Fênix em Verso e Prosa

Vermelho

Asas. Em meus sonhos, sempre asas — já não me importava a vida, o cativeiro; só o vôo, o trajeto da alma. E depois de tantos dias escuros, tanto sofrimento seco e silencioso, eis que endureceram-se minhas penas, eis que se fez pesado o corpo que levitava.

Então, você chegou com um par de sapatos. Vermelho, disse — e, assim, com esta única palavra, eu entendi que eram mágicos. Esperei, em vão, que me alçassem aos céus; esperei que me devolvessem o vôo. Mas de mágicos não têm nada esses sapatos, atirando-os ao longe, olhos ardendo: sal de lágrimas desesperançadas; estes inúteis sapatos vermelhos, rouca, desafinada, engasgada: voz de desilusão.

Fechou os olhos? Não! Veja este meu corpo!, é agora que tomo consciência do meu peso, da minha falta de jeito; veja este meu corpo sólido e triste! Fechou os olhos? Não me lembrei de fechar os olhos, nem sei mais sonhar…

Calcei os sapatos, são vermelhos, eles brilham, tenho medo; ah!, que serei apenas uma mulher patética, com seu corpo grande e maltratado, de olhos fechados e ridículos reluzentes sapatos vermelhos? E os sonhos todos vãos? Os olhos, feche os olhos.

De olhos fechados não me vêm as asas — e é estranho sentir um movimento dos meus pés, meu corpo oscila; parece que anda instável o chão? E é música isso que vem pelo ar, a enfeitar o vento, atavios de fitas de cetim e um quê de seda azul e rosa, fluida, leve, asa de borboleta, libélula, pássaro? Ah, mas que é música e meus pés se agitam, meu corpo desliza, aperto os olhos, liberto os braços como antes estendia as asas; ah!, é música, os sapatos vermelhos que não me devolveram o vôo me deram a terra! Meus pés agora querem o chão, este solo avermelhado e quente, em rodopios, em piruetas, em ligeiros e cadenciados passos. E é em primavera e valsa que a mim se apresenta o caminho — do céu ao chão, das nuvens à terra; há ali uma estrada, não!, há ali um caminho que se abre em dádiva, folhas em branco que se desdobram em oferta — e por ele vou valsando, com sapatos vermelhos e sonhos coloridos de arco-íris.

The Red Shoes, por João Grando

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Try this trick and spin*

Tantas faces espectadoras de uma primeira perda — oh!, a primeira desilusão… Quando perdi a inocência? nada me lembro senão de já não contar com ela, mas do um amargor incômodo que impregna a boca. Sei dos sucessivos ataques que se condensam em um só golpe:  abrupto e preciso, uma chicotada no ar, o assovio de um gume inclemente — o rasgo vermelho agudo na pele. E não há consolo, não há reparo, só a perda, a perda, a latejante perda, só a perda que nunca sara, nunca pára. Acompanham-me espectadores que são restos dos meus sonhos, são outros mortos, são solidários, são solitários, indiferentes. Adulta, acumulo tantas mortes que já não conto com mãos estendidas, nem com flores, só com dentes afiados, com presas, com olhos a cobiçar minha carne e o que escoa das minhas feridas. E às vezes, a vida dói tanto que eu inventei um choro em vertigem, quando eu lamento em espiral, em giro e respiro, abro os braços em redemoinho e rodopio até que vocês todos, meus restos e meus amores, sejam nada além de canto e vento, uivo e soluço.

Desenho de João Grando

(( Clique no desenho para vê-lo ampliado. Vale a pena. ))

 

*The Pixies

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Sentidos

Acordei com o ruído daquela velha vitrola, o som mecânico do braço, dois estalos, silêncio, antecipo a música, arrepio na pele. A agulha pousa suavemente no vinil preto, a música antes da música, anúncio de prazer, meus pêlos eriçados, a noite é espessa, quente e úmida. O primeiro chiado rasga, rouco e suave, o disco — e a música se espalha e dança pelas paredes azuladas, as sombras de nós dois ainda em valsa.

E se for sonho? Tua pele arrepiada, teus pêlos macios, tua barba, a boca úmida. Outro estalo, o vinil sussura, a agulha viaja em círculos, penso em espirais, teu corpo e o meu; e se foi sonho? Gelado o metal que adivinho enferrujado, busco a luz — o tato se engana, teu calor me encanta; um puxão brusco dos meus dedos, a lâmpada amarela o quarto em estalo uníssono ao da agulha na vitrola. Vejo e não me engano, vejo e me encanto: são teus olhos, é teu corpo e é sonho. Abro os olhos e sonho.

Desenho de João Grando

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Receita

Deus (?) ajuntou um novelo vermelho de ansiedade, mais umas moléculas de água, pendurou umas proteínas, adicionou um par de ácidos graxos. Parou, coçou o queixo, franziu o cenho, decidiu inovar: enfiou no topo um tufo de cabelos de milho. E, como sina ou bênção?, decidiu que minha essência seria a do renascimento.

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  • Fuck you, fuck you very much!!!!...7 hours ago
  • e muitas risadas, muitas risadas em uníssono, Não é engraçado, Mamãe? Elas que nunca falam palavrão: pequenas transgressões são libertadoras...7 hours ago
  • 'cause your words don't translate/ and it's getting quite late /so please don't stay in touch. Gente, o que é isso? Lilly Allen, Mamãe!...7 hours ago
  • risadas múltiplas e desenfreadas vindo do quarto das menininhas enquanto elas cantam. presto atenção: fuck you fuck you very much...7 hours ago
  • I beg your pardon, I never promised you a rose garden. Along with the sunshine, There's gotta be a little rain sometimes....1 day ago


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