Fênix em Verso e Prosa

Tempo passado

Outro dia abri a gaveta do meu criado-mudo e achei um papel com tua letra, perdido entre uma lixa de unha disforme, uma tampa de caneta e um resto de perfume. Tua letra, teu nome, o papel maltratado. Não senti meu coração se acelerar, não senti a falta súbita de ar – nada. Olhei o papel – nada. Joguei fora, junto com a lixa e a tampa da caneta. Restos do quê um dia foi cotidiano e essencial na minha vida.

O que me atormenta é a falta, o abismo, a ausência. Tua ausência, mais dolorida do que nunca; este espaço imenso entre meu pensamento e o coração. Este nada, esta falta de lembranças que deveriam alegrar minha alma nos preciosos instantes em que navego, à deriva, antes de ser tragada pelo enigmático mundo do sono.

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Escassez

Eu queria tudo, sem saber se seria suficiente.

Como se “tudo” fosse um conjunto capaz de dar conta da maior parte dos meus anseios. Porque eu tinha a esperança tão maior que as de hoje, porque ela era dourada e invencível. Porque eu acreditava neste ente quase miraculoso: “tudo”.

Mas, foi pouco.

É pouco.

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Nomes próprios pouco comuns

Livro do folclorista Mário Souto Maior

Para fazer o download do livro na íntegra, clique: Mário Souto Maior – Nomes Próprios Pouco Comuns

Prefácio por Carlos Drummond de Andrade

Em sua casa de Olinda, o folclorista Mário Souto Maior não se limita a preparar o anunciado Dicionário do Palavrão, que muita gente aguarda com impaciência, na expectativa de vir a conhecer espécies outras e vigorosas, com que se enriqueça o repertório tradicional. Procede também ao levantamento de nomes estranhos (alguns chegam a ser palavrão também) de pessoas nascidas no Brasil. Um primeiro resultado da coleta em 21 fontes (guias telefônicos, jornais, etc.) sai agora em folheto sob o título Nomes Próprios Pouco Comuns, e faz a gente pedir: Mais.

O nome próprio extravagante é motivo de riso, que faz sofrer seu portador em benefício do fígado alheio, mas sua motivação é sociológica e psicologicamente séria, pelo que entremostra de gostos, idéias e hábitos dos brasileiros. Na hora de colar ao filho uma etiqueta para toda a vida, não só a imaginação se põe a trabalhar. Entram no jogo o espírito religioso, a definição política, a fascinação por supostos heróis do dia, o desejo de transferir ao recém-nascido virtudes e glórias de um modelo prestigioso, pela identidade onomástica. Há um fator de magia inconsciente na operação, muitas vezes com péssimo resultado, porque dando pasto ao ridículo, mas a intenção é pura. Não podemos simplesmente gozar os nomes pantafaçudos de gente, pois eles convidam a meditar no mistério da criação. Faz-se um filho, mais ou menos conscientemente, mas uma vez nascido (ou mesmo antes) procedesse a um segundo e sutil ato criador, que é o de individualizá- lo por meio de um nome que o marque para sempre — nome que seja um sinal concreto, uma tatuaqem indelével na pele de sua vida. Read the rest of this entry »

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Palavra viva

As barcas afundadas. Cintilantes
Sob o rio. E é assim o poema. Cintilante
E obscura barca ardendo sob as águas.
Palavras eu as fiz nascer
Dentro de tua garganta.
Úmidas algumas, de transparente raiz:
Um molhado de línguas e de dentes.
Outras de geometria. Finas, angulosas
Como são as tuas
Quando falam de poetas, de poesia.

As barcas afundadas. Minhas palavras.
Mas poderão arder luas de eternidade.
E doutas, de ironia as tuas
Só através de minha vida vão viver.

Hilda Hilst

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Embriaguem-se

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso”. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

Charles Baudelaire

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O artista é o criador de coisas belas

Oscar Wilde
O artista é o criador de coisas belas.

Revelar a arte e ocultar o artista é a finalidade da arte.

O crítico é aquele que pode traduzir, de um modo diferente ou por um novo processo, a sua impressão das coisas belas.

A mais elevada, como a mais baixa, das formas de crítica é uma espécie de autobiografia.

Os que encontram significações feias em coisas belas são corruptos sem ser encantadores. Isto é um defeito.

Os que encontram belas significações em coisas belas são cultos. Para estes há esperança.

Existem os eleitos, para os quais as coisas belas significam unicamente Beleza. Read the rest of this entry »

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Deus (?) ajuntou um novelo vermelho de ansiedade, mais umas moléculas de água, pendurou umas proteínas, adicionou um par de ácidos graxos. Parou, coçou o queixo, franziu o cenho, decidiu inovar: enfiou no topo um tufo de cabelos de milho. E, como sina ou bênção?, decidiu que minha essência seria a do renascimento.

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