eu vejo as cores desse dia ensolarado e quente. as cores e as pessoas. vejo as cores e as pessoas misturadas a elas, indistintas. elas fingem que não me vêem, eu finjo que acredito e ninguém ousa reconhecer em voz alta a minha estranheza.
essa estranheza que não é bela, é a unicidade do ímpar, do desencaixado. eu e minha brancura transcendental no meio de todos, marrons e ressequidos, os filhos do sol, ao redor da piscina azul reluzente, das pedras de areia escaldada. essas pessoas igualáveis em seu esforço para se imiscuir, para se dissolver na multidão de semelhantes. e então o esforço para se sobressair, então a busca pelo brilho , em terra de cego quem é mais cego é rei?
ah que me distraio e assim evito o âmago do meu desencontro, o coração da minha própria unidade; evito meu coração e meu estado de um – eu olho as pessoas e tudo nelas realça minha imparidade. minha solidão.
enquanto elas se movem em massa uniforme e ocre – eu, aqui desalojada, aqui eu brilho, alvura desconfortável sob meu chapéu de palha e uns óculos vermelhos e também vermelhos são meus pensamentos, sabe? vermelho é tudo aquilo que lateja e se esbarra no meu crânio, como se nós dois e nossas lembranças fôssemos vistos através de uma névoa de sangue vivo, pulsante — mas, vivo? vivo? o que de nós dois ainda vive, senão essas lembranças que eu carrego enterradas na minha estranheza?
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