Fênix em Verso e Prosa

Canto segundo

Se te anuncio lágrimas e haveres
É para te encantares do meu canto,
Um tempo me guardei
Tempo de dor aquele
Onde o amor foi mar de muitas águas.

Se te anuncio ainda
É porque sempre em pedra fui talhada.
Em sal me consumi. E perecível
Tem sido a minha form:
Estes dedos lunares, estas mãos
E tudo o que não foi tocado em ti.

Me queres em renúncia, em humildade
Ou íntegra e sozinha nestes cantos?
Tive ressurreição e anteprantos
E alegrias inteiras.
E muitas madrugadas
A sós me confessei
Àquela irmã soturna e mais amada.

Vi quase tudo. E quase tudo andei.

Hilda Hilst

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Chuva de flores

Por Xico Santos

Vê-la assim, dormindo calmamente ao meu lado pela primeira vez, chega a ser quase irreal; não fosse o leve perfume que emana por entre as dobras dos lençóis, seria um sonho, certamente.

Desenho teu corpo com meus olhos enquanto brinco com uma mecha de cabelo rebelde que insiste em manter o desenho das suas tranças de menina, e chego a temer que a força desse olhar, te acorde…

Minha mulher!

Perdoa-me, se uso assim… um pronome possessivo, num momento tão sublime, é que, diante da certeza de que não foi sonho, na penumbra silenciosa deste quarto, chego a acreditar que ele não soe assim como redoma; mas, útero.

Ao pensar na trajetória deste amor, na força que nos moveu até aqui, penso Read the rest of this entry »

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Onde a luz se faz dor

Vigio
Esta sonoridade dos avessos.
Que se desfaça o fascínio do poema
Que eu seja Esquecimento
E emudeça.

Hilda Hilst

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Perdemos nossos astros

Da série Folhetim de Ausências, de Xico Santos

Perdemos a Lua. Você a viu? Se viu, lembrou, não lembrou?

Prestenção: a Lua não esquece.

Lembra-se de quantos crepúsculos já perdemos? Foram tantos… de cores variadas… em dias absurdos… belos… enigmáticos… inesquecíveis…

Crepúsculos portenhos – Ah, este azul!

Sim, perdemos um azul-portenho abrindo as portas para noites calientes – azul guardião!

Sim, perdemos alaranjados-caribenhos guardando a bola estupenda de luz e fogo do Sol. Não vimos sequer suas carícias sobre os contornos verdes de florestas-amantes.

Perdemos! Read the rest of this entry »

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Sentidos

Acordei com o ruído daquela velha vitrola, o som mecânico do braço, dois estalos, silêncio, antecipo a música, arrepio na pele. A agulha pousa suavemente no vinil preto, a música antes da música, anúncio de prazer, meus pêlos eriçados, a noite é espessa, quente e úmida. O primeiro chiado rasga, rouco e suave, o disco — e a música se espalha e dança pelas paredes azuladas, as sombras de nós dois ainda em valsa.

E se for sonho? Tua pele arrepiada, teus pêlos macios, tua barba, a boca úmida. Outro estalo, o vinil sussura, a agulha viaja em círculos, penso em espirais, teu corpo e o meu; e se foi sonho? Gelado o metal que adivinho enferrujado, busco a luz — o tato se engana, teu calor me encanta; um puxão brusco dos meus dedos, a lâmpada amarela o quarto em estalo uníssono ao da agulha na vitrola. Vejo e não me engano, vejo e me encanto: são teus olhos, é teu corpo e é sonho. Abro os olhos e sonho.

Desenho de João Grando

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Açúcar mascavo

Adoçou a boca do filho, ganhou a mãe para sempre. A partir de hoje, eu sou capaz de matar por e pelo Romério.

essa menina bonita
tão bonita que me mata
é filha de um certo luís
com uma tal de renata

essa menina, ai de mim!
inteligente e formosa
é filha de um bandolim
com uma mãe amorosa

pra findar esse versejo
e controlar o meu ai:
essa menina não engana
é mesmo a cara do pai.

(para a bibi, poeta)

Romério Rômulo

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Pit stop

Do desconforto leve de ontem à alma escura de hoje — assim, sem mais.

Se vasculhar um pouco, talvez eu entenda o porquê: foram as muitas traições, sucessivas, paralelas; de insuspeitos, de improváveis. De quem não podia. De quem devia muito mais. “Doação ilimitada a uma completa ingratidão”. E como não houve respiro nem reparo — só a convergência — deve ser consequência natural que a pausa dolorida se faça em vermelho urgente e interrompa, imperiosa, o cotidiano.

