Ah que o quotidiano que se dobra à sucessão de uns dias governados por uma cigana – talvez?, um espírito livre qualquer que me trouxe inusitadas ainda que sedutoras surpresas. Talvez tenha sido quem fez voltarem meus pássaros, atraídos pela canção antiga, em língua que jamais ouvi mas sempre soube, sempre me falou; e que me carregou pela insônia, pelas madrugadas de tumultuados sonhos, assombrados por uma esperança que me doía nos ossos.
Faço pouco sentido? Mas o que quero contar, nestas linhas que nunca te chegarão aos olhos, é das reviravoltas tamanhas que retorcem meus dias. E meus passos que vão como se guiados por um raio de sol, prismático e mágico, estes passos que por pouco não desenham espirais pela calçada dura. Como se em valsa.
Quero te contar também das noites em que acordo e mantenho fechados os olhos, presa a respiração, que é para que aqueles momentos nunca se acabem, teu cheiro e o tempo aprisionado em meus pulmões; a vida pulsando na cadência do teu peito, teu sangue correndo, salgado e espesso, se confundindo com o que é meu, como se entrelaçam nossos braços e pernas na madrugada fria.
E se é com uns dedos lunares que te escrevo, sem qualquer discernimento se vivo, se sonho? E se aquele pássaro de obsidiana e olhos fulgentes – ah!, ah! – e se aquele pássaro é senão um do teu bando, ou uma das tuas formas? Das diversas formas que agora percebo que atravessam a minha vida? Se noites e dias, vigília e sonho se confundem como nosso sangue e nossos corpos; se indistintamente danço entre os mundos?
Ssshh, ouço teu sussurro, tua mão que me aquieta os pensamentos com leve toque. Ssshh, e me aperta e me enreda mais e não sei nada senão de umas estrelas que espiam pela fresta da janela.
Ssshh, me rendo e me dissolvo…

