Fênix em Verso e Prosa

Mini Ruiva

lambis

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marginal

eu vejo as cores desse dia ensolarado e quente. as cores e as pessoas. vejo as cores e as pessoas misturadas a elas, indistintas. elas fingem que não me vêem, eu finjo que acredito e ninguém ousa reconhecer em voz alta a minha estranheza.

essa estranheza que não é bela, é a unicidade do ímpar, do desencaixado. eu e minha brancura transcendental no meio de todos, marrons e ressequidos, os filhos do sol, ao redor da piscina azul reluzente, das pedras de areia escaldada. essas pessoas igualáveis em seu esforço para se imiscuir, para se dissolver na multidão de semelhantes. e então o esforço para se sobressair, então a busca pelo brilho , em terra de cego quem é mais cego é rei?

ah que me distraio e assim evito o âmago do meu desencontro, o coração da minha própria unidade; evito meu coração e meu estado de um – eu olho as pessoas e tudo nelas realça minha imparidade. minha solidão.

enquanto elas se movem em massa uniforme e ocre – eu, aqui desalojada, aqui eu brilho, alvura desconfortável sob meu chapéu de palha e uns óculos vermelhos e também vermelhos são meus pensamentos, sabe? vermelho é tudo aquilo que lateja e se esbarra no meu crânio, como se nós dois e nossas lembranças fôssemos vistos através de uma névoa de sangue vivo, pulsante — mas, vivo? vivo? o que de nós dois ainda vive, senão essas lembranças que eu carrego enterradas na minha estranheza?

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There must be some way outta here

De Bob Dylan, ouça All Along the Watchtower, com U2

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Relendo Raduan Nassar – II

Lavoura arcaica – trecho

O tempo, o tempo é versátil, o tempo faz diabruras, o tempo brincava comigo, o tempo se espreguiçava provocadoramente, era um tempo só de esperas, me guardando na casa velha por dias inteiros; era um tempo também de sobressaltos, me embaralhando ruídos, confundindo minhas antenas, me levando a ouvir claramente acenos imaginários, me despertando coma gravidade de um jugamento mais áspero, eu estou louco! e que saliva mais corrosiva a desse verbo, me lambendo de fantasias desesperadas, compondo máscaras terríveis na minha cara, me atirando, às vezes mais doce, em preâmbulos afetivos de uma orgia religiosa, esfolando as farpas sanguíneas de nossas cercas, me guiando até a gruta encantada dos pomares! que polpa mais exasperada, guardada entre as folhas de prata, tingindo meus dentes, inflamando minha língua (…)

O tempo, o tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso, ele próprio conhecendo seus caminhos, recolhendo e filtrando de vária direção o caldo turvo dos afluentes e o sangue ruivo de outros canais para com ele construir a razão mística da história, sempre tolerante, pobres e confusos instrumentos, com a vaidade dos que reclamam o mérito de dar-lhe o curso, não cabendo competir com ele o leito em que há de fluir, cabendo menos ainda a cada um correr contra a corrente, ai daquele, dizia o pai, que tenta deter com as mãos seu movimento: será consumido pelas águas (…)

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Relendo Raduan Nassar

Um copo de cólera – trecho

(…) eu estava dentro de mim, precisava naquele instante é duma escora, precisava mais do que nunca – pra atuar – dos gritos secundários duma atriz, e fique bem claro que não queria balidos de platéia, longe disso, tinha a lúcida consciência então de que só queria meu berro tresmalhado, e ela nem tinha tanto a ver com tudo isso (concordo que é confuso, mas era assim), eu estava dentro de mim, eu já disse (e que tumulto!), estava era às voltas c’o imbróglio, co’as cólicas, co’as contorções terríveis duma virulenta congestão, co’as coisas fermentadas na panela do meu estômago, as coisas todas que existiam fora e minhas formigas pouco a pouco carregaram, e elas eram ótimas carregadeiras as filhas-da-puta, isso elas eram excelentes, e as malditas insetas me tinham entrado por tudo quanto era olheiro, pela vista, pelas narinas, pelas orelhas, pelo buraco das olheiras especialmente! e alguém tinha que pagar, alguém sempre tem que pagar queira ou não, era esse um dos axiomas da vida, era esse o suporte espontâneo da cólera (quando não fosse o melhor alívio da culpa) (…)

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Estranhada

Em crise de identidade visual.

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Só eu…

… que acho que esse blog está com cara de repartição pública?

EDITADO

Não acho mais. Agora acho que está com cara de … seilá.

Não sei o que acho.