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nudez aparecida

de João Grando

As roupas no chão.
O cobertor retirado.
A nudez está coberta pelo desejo.
No coito, coberta ainda, de prazer.
Somente depois a nudez fica despida.

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Nudez

Ofereço-te estranha palavra do idioma que ainda não inventei — eu te dou o meu grito surdo.  A teus pés, deposito meu desvio e os sinais de derrota; os desencontros e o céu abérto dos meus dias esquerdos.

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Convite

Desata os nós da tua urgência e vem com tua boca selvagem a estraçalhar o bom e o correto; vem com este desejo bruto e colérico, que se opõe ao direito, que arrebenta os limites com que vivemos isto –  isto a que chamamos de vida.

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In the quiet of a railway station

The Boxer – Simon & Garfunkel

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Estação esperança

É na madrugada que a vida se alarga e as estrelas sopram acalantos; ah! elas dizem que logo estarás de volta, elas dançam como crianças felizes ali ao lado da lua, eterna companheira tua, esta mesma lua olha agora teu rosto em ângulo, teus olhos de tanto querer. É madrugada larga e tua ausência se faz ainda mais aguda, tua falta ataviando em rutilos rubros a noite prateada.

Eu danço, sozinha, sob a abóbada de prismas, ali ao centro há a constelação de Sagitário, me ensinaste. Teu signo é o centro da galáxia, como tu em minha vida — teu sussurro em minha fronte; em minha boca tua promessa, eu volto, espera. E aquela veia no teu pescoço, sob o azul lateja rubro teu sangue e teu ritmo, eu danço aqui a cada batida do teu coração; rodopio, abro os braços e giro — em círculos volteio tua existência, ah! rodopio pela varanda, resfolegante em meu delírio.

Serpenteio em minha dança antiga, eu evoco a chuva, eu canto teu nome, tu és idéia? Incandescem pontos de luz na madeira, em valsas e espirais eles me acompanham, doce ilusão, foi tua boca ou foi sonho? E teu hálito morno, tabaco e hortelã, foi tua boca ou foi sonho? Deixa de sandice menina, dançando na varanda feito doida, a garoa fina, vais te resfriar, vem te deitar que amanhã cedo chega o trem e…

Trem? Trem, menina, vem que teus olhos contam tua febre, olha teu rosto afogueado; trem, mãe? E se não foi a nuvem de terra vermelha, mãe, mas for o trem? E se for o trem?

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Estação saudade

Por Xico Santos

Neste estradar ao qual me entrego livre e nu, a música no vento é teu nome ecoando por entre sombras e silhuetas difusas na vertente – uma dança de chegar.

Se me faço noites de espera, não temas – é que amo a Lua –, testemunha silenciosa e cúmplice desses noturnos.

Evitei a poeira da estrada desta vez. Queria o retângulo da janela de um trem que pudesse acalmar esta pressa que me consome sempre que venho – a urgência do teu rosto.

Cheguei trazendo comigo outros desejos: queria pisar, mais uma vez, o caminho da estação até a escola; andar lentamente pela calçada da rua xv; comer um daqueles duplos no “dog do jãjão” – ouvir música de máquina.

The Boxer, nas vozes de Simon e Garfunkel, chega nítida aos meus ouvidos –

When I left my home and my family
I was no more than a boy,
In the company of strangers,
In the quiet of a railway station, runnin’ scared.
Laying low, seeking out the poorer quarters,
Where the ragged people go.
Lookin’ for the places, only they would know.

Emocionado, penso tê-la visto através do reflexo da janela, pura miragem – ainda assim, tão viva e tão forte, que não há como negar a presença do reencontro.

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Autumn Leaves

Nat King Cole, Autumn Leaves

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Improváveis

na cidade adormecida
passeio com o bando
as aves do desencontro

o pássaro de fogo
vai ao meu ombro
escuro adorno
do invisível manto

é o meu estandarte
– sou rainha obscura
filha do quarto minguante
a obliterada metade
sou do sol a renegada

em silêncio a revoada
se adensa e circunda
minha figura de penumbra
somos noturnos ciganos
os habitantes das brumas

lá onde o cumo da montanha
confunde-se à espessa nuvem
e o céu é feito de chuva,
é prenúncio da tempestade

somos os herdeiros das sombras
os esquecidos e sinistros
nós pertencemos ao limbo
e à dúvida
somos os filhos do oblívio

nós somos marginais dos sonhos
os portadores das chagas
excomungados e descrentes,
ainda assim sobrevivemos,

tortuosos e errantes
e ainda assim florescemos

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Though I dream in vain

Nat King Cole – Stardust

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Para dançar, ouvir, sonhar, lembrar, ansiar…

