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Arquivo da categoria ‘Desenho’

Bendigeidfran

Lá onde se ergue o cumo da mais alta montanha
Onde se confundem e misturam as nuvens e o céu
Lá é o meu reino, Eu que governo o limbo, a chuva e a escuridão

Com um grito fantástico, romperei o silêncio que prenuncia a aurora
E seguirei para a terra dos homens com pés silenciosos feito a morte
Eu, que sei dos segredos que sussurram as sombras,
Virei revestido pela noite, acompanhado do meu séquito:
Meus irmãos negros alados, meus irmãos corvos

Quem não me conhece estremecerá e o pavor tomará suas entranhas
Pois Eu a tudo enxergo, até o fel, até a desesperança
E a amargura que correm pelo sangue dos descrentes

Quando eu fizer soar estrondoso meu cajado sobre a terra árida
Sobre os homens cairão mil anos de oblívio
E meu sangue escorrerá pela terra a tudo enegrescendo
A tudo repovoando com palavras mágicas e com a antiga ciência
Que os homens enterraram sob deuses e templos estéreis

Então, sob outro estalar do meu cajado, derramar-se-á sobre eles
O conhecimento de mundos esquecidos
A magia dos deuses inomináveis, cantada em línguas obscuras

E quando eu esticar minha mão esquerda as nuvens se dissiparão
Soprará furioso e gélido o vento que anuncia o retorno do oculto
Surgindo nos sonhos dos herdeiros das sombras
E a meus filhos será revelado o verdadeiro conhecimento
Que minha voz cravará nas pedras: as letras da minha profecia

Quando o vento soprar os compassos do meu chamado
Se erguerão enfeitiçadas a terra, as folhas e a bruma
E aqueles esmaecidos caminhos que levam ao tempo mágico
Se farão nítidos aos que atenderam à minha voz
Porque minhas palavras falam de dentro do peito de cada homem
Densas e escuras como o sangue que corre em suas veias
Elas sopram em sua alma como sopra a brisa
Em que navego com meus irmãos corvos

Enquanto as horas escoam intermináveis pela madrugada fria
Sobrevoarei a terra descoberta com meu bando errante
Quando em trovão se ouvir pela última vez meu cajado
A romper o espesso véu do tempo, anuncia-se minha partida
Mas aqui deixarei minhas pedras e meus corvos encantados
Para que minhas palavras se mantenham vivas entre os homens

Permanecerei escondido entre as dobras do tempo
Até que Eu seja esquecido, até que reste nada senão meu legado:
Meu canto dissolvido no vento, as pedras e os corvos
Até que meu reino se misture, novamente, às trevas
Até que Eu seja nada senão uma réplica da noite,
Sombra grave que paira sobre os sonhos, etérea, escura,
Tecida em magia ancestral – e sempre presente.

 

*****
- Nota:
O poema foi inspirado por este desenho aqui.
Inseri no meio dos corvos alguns dos meus pássaros negros, esses que me acompanham há tempos, que atravessam até a linha do imaginário: vão também acompanhar minhas personagens. Não poderia ser diferente aqui, portanto – e os meus pássaros, atentem!, se fazem reconhecer pelas pupilas incendiadas.

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Cama de gato

É que ali, meu rosto encostado no seu peito quente, ah! ali aconteceu de novo: aqueles sentimentos antigos, dissolvidos na memória e no passado, agora refeitos e renascidos. Como dedos que se movem e entrelaçam aquele único pedaço de barbante em novos desenhos e antigas histórias. Um barbante e tudo que nele se trespassa – e esse desejo transfixado no meu flanco. Minhas veias sinuosas por onde navegam nossas noites, tecidas e cantadas em ciclos que se renovam e ressurgem a cada laçada; um suspiro a cada curva, a cada volta do barbante.

E se os dedos do destino assim nos trançam e se eu me quedo embriagada demais para resistir? Se meu corpo é nada senão lasso e cativo do seu?, se a cada noite eu me enredo mais pelas tramas do fio que nos retrata?

E se eu restar embaraçada por esses sentimentos, as pernas tortas e as mãos crispadas, o peito rasgado sob o céu aberto, enquanto ouço ao longe a revoada e o barulho das suas asas?

Ilustração “Cama de Gato #2″ por Cecília Murgel

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Yeah! :)

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Vermillion Bird

Maravilhoso, uau! Superb job, wow!

Lisa Rene


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Asas. Em meus sonhos, sempre asas — já não me importava a vida, o cativeiro; só o vôo, o trajeto da alma. E depois de tantos dias escuros, tanto sofrimento seco e silencioso, eis que endureceram-se minhas penas, eis que se fez pesado o corpo que levitava.

Então, você chegou com um par de sapatos. Vermelho, disse — e, assim, com esta única palavra, eu entendi que eram mágicos. Esperei, em vão, que me alçassem aos céus; esperei que me devolvessem o vôo. Mas de mágicos não têm nada esses sapatos, atirando-os ao longe, olhos ardendo: sal de lágrimas desesperançadas; estes inúteis sapatos vermelhos, rouca, desafinada, engasgada: voz de desilusão.

