Fênix em Verso e Prosa

O amor no éter

Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniços na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escavar-te até encontrar
onde secregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo neste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde.

Adélia Prado

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Paralelepípedo

apesar de tudo, sobrevivo. me tonteiam. conhecer a
vida de perto dá medo. de cada, relato um atropelo.
minha raiva perdida sobra mundo. dos cães
retomo a substância dos cães. quando ser noite é revelação?
as mãos tecem o que lhes vale. sobram rasos.
os olhos de ouro preto são meu corpo. de pontes, marílias,
contos e cabeças, componho a sobra. uma cidade concreta,
dura de instantes. o olhar do aleijado calejando becos
montanha sobre montanha. cada palácio tem seu prisioneiro.
nada aqui passa. mesmo os cavalos de felipe dos santos
pisam as ruas. ainda. basta ver.

(ouro preto para renata e luis)

Romério Rômulo

Praça Tiradentes, por Eduardo Tropia

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A ordem natural

Você ri de mim porque durmo de camisola e meias, coberta até a cabeça; deixo um espaço pequeno para respirar e é assim que eu também vivia – quando eu vivia – com exíguo espaço de respiro: o corpo todo ansiando pela descoberta.

A falta que me castiga é maior agora, deitada no estreito catre que parece meu leito de morte, e nada tenho a não ser você, homem-idéia que eu criei para me dar a mão antes de mergulhar no sono, este inimigo diário. Quando até os pássaros silenciaram e resta apenas o corpo estendido e imóvel, coberto como um defunto.

Mas, se estivesse morta restaria nada — nem a carne nem a saudade de você, que existe senão em sombra fantasmagórica a me afastar do mundo. É que eu achei que poderia encontrá-lo lá fora, que nos reconheceríamos de imediato, dois solitários separados pelas dimensões; já não sei qual de nós é sonho, qual é real. Pelas ruas eu o procuro, nas esquinas, no restaurante, no metrô, no vão entre aqueles dois prédios envidraçados, no banco do parque; até igrejas e templos tenho frequentado, em busca dessas duas inefáveis presenças que me atormentam: você e Deus.

Deus está dentro de você, disse o padre; dane-se um deus interior, deus-idéia, dane-se! eu cuspo palavras e ódio; quero o Deus maior que todos nós, quero o milagre, quero as mãos de abrigo e perdão, eu choro, minhas idéias não me consolam, padre, eu preciso de mais, de mais, de tão mais!, choro baixinho. Ele está em todos os lugares, filha; ah, Deus, Deus, são estes teus representantes?, estes papagaios, repetidores de frases feitas?, ah Deus, que engôdo tu és!

Seria em um dia como este, desesperançado, que nos (re)conheceríamos, finalmente — sua chegada restaurando minha humanidade e inaugurando a minha fé; as coisas novamente em seus lugares: nós aqui, juntos e o Pai Eterno no céu, a nos velar.

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Receita

Deus (?) ajuntou um novelo vermelho de ansiedade, mais umas moléculas de água, pendurou umas proteínas, adicionou um par de ácidos graxos. Parou, coçou o queixo, franziu o cenho, decidiu inovar: enfiou no topo um tufo de cabelos de milho. E, como sina ou bênção?, decidiu que minha essência seria a do renascimento.

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