Com Billie Holiday

Getting some fun out of life





Let’s dream in the moonlight

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Dos visitantes poéticos

Quem trouxe a preciosidade foi o Antonio Barbosa Filho

Nunca deve valer como argumento a autoridade de qualquer homem, por excelente e ilustre que seja… É sumamente injusto curvar o próprio sentimento em uma reverência submissa para com os outros; é digno de mercenários e escravos e contrário à dignidade da liberdade humana sujeitar-se e submeter-se; é suma estupidez crer por hábito inveterado; é coisa irracional conformar-se com uma opinião por causa do número dos que a esposam. Precisa-se, ao contrário, procurar uma razão verdadeira e necessária.

Giordano Bruno, 1560

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Repentina animada

Em São Luís do Maranhão, quadrilha na praia e ao pôr do sol.

Repentina Animada“, por Chicow

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Saudade em rodopio

Da ensolarada quadrilha restou esta mania de rodopio que até meu sangue faz dançar a cada vez que ouço teu nome; a cada vez que se anuncia uma chegada, poeira elevada no fim da estrada: talvez ali eu reconheça teu vulto, talvez por aquele caminho se apresente o reencontro.

Apressada, o vestido de algodão; acelerado o peito, o perfume de flor de laranjeira; alma em rodopio, dedos nervosos atam a fita nas tranças — corro à porta, afogueada; lábio entreaberto, espero teu beijo de retorno. Ah!, que quase avisto ali o teu chapéu, é agora, é agora que…

Mas aquela nuvem vermelha se desfaz, é a terra pairando pelo ar, é outra que também rodopia até voltar ao seu leito; nossas esperanças assim assentadas, nosso espírito assim irmanado — um levante acobreado e quente e, então, suspira-se…

Ainda não.

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Saudade em flor

Quando for dia de festa você pega o teu vestido de algodão
Quebro meu chapéu na testa
Para arrebatar as coisas do leilão
Satisfeito eu vou levar
Você de braço dado atrás da procissão
Vou com meu terno riscado
Uma flor do lado e meu chapéu na mão.

(Elpídio dos Santos)

As manhãs de agora têm brindado minha saudade com uma neblina daqueles dias. As festas se foram e não temos mais a quadrilha consentindo minhas mãos em tua cintura, nossos dedos entrelaçados; as carícias e o encantamento de nossos olhares…

Estou estranhamente tranqüilo, aqui, sozinho, varrendo os subterrâneos da memória; tirando o pó, colocando toalhinhas de linho branco (engomadas pela esperança) sobre as estantes do pensamento… Aonde colocarei tanta coisa, meu Deus?!

Na estante que separei pra você, coloquei uma flor de laranjeira, simulando o leve perfume que (parece!), eu senti durante a viagem daquele beijo de despedida…

Na música que ouço agora:

Vou com meu terno terno riscado
Uma flor do lado e meu chapéu na mão.

Xico Santos

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+++ palavra-imagem +++



é aqui na janela do meu delírio
que acridoce ainda sinto
gosto quase extinto:
o gozo da tua boca
antiga febre consumindo
o sal do teu olho

na penumbra me dissolvo
aqui à parede
– eu mesma sombra
eu mesma espectro

na janela do meu delírio
é onde finjo
que o amor se foi
sem causar dano
sem transfixar meu flanco
o fracasso de nós dois

aqui na janela do meu delírio
permaneço sombra e sobra






(Desenho de Maína Junqueira)

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Hoje

dia em que a morte
ronda traiçoeira
branca segunda-feira
de espanto e sobressalto:

como é tênue a fronteira
a viva fragilidade
os corpos ao capricho
do golpe da sorte

fim de tarde
e a vida se refaz
em suspiro e alívio
mãos crispadas, olhos ao alto

– sobrevivemos

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A fina, a doce ferida…

A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo
Deixou quebranto amoroso
Na cicatriz dolorida.

Pois que ardor pecaminoso
Ateou a esta alma perdida
A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo.

Como uma adaga partida
Punge o golpe voluptuoso…
Que no peito sem repousoo
Me arderá por toda a vida
A fina, a doce ferida…

Manuel Bandeira

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Risque-rabisque

Desenho de Maína Junqueira

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Receita

Deus (?) ajuntou um novelo vermelho de ansiedade, mais umas moléculas de água, pendurou umas proteínas, adicionou um par de ácidos graxos. Parou, coçou o queixo, franziu o cenho, decidiu inovar: enfiou no topo um tufo de cabelos de milho. E, como sina ou bênção?, decidiu que minha essência seria a do renascimento.

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