Fênix em Verso e Prosa

Distância sentimental

Mesmo ao sonhar contigo,
só consigo que me ames noutro sonho
dentro do meu sonho primitivo…

Guimarães Rosa

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O buraco do espelho

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí

pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some

a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve

já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora

Arnaldo Antunes

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Rubato

Rachmaninoff toca o Noturno Op. 9 No. 2, de Chopin

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I’m in Heaven

De Irving Berlin, ouça Cheek to Cheek com Doris Day

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Reconhecimento do amor

Amiga, como são desnorteantes os caminhos da amizade.
Apareceste para ser o ombro suave
onde se reclina a inquietação do forte
(ou que forte se pensava ingenuamente).
Trazias nos olhos pensativos a bruma da renúncia:
não querias a vida plena,
tinhas o prévio desencanto das uniões para toda a vida,
não pedias nada,
não reclamava teu quinhão de luz.
E deslizava em ritmo gratuito de ciranda. Read the rest of this entry »

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Desatada

Minha veia secou, talvez tenha sangrado enquanto dormia, talvez tenha sido um susto, não sei. A palavra foi silenciada e me falta um pedaço do corpo que nem identifico: só sinto, latejante, a falta, a falta, a falta.

Acordei sem voz, a língua áspera e ressequida, boca salgada. O sangue corre lentamente, espesso e pouco. Desconfio que ali, na minha medula cansada, se produza o que me é vital, tanto quanto este sangue: a palavra.

Consola-me ainda ouvir meus pássaros, suas asas em revoada; consola-me ser o silêncio escuro preenchido por eles. É como se alguém me segurasse a mão e sua pele quente infundisse à minha calor e pulso.


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Receita

Deus (?) ajuntou um novelo vermelho de ansiedade, mais umas moléculas de água, pendurou umas proteínas, adicionou um par de ácidos graxos. Parou, coçou o queixo, franziu o cenho, decidiu inovar: enfiou no topo um tufo de cabelos de milho. E, como sina ou bênção?, decidiu que minha essência seria a do renascimento.

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