Fênix em Verso e Prosa

Diário de Bordo – da frustração

Eu decidi que faria um livro com a Maína antes sequer que nos conhecêssemos pessoalmente. Assim, não foi bem um convite que ela recebeu em seu e-mail, foi quase um informe. Ela aceitou. Outro dia disse que a viagem era intensa, que tinha medo, mas que estava indo.

Desde o Ventura que vocês não têm mais notícias da nossa parceria. O trabalho é difícil, é viagem tumultuada rumo ao desconhecido de nós mesmas. Resolvi, então, contar um pouco dos bastidores.

Ela diz que ainda está com a “mão dura”, pois há pouco que voltou a desenhar. E há o pão nosso de cada dia, que é preciso garantir. A inspiração às vezes tem que vir com hora marcada, às vezes atropela tudo.

Eu já passei por várias fases — e volto agora do cangaço poético, tempo brabo de aridez, veia seca, jorro estancado. E foi graças ao Romério, grande poeta e agora amigo, mas esta é história para outra postagem.

Foi Romério, também, quem me disse que até do avesso se escreve; ensinamento que hoje transmiti à Maína. Se há o cangaço, verseje sobre a secura, ele falou. Obedeci.

Não pedi autorização à ela, apesar do pudor com que trata seus desenhos. Sei que ela está triste, frustrada – é aquele sentimento que todos conhecemos, que me faria rabiscar com força de rasgar o papel, se escrevesse com caneta e bloquinho.

Publico aqui a imagem definitiva da frustração: um monstro plúmbeo, gordo, feio e inevitável, sentado na minha sala. E na sala dela. Na sua também.

“Fracasso” de Maína Junqueira

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Salvador, espanhol dos olhos-céu

Hoje eu vi.

Como se fosse súbita a compreensão.

Foi um desenho da Maína que se fez verdade para mim, que fez sentido naquele instante; foi com suas linhas e suas cores que ela adivinhou o que me viria a acontecer agora. E foi com a minha palavra-verso que ela entendeu o seu próprio traço-premonitório — e foi com minha escrita que ela viu. Como se fosse súbita a compreensão.

Mais tarde, conversamos. Amadureço seus desenhos por um tempo, expliquei, eles ficam em mim, latejantes e silenciosos. Eu matuto também os seus escritos, ela respondeu.

Como o quartinho de bananas do meu avô, que me surgiu vívido e sorridente, olhos azuis irisados e o chapéu. Porque ele era da época que não se saía à rua sem chapéu, meu avô muito magro e alto, espanhol dos olhos de céu, sorriso quieto e a ternura imensa.

Vôôôôôô!!!!, quando ele emergia do quartinho, a penca de bananas enormes, amarelas, amarelas, amarelas como o sol de sua casa, como o gosto da cajamanga que ninguém conhece aqui na cidade grande, amarelas como abraço de avô espanhol dos olhos de céu e ternura imensa.

(E, mais tarde, talvez ainda hoje, o desenho e o verso)

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Epigrama nº8

Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.

Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar, quando caí.

Cecília Meireles

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Alma desnuda

Soy un alma desnuda en estos versos,
Alma desnuda que angustiada y sola
Va dejando sus pétalos dispersos.

Alma que puede ser una amapola,
Que puede ser un lirio, una violeta,
Un peñasco, una selva y una ola.

Alma que como el viento vaga inquieta
Y ruge cuando está sobre los mares,
Y duerme dulcemente en una grieta. Read the rest of this entry »

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Tu, que nunca serás

Sábado foi e caprichoso o beijo dado,
Capricho de varão, audaz e fino
Mas foi doce o capricho masculino
A este meu coração, lobinho alado.

Não é que creia, não creio, se inclinado
sobre minhas mãos te senti divino
E me embriaguei, compreendo que este vinho
Não é para mim, mas jogo e roda o dado…

Eu sou a mulher que vive alerta,
Tu o tremendo varão que se desperta
E é uma torrente que se desvanece no rio

E mais se encrespa enquanto corre e poda.
Ah, resisto, mas me tens toda,
Tu, que nunca serás de todo meu.

Alfonsina Storni

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C’est le pays des beaux amours partagés

De Kurt Weill e Roger Fernay, ouça Youkali Tango, com Teresa Stratas

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O Incriado

Vinícius de Moraes

Distantes estão os caminhos que vão para o Tempo – outro luar eu vi passar na altura
Nas plagas verdes as mesmas lamentações escuto como vindas da eterna espera
O vento ríspido agita sombras de araucárias em corpos nus unidos se amando
E no meu ser todas as agitações se anulam como as vozes dos campos moribundos.

Oh, de que serve ao amante o amor que não germinará na terra infecunda
De que serve ao poeta desabrochar sobre o pântano e cantar prisioneiro?
Nada há a fazer pois que estão brotando crianças trágicas como cactos
Da semente má que a carne enlouquecida deixou nas matas silenciosas.

Nem plácidas visões restam aos olhos – só o passado surge se a dor surge
E o passado é como o último morto que é preciso esquecer para ter vida
Todas as meias-noites soam e o leito está deserto do corpo estendido
Nas ruas noturnas a alma passeia, desolada e só em busca de Deus.

Eu sou como o velho barco que guarda no seu bojo o eterno ruído do mar batendo
No entanto como está longe o mar e como é dura a terra sob mim…
Felizes são os pássaros que chegam mais cedo que eu à suprema fraqueza Read the rest of this entry »

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Receita

Deus (?) ajuntou um novelo vermelho de ansiedade, mais umas moléculas de água, pendurou umas proteínas, adicionou um par de ácidos graxos. Parou, coçou o queixo, franziu o cenho, decidiu inovar: enfiou no topo um tufo de cabelos de milho. E, como sina ou bênção?, decidiu que minha essência seria a do renascimento.

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