31, Dezembro, 2008 • 2:07 pm
Fui corrigir ali um “r” que tinha esquecido, na palavra “parar”, daí já olhei com carinho o meu queridíssimo acento agudo diferencial no “pára” e lembrei que a reforma ortográfica entra em vigor a partir de amanhã.
Assim, querem tirar o assento do meu “pára!” — e vejam se “para!” tem a mesma intensidade sem o acento? Tem nada. Fica parecendo uma preposição perdida no ar. Essa gente não tem amor à língua, às suas peculiaridades, às suas regras.
“Enjôo”, nunca mais. Que “feiura” a língua assim, empobrecida. “Pêlo” em ovo? Pode esquecer.
Querem que eu tenha “ideias”. E eu só sei ter “idéias”.
Quem quiser conferir o documento oficial, clica aqui.
Outros podem fazer como eu e continuar ignorando tudo. Porque eu a-do-ro meus acentos.
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Eu deveria parar de escutar essa música, essa que me lembra de você — mas, ela não pára de cantar para mim, então, nós cantamos para você o dia inteiro e a noite inteira. Ainda mais alto quando todos dormem e vou perambulando e tropeçando nas paredes frias da minha casa, assim perdida, assim embriagada, assim febril de sonho, de ânsia, de saudade.
E você nem sabe.
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30, Dezembro, 2008 • 11:42 am
E se eu dançar na areia molhada, se eu valsar em espirais, assim primitiva e ancestral como quem chama pela chuva? E quando os primeiros pingos grossos de água fresca lamberem a minha pele, vou estender os braços, até que o céu despeje em mim suas gotas pesadas, chuva de abraço, chuva de beijo, tempestade de verão que me acolhe, me engole, ah! aquele raio um orgasmo…
Tudo isso por causa de um beijo. Seu beijo com gosto de vodka gelada na véspera do solstício — e você nem sabe que eu gosto de solstício.
Tudo isso por um beijo.
E você nem sabe.
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Eu sei que sou quase uma aberração nesta terra de morenos fanáticos. Os loucos-por-sol. Loucos-por-areia.
Eles bem que acham graça da minha sombrinha, da minha obsessão por proteção solar FPS 60.
Mas, ontem à noite, no jantar, eu vi vários camarões andando para cá e para lá, os pratos abarrotados de comida ruim. Parecia um quadro do Picasso — mas não, eram os loucos-por-sol-futebol-clube. Gigantescos camarões cheios de dentes, juro que parecia! Não que eles sorrissem e até mastigar era um processo dolorido — porque qualquer movimento arderia a cara tostada.
Hoje, no café da manhã, bolsas nos olhos mal dormidos. Era de se esperar: quem dorme com a sensação de estar deitado sobre lençóis incendiários? Mesmo assim, prontos para mais uma sessão tostadeira.
Não é que eu sou ranzinza nem implicante (só um pouco, tudo bem…). Juro que não entendo.
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27, Dezembro, 2008 • 7:13 pm
tem aquele gato que sempre vem à minha casa , ele chega e me olha — e quando eu tento contato, ele some em pulos lânguidos, sem olhar para trás, sem saber que me aflige, sem saber que me acumula em rejeição: a felina, a sua; o gato vira-lata e você vira-lata, os dois sumindo pela rua de paralelepípedo azulado, neste estranho dia de verão de sol esmaecido e vento frio; fico aqui parada, fico lá parada, alimentando as bestas, gotejando desilusão; eu venho aqui todos os dias para ver o rastro do gato, eu venho aqui todos os dias rever sua partida, em silêncio, em preces sussurradas, eu choro para dentro enquanto o gato foge rua acima; eu venho aqui todos os dias — eu espero você todos os dias.
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22, Dezembro, 2008 • 10:31 pm
ontem eu dormi tarde, eu dormi triste, para hoje acordar cedo no sofá gasto, este sofá que é minha sarjeta particular, a mão formigando, as costas doendo, o peito latejando de saudade de você, a cama empoeirada, a fronha com o seu cheiro; se eu esticar os dedos a dormência passa, se eu esticar os dedos, alcanço o telefone e com um tamborilar, balé mil vezes repetido dos dedos nas teclas, assim, sem precisar pensar, eu também o alcanço e …? ou o perco de vez, com essa minha inevitável mania de falar demais, falar até me arrepender, falar até me perder, até me afundar de novo neste sofá-leito, sofá-túmulo que enterra todos os restos de você e eu; e aqui enrolada na sua camiseta velha, cabelo desgrenhado, vou rezando por final feliz, que eu gosto mesmo é de final feliz, daqueles de novela, com resgate, promessas, mãos dadas, olhos brilhantes e beijos apaixonados, beijos de nunca mais, beijos de para sempre, beijos de sou tua-não-me-deixe-jamais.
