Fênix em Verso e Prosa

Chuva de flores

Por Xico Santos

Vê-la assim, dormindo calmamente ao meu lado pela primeira vez, chega a ser quase irreal; não fosse o leve perfume que emana por entre as dobras dos lençóis, seria um sonho, certamente.

Desenho teu corpo com meus olhos enquanto brinco com uma mecha de cabelo rebelde que insiste em manter o desenho das suas tranças de menina, e chego a temer que a força desse olhar, te acorde…

Minha mulher!

Perdoa-me, se uso assim… um pronome possessivo, num momento tão sublime, é que, diante da certeza de que não foi sonho, na penumbra silenciosa deste quarto, chego a acreditar que ele não soe assim como redoma; mas, útero.

Ao pensar na trajetória deste amor, na força que nos moveu até aqui, penso Read the rest of this entry »

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Estação esperança

É na madrugada que a vida se alarga e as estrelas sopram acalantos; ah! elas dizem que logo estarás de volta, elas dançam como crianças felizes ali ao lado da lua, eterna companheira tua, esta mesma lua olha agora teu rosto em ângulo, teus olhos de tanto querer. É madrugada larga e tua ausência se faz ainda mais aguda, tua falta ataviando em rutilos rubros a noite prateada.

Eu danço, sozinha, sob a abóbada de prismas, ali ao centro há a constelação de Sagitário, me ensinaste. Teu signo é o centro da galáxia, como tu em minha vida — teu sussurro em minha fronte; em minha boca tua promessa, eu volto, espera. E aquela veia no teu pescoço, sob o azul lateja rubro teu sangue e teu ritmo, eu danço aqui a cada batida do teu coração; rodopio, abro os braços e giro — em círculos volteio tua existência, ah! rodopio pela varanda, resfolegante em meu delírio.

Serpenteio em minha dança antiga, eu evoco a chuva, eu canto teu nome, tu és idéia? Incandescem pontos de luz na madeira, em valsas e espirais eles me acompanham, doce ilusão, foi tua boca ou foi sonho? E teu hálito morno, tabaco e hortelã, foi tua boca ou foi sonho? Deixa de sandice menina, dançando na varanda feito doida, a garoa fina, vais te resfriar, vem te deitar que amanhã cedo chega o trem e…

Trem? Trem, menina, vem que teus olhos contam tua febre, olha teu rosto afogueado; trem, mãe? E se não foi a nuvem de terra vermelha, mãe, mas for o trem? E se for o trem?

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Estação saudade

Por Xico Santos

Neste estradar ao qual me entrego livre e nu, a música no vento é teu nome ecoando por entre sombras e silhuetas difusas na vertente – uma dança de chegar.

Se me faço noites de espera, não temas – é que amo a Lua –, testemunha silenciosa e cúmplice desses noturnos.

Evitei a poeira da estrada desta vez. Queria o retângulo da janela de um trem que pudesse acalmar esta pressa que me consome sempre que venho – a urgência do teu rosto.

Cheguei trazendo comigo outros desejos: queria pisar, mais uma vez, o caminho da estação até a escola; andar lentamente pela calçada da rua xv; comer um daqueles duplos no “dog do jãjão” – ouvir música de máquina.

The Boxer, nas vozes de Simon e Garfunkel, chega nítida aos meus ouvidos –

When I left my home and my family
I was no more than a boy,
In the company of strangers,
In the quiet of a railway station, runnin’ scared.
Laying low, seeking out the poorer quarters,
Where the ragged people go.
Lookin’ for the places, only they would know.

Emocionado, penso tê-la visto através do reflexo da janela, pura miragem – ainda assim, tão viva e tão forte, que não há como negar a presença do reencontro.

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Saudade em rodopio

Da ensolarada quadrilha restou esta mania de rodopio que até meu sangue faz dançar a cada vez que ouço teu nome; a cada vez que se anuncia uma chegada, poeira elevada no fim da estrada: talvez ali eu reconheça teu vulto, talvez por aquele caminho se apresente o reencontro.

