Não sei de amanhã. Isso mesmo: não sei o que vai acontecer – nem me importo. Deixei em algum canto daquela casa vazia as certezas que me sustentavam. Verdade que agora eu ando mais flácida, meio flexível, sei lá; verdade que agora eu ando como se estivesse meio desconjuntada na espinha. E você, tão doce, disse outro dia, ah!, você anda como quem dança. E eu ri. Eu ri meio tragicamente, sem você nem suspeitar, sem você sequer desconfiar o que esconde meu riso que você não adivinha trágico: minhas vértebras mal se equilibram entre os vazios das minhas certezas abandonadas.
Não sei como vivo. E “não sei” anda tão presente na minha vida que inicio com ele dois parágrafos, dois dias, duas semanas e uns meses que foram escoando sem eu saber: só senti. Se eu lhe contasse isso, você daria de ombros, importa é que você sentiu, é o que você sente – é isso que você diria, você que sempre sabe as palavras certas. Você que sempre sabe e não se abala com o tanto que eu não sei. E vai preenchendo tantas lacunas, assim suavemente, assim diretamente, com a mesma segurança com que sua mão se apropria da minha pele, do meu cabelo, madrugada adentro. Você segue, cheio de certezas, implacável. E não me deixa fugir.
(Não que eu tenha tentado com muita seriedade, admito.)
Com tanta sabedoria improvável e inesperada dissolvida na sua juventude – ah, que essa sua juventude calca suas certezas, disso eu sei: já fui assim – constrói para mim um espaço onde o que eu não sei deixa de me assustar e se revela encantador. Assim era quando eu também era jovem e quando o não-saber me inebriava e impelia adiante. E neste espaço que você tece pelas madrugadas, eu me refugio naquelas vezes em que durmo só com sua camiseta e resquícios do seu cheiro.
Não sei mais escrever. Talvez seja temporário. Talvez seja você, que me alivia da tormenta de não-seis. Não sei o que é. Nem quanto vai durar.
Para sempre – você diria. Para sempre – você diz.
E eu sorrio deliciada, de encontro ao seu peito quente. Mesmo (não) sabendo que nada é para sempre.
* Já dizia o bom e velho Sócrates.


Meus parabens! O seu trabalho é muito bom.
Que o SENHOR Deus continue lhe dando mais e mais inspiração…
a burrice, uma dádiva
isso mesmo.