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Hilda Hilst
Como se desenhados
Tu
E o de dentro da casa.
Entro
Como se entrasse
No papel adentro
E sem ser vista
Rasgo
Alguns véus e fibras
Sem ser amada
Pertenço.
Que sobreviva
O fino traço da tua presença.
Aroma. Altura.
E lacerada eu mesma
Que jamais se perceba
Umas gotas de sangue na gravura
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19, Dezembro, 2008 • 12:01 am
O João mandou, eu obedeci, ruiva boazinha que sou.
1. Livro/Autor(a) que marcou sua infância:
Monteiro Lobato, Stella Carr, Pedro Bandeira.
2. Livro/Autor(a) que marcou sua adolescência:
Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade
3. Autor(a) que mais admira:
Drummond, Cecília, e Hannah Arendt (ninguém falou que precisava ser só literatura)
4. Autor(a) contemporâneo:
Romério Rômulo. E detesto os autores “modernos”. E o que significa, exatamente, “contemporâneo”? Precisa estar vivo?
5. Leu e não gostou:
James Joyce, Hemingway, Virginia Woolf, Saramago.
6. Lê e relê:
Hilda Hilst (a poesia, da sua prosa não gosto), Drummond, Cecília, Romério — e Clarice em fases: faz tempo que não tenho uma.
7. Manias:
Ler mais de um livro ao mesmo tempo; cheirar os livros (também!), acariciar as páginas e invocar com sua textura; conversar com as personagens; contestar o final; ler 3 livros de cada autor até ter certeza que não gosto dele; ficar dias e dias e dias e dias mergulhadas no universo paralelo de cada livro findo, até que ele termine em mim e para mim, para depois renascer em inquietação e revisita, se for bom o suficiente.
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18, Dezembro, 2008 • 10:03 pm
Do Valter Ferraz, falando do “Para me amar”.
Renata,
gostamos tanto desse poema que a Aninha, minha esposa, leu o mesmo em nosso programa na PIER FM. Logo estará no ar eeu te viso.
Ajude-nos a divulgar a PIER FM.
“Ouça a PIER FM, a rádio que toca o coração”
Acesse: www.pierfm.com.br
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Bibi: Hoje tem o show da Madonna.
Dodó: Mas hoje é o aniversário da Mamãe!
Bibi: eu sei…
Dodó: O aniversário da Mamãe é muito mais importante!!
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1, Dezembro, 2008 • 9:14 am
Você tem que chegar urgente, furioso, arrebentando minhas contenções, meu muro de “nãos”; esgarçando com dedos prementes essa carcaça que me acolhe, me encolhe; você tem que vir calar minha boca com um beijo ou um tapa, pouco importa, desde que seja com força que é para rasgar minhas mentiras, essas palavras cheias de lógica que eu inventei para me refugiar; estas mentiras-escombros, estes restos de sonhos demolidos e noites desfeitas. Venha me sacudir os ombros com fúria até implodir a estrutura de álibis que eu criei, eu forjadora da minha prisão, ave-fênix entre grades enferrujadas, pássaro de fogo envolvido em cinzas de farsa — cinzas de vida vivida ao meio, asas soterradas sob penas velhas, sujas. Venha com uns dentes de sangue, com mãos inclementes, apertando, machucando; chegue deslocando o sensato, o bom, o razoável, entortando meus dias opacos; venha gritando até rachar o asfalto, até espantar os cachorros, os vizinhos, até perturbar os espíritos, venha preencher meu tímpano com seu urro primitivo. Que é para me golpear até eu morrer, que é para me arrancar dessa fortaleza-túmulo, que é para reduzir a pó minhas certezas até eu chorar as lágrimas grossas e salgadas que hoje me ressecam, que é para morrer incendiada e esgotada, que é para reviver, é para eu renascer em carne viva, vermelha e úmida esperança.
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Quem falou