Você ri de mim porque durmo de camisola e meias, coberta até a cabeça; deixo um espaço pequeno para respirar e é assim que eu também vivia – quando eu vivia – com exíguo espaço de respiro: o corpo todo ansiando pela descoberta.
A falta que me castiga é maior agora, deitada no estreito catre que parece meu leito de morte, e nada tenho a não ser você, homem-idéia que eu criei para me dar a mão antes de mergulhar no sono, este inimigo diário. Quando até os pássaros silenciaram e resta apenas o corpo estendido e imóvel, coberto como um defunto.
Mas, se estivesse morta restaria nada — nem a carne nem a saudade de você, que existe senão em sombra fantasmagórica a me afastar do mundo. É que eu achei que poderia encontrá-lo lá fora, que nos reconheceríamos de imediato, dois solitários separados pelas dimensões; já não sei qual de nós é sonho, qual é real. Pelas ruas eu o procuro, nas esquinas, no restaurante, no metrô, no vão entre aqueles dois prédios envidraçados, no banco do parque; até igrejas e templos tenho frequentado, em busca dessas duas inefáveis presenças que me atormentam: você e Deus.
Deus está dentro de você, disse o padre; dane-se um deus interior, deus-idéia, dane-se! eu cuspo palavras e ódio; quero o Deus maior que todos nós, quero o milagre, quero as mãos de abrigo e perdão, eu choro, minhas idéias não me consolam, padre, eu preciso de mais, de mais, de tão mais!, choro baixinho. Ele está em todos os lugares, filha; ah, Deus, Deus, são estes teus representantes?, estes papagaios, repetidores de frases feitas?, ah Deus, que engôdo tu és!
Seria em um dia como este, desesperançado, que nos (re)conheceríamos, finalmente — sua chegada restaurando minha humanidade e inaugurando a minha fé; as coisas novamente em seus lugares: nós aqui, juntos e o Pai Eterno no céu, a nos velar.
Quem falou