Tantas faces espectadoras de uma primeira perda — oh!, a primeira desilusão… Quando perdi a inocência? nada me lembro senão de já não contar com ela, mas do um amargor incômodo que impregna a boca. Sei dos sucessivos ataques que se condensam em um só golpe: abrupto e preciso, uma chicotada no ar, o assovio de um gume inclemente — o rasgo vermelho agudo na pele. E não há consolo, não há reparo, só a perda, a perda, a latejante perda, só a perda que nunca sara, nunca pára. Acompanham-me espectadores que são restos dos meus sonhos, são outros mortos, são solidários, são solitários, indiferentes. Adulta, acumulo tantas mortes que já não conto com mãos estendidas, nem com flores, só com dentes afiados, com presas, com olhos a cobiçar minha carne e o que escoa das minhas feridas. E às vezes, a vida dói tanto que eu inventei um choro em vertigem, quando eu lamento em espiral, em giro e respiro, abro os braços em redemoinho e rodopio até que vocês todos, meus restos e meus amores, sejam nada além de canto e vento, uivo e soluço.
Desenho de João Grando
(( Clique no desenho para vê-lo ampliado. Vale a pena. ))
*The Pixies



fenix:teu escrito e o desenho do joao me emocionam.
fênix:
muito bons,texto e desenho.
a dupla é forte.
um beijo.
romério
Parafraseando a Clarice (“Dá-me tua mão desconhecida, que a vida está me doendo, e eu não sei como falar…”):
Tome minhas mãos desconhecidas, quando a vida doer e lhe faltar palavras…
Querida Fênix,
A saída, quem diria!, está com o Marquês de Pombal, (aquele primeiro-ministro português que teve de lidar com a devastação de Lisboa após o grande terremoto de 1755): “enterrar os mortos, fechar os portos e cuidar dos vivos”.
Rosinha, saudade, ô! Ficou bonito, não? Gosto tanto desse desenho; gosto do panda ali no canto, gosto dos pés da menina; gosto da mão dele no cabelo dela, gosto dos espectadores, ah, gosto! beijooooooo
RR, valeu! beijooooooooooo
Cafu, duro é quando os mortos ficam ali, assistindo! Beijooooooooo
Deixe prá lá. Os mortos já eram. Você É. Concentre-se nas mãos amigas, que afagam, apóiam, confortam, como no lindo desenho do João.
Ouça esta estória do Chuang Tsu:
A Coruja e a Fênix
Hui Tsu era Primeiro-Ministro de Liang. Acreditava possuir a informação secreta de que Chuang Tzu ambicionava seu posto e fazia intrigas para suplantá-lo na carreira. De fato, quando Chuang Tsu veio visitar Liang, o Primeiro-Ministro mandou que a polícia o prendesse.Esta procurou-o durante 3 dias e 3 noites, mas, enquanto isso, Chuang Tzu apresentou-se diante de Hui Tzu, por sua própria iniciativa, e falou-lhe:
“Conheceis a estória do pássaro
Que mora no sul,
A Fênix que jamais envelhece?
Esta Fênix imortal
Ergue-se do Mar Meridional
e voa ao mar do Norte,
Jamais pousando
A não ser em certas árvores sagradas.
Não tocará nenhuma comida
A não ser a mais requintada
Fruta rara,
E beberá apenas
Das fontes celestes.
Uma vez, uma coruja,
Mastigando um rato morto,
já meio decomposto,
Viu a Fênix voando,
Olhou para cima e pipilou com um ruído,
Apertando contra si o rato,
Temerosa e atônita.
Por que estás tão nervoso
Apegando-se tanto a vosso ministério,
E pipilando para mim
Assim consternado?”
AH! Banho de cheiro ajuda a manter os mortos à distância. Uma vasilha de vidro com água corrente + uns ramos de alecrim, manjericão, alfazema . Para barra pesada acrescente arruda. Deixe descansando algumas horas na sombra. Coe e, quando terminar o banho, despeje na cabeça e por todo corpo. Espere uns instantes antes de secar com a toalha. Curta o frescor, a leveza e o perfume. Uma delícia de purificação. Beijo.
Falamos de uma produção que sempre está a começar; disseste que é a ternura do reconhecimento; dissera eu que a descoberta é um sintoma perene e que talvez a perda da ilusão o seja assim também, constante; mas, mesmo que assim seja, a lembrança da perda da inocência (quando se vê já se a perdeu) é um recorte de sua crescente constante, é, assim, abrupta, e sempre um choque – as descobertas genuínas pressupõe choques.
Talvez as coisas – os monstros, os olhares – movam-se lentamente, mas o momento é um somente, um só: é um recorte, no qual ainda há tudo por ser salvo ou por ser perdido – é um choque, e choques pressupõe serem abruptos. São assim abruptos.
É a minha descoberta do que descobriste tu sobre o que descobrira eu ao ir, lentamente, traçando um choque que tu, lentamente, (d)escreveste.
Mas nossa visão (lendo ou vendo) não falha: é impulsiva, é emocionada: choca-se.
Texto forte!
Os giros como giro do tempo…
Lembrei-me dos sufis. E fantasiei aqui que a Terra gira, centrifugando o passado, enquanto cada pessoa gira, centrípeta, trazendo-o de volta.
E mais uma coisa: reparei que o desenho tem, no traço, o estilo de várias épocas dentro do século XX – há escorço e feições da década de 1910… De 20/30… E à direita (o futuro chegando?) os traços mais contemporâneos, angustiados, cheios de pressa e movimento. Lindo desenho.
[...] Do Blog Fênix em Verso e Prosa [...]
[...] Do Blog Fênix em Verso e Prosa [...]
Jane,
interessante a maneira como teus dois comentários relacionam a preservação do passado.
Belo ponto de vista.