O farfalhar da minha saia traz de volta estes pássaros, estes mesmos que me deixaram quando a lua se fez alta e nova e tantas luas se passaram até que hoje o canto da seda os reunisse outra vez. Ah, que eu vivo cercada por meus imaginados companheiros escuros e tu os conhece tão bem que ouviste ‘alto e claro’ o som de sua revoada. Desconfio que aí foram matar a saudade que tenho de ti e não te conto; e se até aí voaram talvez tenha sido para celebrar o que não fomos — que até disto sinto falta: do sonho cujo final se tingiu rubro ‘não’ em um muro perdido distante, em quente novembro de cinco anos passados. E se agora volto a te chamar é que a mesma necessidade que me impeliu a ti volta a me acordar. E mesmo sabendo que te perturbo te rabisco estas linhas: para me lembrar que um dia foste esperança e depois foste invencível negativa. E foste então amigo e amparo — mas ah!, como eu precisava do homem, agora te peço: devolve meu sonho decomposto, devolve o que de mim ficou preso no passado. Devolve meus pássaros, devolve minha ave opala negra de olhos inflamados que ela é nada menos que um pedaço alado e umbroso da minha alma, ela é a fênix negra, meu duplo escuro, meu gêmeo oposto, ela é a imagem que se confunde à minha quando ao espelho vejo a mulher de olhos revoltos e cabelo incendiado.
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