Livro do folclorista Mário Souto Maior
Para fazer o download do livro na íntegra, clique: Mário Souto Maior – Nomes Próprios Pouco Comuns
Prefácio por Carlos Drummond de Andrade
Em sua casa de Olinda, o folclorista Mário Souto Maior não se limita a preparar o anunciado Dicionário do Palavrão, que muita gente aguarda com impaciência, na expectativa de vir a conhecer espécies outras e vigorosas, com que se enriqueça o repertório tradicional. Procede também ao levantamento de nomes estranhos (alguns chegam a ser palavrão também) de pessoas nascidas no Brasil. Um primeiro resultado da coleta em 21 fontes (guias telefônicos, jornais, etc.) sai agora em folheto sob o título Nomes Próprios Pouco Comuns, e faz a gente pedir: Mais.
O nome próprio extravagante é motivo de riso, que faz sofrer seu portador em benefício do fígado alheio, mas sua motivação é sociológica e psicologicamente séria, pelo que entremostra de gostos, idéias e hábitos dos brasileiros. Na hora de colar ao filho uma etiqueta para toda a vida, não só a imaginação se põe a trabalhar. Entram no jogo o espírito religioso, a definição política, a fascinação por supostos heróis do dia, o desejo de transferir ao recém-nascido virtudes e glórias de um modelo prestigioso, pela identidade onomástica. Há um fator de magia inconsciente na operação, muitas vezes com péssimo resultado, porque dando pasto ao ridículo, mas a intenção é pura. Não podemos simplesmente gozar os nomes pantafaçudos de gente, pois eles convidam a meditar no mistério da criação. Faz-se um filho, mais ou menos conscientemente, mas uma vez nascido (ou mesmo antes) procedesse a um segundo e sutil ato criador, que é o de individualizá- lo por meio de um nome que o marque para sempre — nome que seja um sinal concreto, uma tatuaqem indelével na pele de sua vida.
Antônio Manso Pacífico Sossegado — um dos componentes da relação de Souto Maior — para mim vale mais do que todos os exuberantes manifestos pacifistas trombeteados pelo mundo afora. Os pais de Antônio quiseram fazer dele a própria encarnação da paz, sem asas de anjo ou de pomba: sujeito que anda na rua sem ruminar agressões nem topar brigas; que não esmague o inseto, não maltrate a planta, não semeie a injustiça. Terá ele obedecido a esta programação ideal? Não importa. Importa o que os pais lhe ofereceram em três adjetivos de boa vontade.
Getúlio Subirá, incluído na Guia dos Telefones da Zona da Mata Mineira de 1967/8, documenta um fervor partidário cuja profecia se confirmou, embora com desfecho trágico: Getúlio Vargas subiu de novo ao Poder, para dele baixar pela auto-imolação. Narda Navinda Navolta Pereira parece exprimir uma ânsia de viagem e um voto de constância assim como Veneza Americana de Recife, inscrita no INPS, revela orgulho paisagístico de bom pernambucano. Os achados de Mário Souto Maior são fartos de sugestividade: Antônio Dodói, Abecê Nogueira, Barrigudinha Seleida, Eclesiaste Cardeal da Costa, Francisco Facada Sargento de Cavalaria. Gilete Queiroga de Castro, Dartagnan Pascal, José Amâncio e Seus Trinta e Nove, Oto Bompeixe de Oliveira, Magnésia Bisurada do Patrocínio. Admitida a autenticidade de apelações que correm na boca do povo e são registradas por algum curioso da matéria, temos campo aberto à análise da inventividade, lirismo, crença e humor involuntário de nossa gente.
Ela procura caprichar na escolha de nome para seus herdeiros. É um capital primeiro que lhes reserva, com a mais santa das intenções. Sucede, não raro, que esse capital é negativo, e daí talvez a conveniência de todos os nomes serem provisórios, digamos até 18 anos. Aí, seu detentor (ou vítima) o confirmaria ou trocaria por outro de sua dileção, já agora definitivamente. O homem merece ter, entre seus direitos universalmente proclamados, mas pouco reconhecidos, o de chamar-se como quiser. Como não pode exercê-lo nas primeiras horas de vida, o pai lhe dará rótulo interino. Idéia joão-brandônica, isto é, demasiado sensata para ser incluída em futura reforma da reforma do Código Civil. De qualquer maneira, fica lançada, enquanto Mário Souto Maior vai colecionando os impróprios nomes próprios do brasileira.


Fui bancário daqueles que pagava aposentado provindo de um carnet tipo talão de cheques para o ano todo.
Cataloguei ao longo deste periodo alguns nomes que é bem provável que o sr. ja os tenha, vou verificar quando comprar o livro, mas vai abaixo alguns:
-Francisco Redondo Isqueiro
-Dona Belina
-Maria da Providencia do Espirito Santo Jesus
-João Survina
E outros mais.
Um fato interessante aconteceu conosco. Um senhor abriu uma conta corrente, e a moça por falta de experiencia colocou o titulo do sr. como nome. O cidadão era tenente coronel e aparecia as abreviações de TEN CEL, e o mesmo foi registrado na conta como TENCEL ASDRUBAL. Na época que o serviço de computação bancária era feita em outro local, e quando chegou a documentação para conferencia 4 dias depois, tambem passou batido. Na lista alfábetica não achava o nome dele que era Asdrubal, e depois de muito tempo é que encontramos um tal de …Tencel.
Esta historia foi um mico. Era caixa de banco e sempre observava os nomes diferentes. Outro dia atendi uma Sra. pencionista INSS. Não lembro o primeiro nome, mas o segundo era “Farrapeira” . Esse nome aqui no NE, significa uma pessoa que não comparece aos encontros, não cumpre com a palavra. Então, eu discretamente mostrei a um amigo do caixa ao lado e comentei: Não marca nada com ela. Meu amigo nada discreto sorriu e chamou a atenção da Sra. Quando fui devolver a sua identidade, ela segurou minha mão e falou: Quando você foi registrado você escolheu seu nome? Eu tambem não. Mas já maior, escolhi usar de educação para com as pessoas.
Nunca mais, fiz comentarios sobre nomes e apenas guardava pra mim.
Em campanha de vacinação, já encontrei nomes curiosos, como Rúlio Inglesias, Vasco da Gama da Silva, além de combinações esdrúxulas, tipo Nairielly Shayenny… Mas na empresa que eu trabalhava, o boy voltou com a correspondência, que não encontrou o Sr. “Ilmo”, abreviatura de Ilustríssimo… pode?
Fui representante do INPS urbano e rural no Paraná, para as cidades de Céu Azul, Vera Cruz do Oeste e Diamante do Oeste. Algumas pérolas que encontrei:
Fé da Esperança e Caridade Rodrigues
Crucificia Manduca
Itibiriçá Bugre do Rio Grande – (este, o pai era carroceiro no interior do RS, de Três Passos para Iraí. Certa feita, ao tentar consertar a roda de uma das carroças, feriu o pé e o ferimento gangrenou. Foi salvo por um bugre(índio) que tratou dele até ficar curado. Em gratidão colocou esse nome no filho.)
Tatuno Hatayo – Esse vi ou li em algum lugar.