É que ali, meu rosto encostado no seu peito quente, ah! ali aconteceu de novo: aqueles sentimentos antigos, dissolvidos na memória e no passado, agora refeitos e renascidos. Como dedos que se movem e entrelaçam aquele único pedaço de barbante em novos desenhos e antigas histórias. Um barbante e tudo que nele se trespassa – e esse desejo transfixado no meu flanco. Minhas veias sinuosas por onde navegam nossas noites, tecidas e cantadas em ciclos que se renovam e ressurgem a cada laçada; um suspiro a cada curva, a cada volta do barbante.
E se os dedos do destino assim nos trançam e se eu me quedo embriagada demais para resistir? Se meu corpo é nada senão lasso e cativo do seu?, se a cada noite eu me enredo mais pelas tramas do fio que nos retrata?
E se eu restar embaraçada por esses sentimentos, as pernas tortas e as mãos crispadas, o peito rasgado sob o céu aberto, enquanto ouço ao longe a revoada e o barulho das suas asas?
Ilustração “Cama de Gato #2″ por Cecília Murgel



Tem quem resista se amarrar no teu cabelo do fogo, Foguinho?