Fênix em Verso e Prosa

Assombros

Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

Affonso Romano de Sant’Anna

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Agrestes II

em meu cangaço, todo o meu tumulto.
traga uns grãos, poesia furiosa
dentro de mim. falada em verso e prosa
a solidão que me alarga o vulto.

quero saber o quanto sou distante
de mim, da ilha , do polo. poesia
que bate furiosa pela mão errante
a me mostrar aquilo que eu não via.

Romério Rômulo

RR foi rápido no gatilho, mas vai ter troco.

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Agrestes

Explico:

Romério, a secura está brava, colega blogueiro. É o cangaço poético instaurado em minha alma.

Ele responde, em jorro certeiro:

olha um verso:

“o cangaço poético na alma
uma secura da mais pura sede
a rede que me emperra, minha rede
de debandar na noite, pura calma.”

acabei de fazer. e o primeiro verso é seu. tirei do seu comentário.
se você continuar me entregando estes versos, fazemos mais um blog.

Devolvo:

meu cangaço é a claridade escaldante do dia árido e imóvel e, sob a terra estalada, se adivinha um tumulto, voragem-vácuo: é a falta que vai implodir e tragar estes ásperos grãos, é a sede furiosa da poesia descalavrada.

Arquivado como:Prosa, Verso , , ,

Enquanto isso na blogosfera…

Estava ali na Comunidade, ocupada sendo eu mesma, ruiva e inocente, e descubro LN a me difamar em seu blog:

No caderno Link, do Estadão, o Ministro da Cultura Gilberto Gil se apresentou como um hacker.

Pois vou contar uma dele.

Doze anos atrás a UOL engatinhava. Tinha poucas salas de bate-papo, sem filtro contra hackers. Mas já começavam as experiências com a nova mídia. Uma delas eram as entrevistas com personalidades, através de salas especialmente abertas.

Certo dia me ligaram da UOL perguntando se não poderia ciceronar o Gilberto Gil, que seria entrevistado. Papel simples. Bastaria receber o entrevistado, fazer sala e acudi-lo em qualquer problema que enfrentasse.

Como não? Com todo prazer.

Dia marcado, entro na sala – apinhada de rapaziada. Falo alô e fico aguardando o mestre. Ele diz alô e… e… e nada. Caiu e nunca mais voltou, pelo menos para aquela sala. Fiquei uma hora toureando a moçada enquanto aguardava a volta de Gil.

Anos depois, muitos anos depois, é detido pela polícia aquele hacker famoso, adolescente. O delegado foi muito legal não divulgando seu nome real, sabendo que só aprontava molecagens.

Estou lendo a notícia quando chega a Ruiva e me diz: “Prenderam meu amigo”. Qual amigo? O hacker xis. Como assim? Lembra das salas da UOL, me disse ela. Pois todos aqueles problemas que havia, de usuários derrubados, de salas caindo, era ele quem aprontava.

Um dia ela entrou no reservado do super-hacker, jogou uma conversa nele e ficaram amigos. Ele lhe ensinou a aprontar.

Pergunto candidamente qual foi a maior aprontada que armaram. E ela me conta que foi em uma entrevista do Gilberto Gil. Ela entrou na sala com o hacker e perguntou pelo reservado: quem nós vamos derrubar? E ele: experimente o entrevistado.

Ainda arrisquei: você nem reparou no jornalista que colocaram lá para fazer sala para o entrevistado? E ela: Não, quem era?

Casei com uma hacker e só soube depois.

Arquivado como:Outros autores, Prosa

Coisas da terra

Todas as coisas de que falo estão na cidade
entre o céu e a terra.
São todas elas coisas perecíveis
e eternas como o teu riso
a palavra solidária
minha mão aberta
ou este esquecido cheiro de cabelo
que volta
e acende sua flama inesperada
no coração de maio.

Todas as coisas de que falo são de carne
como o verão e o salário.
Mortalmente inseridas no tempo,
estão dispersas como o ar
no mercado, nas oficinas,
nas ruas, nos hotéis de viagem.

São coisas, todas elas,
cotidianas, como bocas
e mãos, sonhos, greves,
denúncias,
acidentes de trabalho e do amor. Coisas,
de que falam os jornais
às vezes tão rudes
às vezes tão escuras
que mesmo a poesia as ilumina com dificuldade.

Mas é nelas que te vejo pulsando,
mundo novo,
ainda em estado de soluços e esperança.

Ferreira Gullar

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Receita

Deus (?) ajuntou um novelo vermelho de ansiedade, mais umas moléculas de água, pendurou umas proteínas, adicionou um par de ácidos graxos. Parou, coçou o queixo, franziu o cenho, decidiu inovar: enfiou no topo um tufo de cabelos de milho. E, como sina ou bênção?, decidiu que minha essência seria a do renascimento.

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