É em maio que a noite cai mais cedo, mais fria e silenciosa; e meu coração pára suavemente. Quando nem os cães vadios se aproximam de mim, repelidos pelo meu cheiro adocicado e enjoativo, cheiro de pétalas soltas e encanecidas, cheiro de morte. Porque é em maio que eu morro pouco a pouco, até ressurgir em junho, pálida e tênue pele, como se meu corpo evanescesse e se perdesse a cada ano; como se mais eu me tornasse espectro e menos matéria. Em maio eu danço meus dedos gélidos à luz fria da lua outonal, eles são libélulas pousando nas vidraças enevoadas e só você sabia do meu gosto por elas. Só você sabe que é pelo nome em inglês, dragonfly, dragonflies; lembra de quando brinquei de libélulas à sombra amarelada da chama do isqueiro? Acendi seu cigarro que era para tocar com meus lábios tudo o que fosse seu, com estes mesmos lábios que agora são pálidos e exangues e beijam outro homem que eu arrumei só para sobreviver à sua ausência, desde o maio primeiro da minha primeira morte. Quando você foi embora em passos macios de veludo insuspeito derramado pela manhã nublada – como se sua partida fosse carícia e promessa. Em maio, encho de referências meus dias brancos: Hilda, Zeca e suas Odes, Ariana e Dionísio, Rachmaninoff, Billie e Nina. Nat King Cole e Autumn Leaves rodopiando, rodopiando o vinil preto e embalando minha morte até que ah!, suspiro, as mãos crispadas, os olhos ao alto: é junho e eu renasci.
Sazonal
4, Junho, 2008 por Fênix
Publicado em Prosa | Tagged Ausência, Renascimento, Separação | 8 Comentários
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Algumas mortes não têm renascimento…
É o meu caso: morri e fechei portas para muitas coisas.
Passou, passei, passado…
E me encontro mais vazio do que nunca. E esse eco que ouço só pode ser a morte em vida.
Nada dói mais do que isso.
Têm renascimento sim. Não é clichê dizer que o tempo cura tudo…
Beijoooo
fenix,isso é bonito, fiquei até sem fôlego…
Esta fênix não é mole não… nem indica o blog do marido… Tá loko só!
Indiquei sim senhor, olha lá LUÍS NASSIF ONLINE, bem bonitinho!
Renata,
Perdas, decepções, desamor, desilusões, não sei se o tempo
cura. Acredito que o tempo amenize aquela dor tangente,
que grita em silêncio, que deixa a alma retalhada, sangrenta,
mas tem que esperar o tempo do tempo.
Maio – é o mês do meu aniversário, do aniversário da Bibi,
outono, renovação da natureza, signo de Touro, manso
ou bravo – depende, não gostei de vc tê-lo escolhido para
morrer e só renascer em junho – por causa da fogueira de
São João?
Muito bonito o texto.
beijinhos
Célia,
Eu acho que o tempo ameniza sim. Depois, que a ferida fecha, a cicatriz fica como uma marca – uma tatuagem floral a enfeitar a nossa pele. É a nossa história desenhada na pele…
Maio é o aniversário da Bibi e do LN. Foi meu primeiro Dia das Mães… É um mês especial para mim, sim. Mas, entenda, não fui eu quem morri em um distante maio, foi esta personagem cuja vida se fez através dos meus dedos.
Eu apenas dei voz a ela, eu fui instrumento. Soprou-se em meu ouvido que havia uma mulher que morria a cada maio, ainda insuperada a dor da partida de um amante.
Da Renata vieram ali umas referências musicais, hehe…
Beijoooooo
O tempo não cura nada.
E como disse a Célia, apenas ameniza.
Para cada dor de amor haverá sempre o eterno questionamento: e se tivesse dado certo? E se fosse diferente?
Não há cura para essa dor.