14, Junho, 2008 • 9:21 pm
B orboletas
E
A belhas
T êm
R isos
I guais
Z zzzzzzzz
Beatriz Nassif
Depois, ela me contou que pensou na risadinha das abelhas e das borboletas – e eu fiquei com vontade de ser criança novamente, só para poder ouvir os insetos rindo assim, zzzzzzz…
Arquivado como:Outros autores , Bibi
Poderia dizer
que a vida é bela, e muito,
e que a revolução caminha com pés de flor
nos campos do meu país,
com pés de borracha
nas grandes cidades brasileiras
e que meu coração
é um sol de esperançasa entre pulmões
e nuvens
Poderia dizer que meu povo
é uma festa só na voz
de Clara Nunes
no rodar
das cabrochas no carnaval
da Avenida.
Mas não. O poeta mente.
A vida nós a assamos em sangue
e samba
enquanto gira inteira a noite
sobre a pátria desigual. A vida
nós a fazemos nossa
alegre e triste, cantando
em meio à fome
e dizendo sim
– em meio à violência e a solidão dizendo
sim –
pelo espanto da beleza
pela flama de Tereza
pelo meu filho perdido
meu vasto continente
por Vianinha ferido
pelo nosso irmão caído
pelo amor e o que ele nega
pelo que dá e que cega
pelo que virá enfim,
não digo que a vida é bela
tampouco me nego a ela
– digo sim
Ferreira Gullar
Arquivado como:Outros autores , Ferreira Gullar
Divide-se a noite, para que me apareças
e prolongues tua presença entre sonhos cortados.
Vejo o céu que ao longe caminha.
As montanhas respiram a luz das estrelas,
e, na ausência dos homens,
o caule do tempo sobe com felicidade.
Sobre a noite que resvala,
conservo-te imóvel entre meus olhos e a vida.
Penso todos os pensamentos,
e nenhum me auxilia.
E escuto sem querer as lágrimas
que germinam sozinhas,
e seguem sozinhas um subterrâneo curso.
Ah, meu sorriso morreu por tristezas antigas.
Como te hei de receber em dia tão posterior?
Cecília Meireles
Arquivado como:Outros autores , Cecília Meireles
Sem o jorro, sou sombra espalhada no asfalto quente, irmã das pedras, dissolvida na paisagem urbana de linhas abruptas e indóceis. Vou, dessangrada e muda pelo dia mormacento, em busca da palavra desesperada, da garganta tonitruosa que fará vazar a tempestade que se forma em minhas entranhas.
Arquivado como:Prosa , Escrever
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
Ferreira Gullar
Arquivado como:Outros autores , Ferreira Gullar
Quem falou