. Em maio, encho de referências meus dias brancos: Hilda, Zeca e suas Odes, Ariana e Dionísio, Rachmaninoff, Billie e Nina. Nat King Cole e Autumn Leaves rodopiando, rodopiando o vinil preto e embalando minha morte até que ah!, suspiro, as mãos crispadas, os olhos ao alto: é junho e eu renasci.

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Receita

Deus (?) ajuntou um novelo vermelho de ansiedade, mais umas moléculas de água, pendurou umas proteínas, adicionou um par de ácidos graxos. Parou, coçou o queixo, franziu o cenho, decidiu inovar: enfiou no topo um tufo de cabelos de milho. E, como sina ou bênção?, decidiu que minha essência seria a do renascimento.

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