Fechou os olhos? Não! Veja este meu corpo!, é agora que tomo consciência do meu peso, da minha falta de jeito; veja este meu corpo sólido e triste! Fechou os olhos? Não me lembrei de fechar os olhos, nem sei mais sonhar…

Calcei os sapatos, são vermelhos, eles brilham, tenho medo; ah!, que serei apenas uma mulher patética, com seu corpo grande e maltratado, de olhos fechados e ridículos reluzentes sapatos vermelhos? E os sonhos todos vãos? Os olhos, feche os olhos.

De olhos fechados não me vêm as asas — e é estranho sentir um movimento dos meus pés, meu corpo oscila; parece que anda instável o chão? E é música isso que vem pelo ar, a enfeitar o vento, atavios de fitas de cetim e um quê de seda azul e rosa, fluida, leve, asa de borboleta, libélula, pássaro? Ah, mas que é música e meus pés se agitam, meu corpo desliza, aperto os olhos, liberto os braços como antes estendia as asas; ah!, é música, os sapatos vermelhos que não me devolveram o vôo me deram a terra! Meus pés agora querem o chão, este solo avermelhado e quente, em rodopios, em piruetas, em ligeiros e cadenciados passos. E é em primavera e valsa que a mim se apresenta o caminho — do céu ao chão, das nuvens à terra; há ali uma estrada, não!, há ali um caminho que se abre em dádiva, folhas em branco que se desdobram em oferta — e por ele vou valsando, com sapatos vermelhos e sonhos coloridos de arco-íris.

The Red Shoes, por João Grando

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Lágrima

Giram ao meu redor os destroços da minha aridez — eu que sou o eixo, o centro da tormenta, o olho do vórtice, eu o próprio transtorno. Se eu ao menos chorasse, para lavar da pele a escuridão e resgatar-me do abismo em que me dissolvo e calo. Se eu ao menos chorasse e gritasse até acordar os vizinhos, até eriçar o pêlo dos cachorros! Mas, o sal das lágrimas contidas queima meus olhos sem alívio, estes olhos insones e angustiados; se viesse a mim a redenção pelo jorro de uns olhos convulsivos!, mas até o soluço me falta: resto no poço insondável que me habita.

Sou o meu vazio.

 

Lágrima, por João Grando

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Tantas faces espectadoras de uma primeira perda — oh!, a primeira desilusão… Quando perdi a inocência? nada me lembro senão de já não contar com ela, mas do um amargor incômodo que impregna a boca. Sei dos sucessivos ataques que se condensam em um só golpe:  abrupto e preciso, uma chicotada no ar, o assovio de um gume inclemente — o rasgo vermelho agudo na pele. E não há consolo, não há reparo, só a perda, a perda, a latejante perda, só a perda que nunca sara, nunca pára. Acompanham-me espectadores que são restos dos meus sonhos, são outros mortos, são solidários, são solitários, indiferentes. Adulta, acumulo tantas mortes que já não conto com mãos estendidas, nem com flores, só com dentes afiados, com presas, com olhos a cobiçar minha carne e o que escoa das minhas feridas. E às vezes, a vida dói tanto que eu inventei um choro em vertigem, quando eu lamento em espiral, em giro e respiro, abro os braços em redemoinho e rodopio até que vocês todos, meus restos e meus amores, sejam nada além de canto e vento, uivo e soluço.

Desenho de João Grando

(( Clique no desenho para vê-lo ampliado. Vale a pena. ))

 

*The Pixies

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Monstro com Saudades, de João Grando

(*) verso de Carlos Drummond de Andrade

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João,

Acordei ontem com sensação que não soube explicar. A leveza apesar de — . Como se eu flutuasse, ainda que meu corpo soubesse que ele jamais voaria por si mesmo. Com a incômoda consciência dos sólidos, dos não-alados.

Persistia a sensação, apesar da vida, apesar da segunda-feira.

Então, eu vi teu desenho e entendi.

Simples e rápida, a compreensão se fez pelas tuas linhas.

E gosto demais da libélula — que me empresta um pouco de seu encanto e suas asas inefáveis.

Desenho de João Grando

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Acordei com o ruído daquela velha vitrola, o som mecânico do braço, dois estalos, silêncio, antecipo a música, arrepio na pele. A agulha pousa suavemente no vinil preto, a música antes da música, anúncio de prazer, meus pêlos eriçados, a noite é espessa, quente e úmida. O primeiro chiado rasga, rouco e suave, o disco — e a música se espalha e dança pelas paredes azuladas, as sombras de nós dois ainda em valsa.

E se for sonho? Tua pele arrepiada, teus pêlos macios, tua barba, a boca úmida. Outro estalo, o vinil sussura, a agulha viaja em círculos, penso em espirais, teu corpo e o meu; e se foi sonho? Gelado o metal que adivinho enferrujado, busco a luz — o tato se engana, teu calor me encanta; um puxão brusco dos meus dedos, a lâmpada amarela o quarto em estalo uníssono ao da agulha na vitrola. Vejo e não me engano, vejo e me encanto: são teus olhos, é teu corpo e é sonho. Abro os olhos e sonho.

Desenho de João Grando

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A imagem da palavra

Infelizmente, não sei o autor deste desenho de Clarice Lispector. Se alguém souber, agradeço — daí farei os devidos créditos…

Prá variar, foi a Maína que descobriu: a caricatura é do Cássio Loredano.

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