Apressada, o vestido de algodão; acelerado o peito, o perfume de flor de laranjeira; alma em rodopio, dedos nervosos atam a fita nas tranças — corro à porta, afogueada; lábio entreaberto, espero teu beijo de retorno. Ah!, que quase avisto ali o teu chapéu, é agora, é agora que…

Mas aquela nuvem vermelha se desfaz, é a terra pairando pelo ar, é outra que também rodopia até voltar ao seu leito; nossas esperanças assim assentadas, nosso espírito assim irmanado — um levante acobreado e quente e, então, suspira-se…

Ainda não.

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Saudade em flor

Quando for dia de festa você pega o teu vestido de algodão
Quebro meu chapéu na testa
Para arrebatar as coisas do leilão
Satisfeito eu vou levar
Você de braço dado atrás da procissão
Vou com meu terno riscado
Uma flor do lado e meu chapéu na mão.

(Elpídio dos Santos)

As manhãs de agora têm brindado minha saudade com uma neblina daqueles dias. As festas se foram e não temos mais a quadrilha consentindo minhas mãos em tua cintura, nossos dedos entrelaçados; as carícias e o encantamento de nossos olhares…

Estou estranhamente tranqüilo, aqui, sozinho, varrendo os subterrâneos da memória; tirando o pó, colocando toalhinhas de linho branco (engomadas pela esperança) sobre as estantes do pensamento… Aonde colocarei tanta coisa, meu Deus?!

Na estante que separei pra você, coloquei uma flor de laranjeira, simulando o leve perfume que (parece!), eu senti durante a viagem daquele beijo de despedida…

Na música que ouço agora:

Vou com meu terno terno riscado
Uma flor do lado e meu chapéu na mão.

Xico Santos

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Da espera

Lembro que ardia um sol estalado e doce como o doce de abóbora, e se estendi meus olhos compridos até teu vulto em partida — ah!, foi porque prisioneira sou eu da lembrança das tuas mãos espalmadas na minha cintura. E do teu riso de festa, uns pés dançarinos e nossos corpos em rodopio; é dia de quadrilha e dedos entrelaçados, em espirais e volteios vamos embriagados ao redor da despedida — esta que ficou sob o teu chapéu e só veio, impiedosa, quando o sol se foi, avermelhado e saudoso.

Lembro tanto da tua boca e do teu cheiro, que até hoje guardo o vestido de chita com a nódoa de de doce de abóbora e um resto da luz do sol daquele dia de quadrilha. E ali no canto do armário, vês? Está também o ramalhete já seco das florezinhas da caatinga e as fitas das minhas tranças — à espera que venha se juntar a elas, mais uma vez, o teu chapéu.

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Da partida

Ora! Se você quase explode nesta esteira de tempo, pense em mim, aqui dentro, com a persistência desses grãos de areia que não abandonam minha fronte, que não me deixam esquecer um só minuto – feito uma tortura chinesa!

O reflexo que aprisionei como companheiro, não me deixa morrer – vira e mexe vejo um pouco de tuas tranças por estas frestas… Dia desses, juro!, consegui flagrar um restinho de olhar teu em minha direção – foi quando seu doce de abóbora caiu sobre a rendinha branca do seu vestido de chita… Lembra?

Xico Santos

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Receita

Deus (?) ajuntou um novelo vermelho de ansiedade, mais umas moléculas de água, pendurou umas proteínas, adicionou um par de ácidos graxos. Parou, coçou o queixo, franziu o cenho, decidiu inovar: enfiou no topo um tufo de cabelos de milho. E, como sina ou bênção?, decidiu que minha essência seria a do renascimento.

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  • Pronto. @bibinassif despachada. E eu me comportei linda e dignamente e nem chorei (não na frente dela pelo menos)...1 day ago
  • A piveta ansiosa @bibinassif finalmente no quase embarque. http://twitpic.com/plyoa...1 day ago
  • para matar a saudade daquele tempo: joy division. ian curtis, muito, mas muito antes e melhor que seus "herdeiros" new orders......2 days ago
  • why is it something so good/ just can't function no more? love. love will tear us apart again/ love, love will tear us apart again...2 days ago
  • do you cry out in your sleep?/ all my failings exposed.../gets a taste in my mouth/as desperation takes hold/...2 days ago


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