Adélia Prado
Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.
Arquivado como:Outros autores , Adélia Prado
Saí para o pátio escuro, porque ouvi a garoa leve lamber a janela, saí ali ao lado da bananeira, meus dedos febris marcando o vidro frio da porta que se abre em assobio; e, ali, ao lado da bananeira que tanto me conforta, levantei o queixo e deixei a chuva gelada cair sobre meu rosto inflamado, deixei a chuva lavar meus olhos desertos, minha boca flácida. Ali, eu me despedi da bananeira, dos sonhos derramados, dos esforços vãos. Não, eu não vou em paz, eu vou com pressa, eu vou arrastando uns despojos da tormenta, eu vou atribulada, o sangue esparramando ansiedade pelos meus músculos. Não, você não entende o que eu escrevo; não, eu não escrevo para você: nem para mim. Eu escrevo para desafogar, eu escrevo quando a noite silente cala a chuva gelada e minha face arde. Isso é uma despedida e despedidas não fazem sentido. Nunca. E depois outra vida recomeça, a bananeira, as madrugadas insones, outras despedidas — tudo se aplaina, as cores esmaecidas pelo tempo: memória longínqua. Depois, o sentido pouco importa, o sentido se reverte, se inverte, se desmancha. E, talvez, o novo dia que amanhece venha colorir de esperança as horas. E depois…
Arquivado como:Prosa , bananeira, Separação
Arquivado como:Fotografia
eu não quero ser uma escritora.
Eu simplesmente não consigo evitar.
Arquivado como:Cotidiano , Escrever
Charles Bukowski
if it doesn’t come bursting out of you
in spite of everything,
don’t do it.
unless it comes unasked out of your
heart and your mind and your mouth
and your gut,
don’t do it.
if you have to sit for hours
staring at your computer screen
or hunched over your
typewriter
searching for words,
don’t do it.
if you’re doing it for money or
fame,
don’t do it.
if you’re doing it because you want
women in your bed,
don’t do it.
if you have to sit there and
rewrite it again and again,
don’t do it.
if it’s hard work just thinking about doing it,
don’t do it.
if you’re trying to write like somebody
else,
forget about it.
if you have to wait for it to roar out of
you,
then wait patiently.
if it never does roar out of you,
do something else.
if you first have to read it to your wife
or your girlfriend or your boyfriend
or your parents or to anybody at all,
you’re not ready.
don’t be like so many writers,
don’t be like so many thousands of
people who call themselves writers,
don’t be dull and boring and
pretentious, don’t be consumed with self-
love.
the libraries of the world have
yawned themselves to
sleep
over your kind.
don’t add to that.
don’t do it.
unless it comes out of
your soul like a rocket,
unless being still would
drive you to madness or
suicide or murder,
don’t do it.
unless the sun inside you is
burning your gut,
don’t do it.
when it is truly time,
and if you have been chosen,
it will do it by
itself and it will keep on doing it
until you die or it dies in you.
there is no other way.
and there never was.
Arquivado como:Outros autores , Escrever
11, Maio, 2009 • 11:31 am
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sei que parece silêncio, mas é rebuliço, entranhas retorcidas; é meu sangue azedo, coagulado, é minha veia contraída, pronta para o grito – mesmo quando minha boca se estreita; parece sereno este ar parado, parece calmaria, mas veja!, é elétrico, carregado, anunciado de tempestade; sei que parece pouco, que parece nada, mas é meu corpo do avesso, é meu corpo incendiado, meu corpo em cinzas, é meu luto – mesmo quando meus dedos se calam, mesmo na noite seca e muda -, é o prenúncio e o fim, é minha morte e meu renascimento.
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Quem falou