Acorda sobressaltada e olha a cama vazia, que antes lhe parecia tão estreita. O sol ainda não nasceu, mas ela sabe que não lhe resta qualquer sono. Decide levantar-se e arrumar os pertences do marido. Abre os armários e encara as roupas tristemente penduradas nos cabides, afaga o tecido e as cheira. Sente raiva repentina, ao lembrar o carinho com que as lavou e passou, e fecha com força a porta. Segue para o banheiro, sem saber como se desfazer da escova de dentes, dos objetos de barbear; vê a mancha de sangue na toalha de rosto e, distraída, sacode a cabeça com ternura, ele sempre se corta, sorri.
Determinada, volta ao armário e retira as roupas, esbarra na dúvida: se arrumar demais a mala, há de parecer que ainda gosto dele? Tenta superar sua obsessão pela ordem e atira descuidadamente o paletó, as camisas, divide os pares de meia. Mesmo sua desordem é simétrica e se enche de raiva novamente; raiva, confusão e humilhação por ter sido abandonada, por ter sido trocada pela mulher vã e fútil que viu outro dia, espiando pela janela; a loura no carro, os lábios pintados e a risada alta. Mas, se arrumar bem as roupas dele, talvez perceba o engano que cometeu, ao deixar a boa mulher que ela era, escolhendo aquela criatura de cabelos tingidos, ela lembra das unhas rubras, o cigarro nos dedos esguios e enfeitados. Ah, sua mãe a advertiu, a educou para ser esposa decente do homem honesto e trabalhador. Nada de extravagâncias, minha filha, que homem gosta de mulher confiável, serena, calma.
Trocou o pijama e voltou a arrumar a mala, com o capricho de sempre. O filho chegou à porta e irritou-se ao vê-la debruçada sobre as coisas do pai. É culpa sua, mãe, ele foi embora porque você é chata, você com sua cara séria, você é chata! Ah, seus ombros se vergaram ainda mais, ela enxugou depressa as lágrimas, ainda chorava por dentro, ainda gritava: minha mãe assim me criou, eu sou responsável, eu sou decente e seu pai foi se engraçar com aquela sirigaita, aquela farsa! Aproximou-se do filho e passou a mão em seus cabelos, não diga isso, não é verdade, os casais se desentendem, ele ainda é seu pai… Com violência, ele a repeliu, ele se livrou da sua mão como se ela fosse um bicho medonho. Cala a boca, mãe, que você só fala besteira, a namorada do pai é legal, ela ri! E ela lhe estapeou a cara com força, com fúria de mulher rejeitada. Assustado, o menino enxugou o sangue dos lábios e deu a ela seus olhos de mágoa e suas costas.
Meu Deus, um gemido, meu Deus, ajoelhou-se aos pés da cama, o que eu fiz? Eu fui boa filha, boa esposa, boa mãe, boa dona-de-casa. Outro gemido, Deus, agora dei de bater no menino quando ele tem razão, eu sou previsível, eu sou morna, eu sou morta! E a outra colorida e risonha e mundana! Mãe!, ela gritou silenciosamente, mãe, o que você me disse era tudo errado? Mãe! Como mudar essa minha cara pacata, meu sorriso discreto, meu cabelo e minha pele nessa morenice besta, apagada. Ah, eu quero ser loura, quero ter as unhas vermelhas, a boca rosada e úmida. Atirou longe os sapatos baixos, de boa mulher casada, rasgou frenética as roupas cinzentas e apagadas de esposa decente; apanhou a tesoura e cortou os cabelos comportados. Agora eu vou ser moderna, terei um amante, serei mulher do mundo! Foi interrompida pelo choro da filha menor, assustada com os olhos ensandecidos daquela mulher que parecia sua mãe, mas era furiosa, era atormentada, com o cabelo estranhamente espetado. Mamãe, o que está fazendo? Confusa, ela olhou para a pequena, guardou a tesoura, assentou o cabelo picotado. Vem cá, embalou a menina, vem cá, Mamãe está um pouco nervosa. Beijou-a e a fez sentar na cama, ao lado da mala. Devo me acalmar, as crianças precisam de mim, sensata, já não chega as loucuras do pai e sua nova mulher.
Organiza as coisas do marido, alisa as roupas na mala, pensa que logo o marido se dará conta da besteira que fez, sorri satisfeita ao imaginá-lo voltando contrito, os pedidos de desculpas, os elogios à mulher que ela é. Capricha na arrumação, o filho reparece e ri dela, está sorrindo por quê, mãe? Pode arrumar tudo, como uma empregada, o pai vai rir de você, ele e a nova mulher dele sempre riem, felizes, como eu nunca vi o pai rindo. Ela treme, quanto mal o marido está fazendo, o pobre menino está de cabeça tomada, não sabe o que fala. Ela põe a mão em seu ombro, filho, não diga isso, o papai vai voltar; ele grita, não! não, tire sua mão fedida de mim! Não quero que você seja mais minha mãe, você é chata, você é feia, por isso o pai foi embora, ele é feliz agora, ele beija a nova mulher dele, ele a abraça, pega suas mãos porque ela é bonita e você é feia! Feia e ruim!
Ela deixa o ódio tomar conta de si e novamente estapeia a face do filho, moleque mal criado, moleque dos infernos, saia da minha frente, ou arrebento seus dentes, saia, suma! A filha chora alto, mamãe, mamãe, você me dá medo, mamãe! e se agarra às suas pernas, mas ela se livra com um safanão, vá embora você também, vá com seu pai e a mulher dele! Apanha a mala, as sacolas, passa pela sala e leva uma garrafa de aguardente, vai ao quintal, bebe no gargalo, tosse, se engasga. Os filhos atordoados começam a chorar alto, ela pega querosene, fósforos e entorna o aguardente, ateia fogo às coisas do marido e ri alto, feliz, liberta!
O barulho atrai a vizinha, que tira as crianças dali, não faça besteiras, mulher. Ó mulher, pare com isso, que homem nenhum merece tamanho sofrimento. Ela ri e chora, feliz, as chamas laranjas lambendo e queimando o marido, ela gargalha, bem feito, seu filho-da-mãe. Ela grita, desatinada, a vizinha grita, as crianças choram; ela vira a garrafa de aguardente pela boca e pelas roupas e se atira ao fogo, aos braços do marido, satisfeita com o calor dos braços dele, com a pele ardente dele ao encontro com a sua.

De fôlego. E olha que lá pelo meio eu estava desdenhando dela e da mãe dela. Mas só pelo meio.
Rafa,
eu também cheguei a acreditar que dela não se originaria nada — senão a inércia misturada ao tormento quase bovino. Mas, ela surpreendeu.
Ia mandar este pro concurso, mas ele ultrapassou o tamanho e não vou cortar, nem editar, nem nada. Tem a vida própria dele.
Beijooooooooooooo
(( vamos hai-cai? ))
Putzgrila, tem hora que é fogo!
Oi Fênix,
…e ela ressurgiu das cinzas!
Também fui num só fôlego…(mas dando a maior força pra ela!).
beijão,
Mônica
MÔnica,
gosto da sua visão otimista, hehe…
Cafu,
É de matar!
beijoooooooooo
Belo texto, como sempre!
Poderia inscrevê-lo no concurso, não?
Beijo grande.
XXL
Obrigada!
Não posso inscrevê-lo, pois ele é maior que o tamanho máximo permitido.
Estou escolhendo outros.