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Visitantes Poéticos

Pedro Lobato Pinto de Moura

ah! cão
que sabe na ponta da língua
o gosto desta ferida

de noite no raro sonho
pode ser que ele desça de Sirius
e sussurre:

te lambo

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I’m gonna love you till the Heaven stops the rain

The Doors – Touch me

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impublicáveis

há um turbilhão de palavras que eu escrevo compulsivamente enquanto uns dormem, outros sonham e alguns talvez amem; nessas palavras eu me afogo, elas me distraem da minha dor, do meu próprio sofrimento — este que eu escondo, mas segue me envenenando as entranhas, me azedando o sangue.

escrevo e me escondo, escrevo e fujo.

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Mais luzente quando não estás

De Zeca Baleiro e Hilda Hilst, ouça Canção VI, com Ná Ozetti

Três luas, Dionísio, não te vejo.
Tres luas percorro a Casa, a minha.
E entre o pátio e a figueira
Converso e passeio com meus cães.

E fingindo altivez digo à minha estrela
Essa que é inteira prata, dez mil sóis
Sirius pressaga

Que Ariana pode estar sozinha
Sem Dionísio, sem riqueza ou fama
Porque há dentro dela um sol maior:

Amor que se alimenta de uma chama
Movediça e lunada, mais luzente e alta

Quando tu, Dionísio, não estás.

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Cantares – XXXVIII

Hilda Hilst

Toma-me ao menos
Na tua vigília.
Nos entressonhos.
Que eu faça parte
Das dores empoçadas
De um estendido de outono

Do estar ali e largar-se
Da tua vida.

Toma-me
Porque me agrada
Meu ser cativo do teu sono.
Corporifica
Boca e malícia.
Tatos.
Me importa mais
O que a ausência traz
E a boca não explica.

Toma-me anônima
Se quiseres. Eu outra
Ou fictícia. Até rapaz.
É sempre a mim que tomas.
Tanto faz.

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Don’t swallow this time – II

Antony and the Johnsons – River of sorrow

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Don’t swallow this time

Antony and the Johnsons – River of sorrow

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negativo

resta em nós a tristeza do que não fomos.
sombra que cresce na madrugada insone
em azul, em púrpura e vinho —

em sangue pisado.

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Daydreamer

Adele no Jool’s Holland

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fênix em verso

sinto falta
de quando me dissolvia
na ponta do lápis,
para então renascer
- breve e desconhecida -
em poesia.

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Além alma (uma grama depois)

Paulo Leminski

Meu coração lá de longe
faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze:
NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.
Pra que me serve um negócio
que não cessa de bater?
Mais me parece um relógio
que acaba de enloquecer.
Pra que é que eu quero quem chora
se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?

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Why don’t you do right?

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gag

tenho versos silenciados, entalados na garganta.
versos espinha-de-peixe.
eles me arranham, eles gritam enquanto engasgo.

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Ssssshhhhh…

eu me calei para não gritar. para não gritar bem alto, bem forte, bem doído.

eu me calei para não espantar os vizinhos, não assustar os cachorros. eu calei um urro violento.

eu me calei para não berrar teu nome.

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Das pequenas alegrias de uma estudante

Marina diz:
e como eu fiquei feliz de dar 5 sutiãs pra diarista lavar pra mim
hahahahhah

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enquanto isso…

a ansiedade rói minhas vísceras.

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I told you, forever

I love you, forever
I told you, I love you
I love you, forever
I told you, forever
You never, you never
You told me forever

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Falta

Tua ausência é um grito que atravessa a noite, rasga paredes, quebra as xícaras.

Tua ausência branca ofusca a madrugada.

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Receita

Deus (?) ajuntou um novelo vermelho de ansiedade, mais umas moléculas de água, pendurou umas proteínas, adicionou um par de ácidos graxos. Parou, coçou o queixo, franziu o cenho, decidiu inovar: enfiou no topo um tufo de cabelos de milho. E, como sina ou bênção?, decidiu que minha essência seria a do renascimento.

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Twitter: Os pios da Fênix

  • Fuck you, fuck you very much!!!!...7 hours ago
  • e muitas risadas, muitas risadas em uníssono, Não é engraçado, Mamãe? Elas que nunca falam palavrão: pequenas transgressões são libertadoras...7 hours ago
  • 'cause your words don't translate/ and it's getting quite late /so please don't stay in touch. Gente, o que é isso? Lilly Allen, Mamãe!...7 hours ago
  • risadas múltiplas e desenfreadas vindo do quarto das menininhas enquanto elas cantam. presto atenção: fuck you fuck you very much...7 hours ago
  • I beg your pardon, I never promised you a rose garden. Along with the sunshine, There's gotta be a little rain sometimes....1 day ago


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