Fênix em Verso e Prosa

João,

Acordei ontem com sensação que não soube explicar. A leveza apesar de — . Como se eu flutuasse, ainda que meu corpo soubesse que ele jamais voaria por si mesmo. Com a incômoda consciência dos sólidos, dos não-alados.

Persistia a sensação, apesar da vida, apesar da segunda-feira.

Então, eu vi teu desenho e entendi.

Simples e rápida, a compreensão se fez pelas tuas linhas.

E gosto demais da libélula — que me empresta um pouco de seu encanto e suas asas inefáveis.

Desenho de João Grando

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Sentidos

Acordei com o ruído daquela velha vitrola, o som mecânico do braço, dois estalos, silêncio, antecipo a música, arrepio na pele. A agulha pousa suavemente no vinil preto, a música antes da música, anúncio de prazer, meus pêlos eriçados, a noite é espessa, quente e úmida. O primeiro chiado rasga, rouco e suave, o disco — e a música se espalha e dança pelas paredes azuladas, as sombras de nós dois ainda em valsa.

E se for sonho? Tua pele arrepiada, teus pêlos macios, tua barba, a boca úmida. Outro estalo, o vinil sussura, a agulha viaja em círculos, penso em espirais, teu corpo e o meu; e se foi sonho? Gelado o metal que adivinho enferrujado, busco a luz — o tato se engana, teu calor me encanta; um puxão brusco dos meus dedos, a lâmpada amarela o quarto em estalo uníssono ao da agulha na vitrola. Vejo e não me engano, vejo e me encanto: são teus olhos, é teu corpo e é sonho. Abro os olhos e sonho.

Desenho de João Grando

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+++ palavra-imagem +++



é aqui na janela do meu delírio
que acridoce ainda sinto
gosto quase extinto:
o gozo da tua boca
antiga febre consumindo
o sal do teu olho

na penumbra me dissolvo
aqui à parede
– eu mesma sombra
eu mesma espectro

na janela do meu delírio
é onde finjo
que o amor se foi
sem causar dano
sem transfixar meu flanco
o fracasso de nós dois

aqui na janela do meu delírio
permaneço sombra e sobra






(Desenho de Maína Junqueira)

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Risque-rabisque

Desenho de Maína Junqueira

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++ Palavra-imagem

 

  

Desenho de Maína Junqueira

 

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Pequena morte (2)

Desenho: Maína Junqueira

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Mais palavra imagem

Desenho de Maína Junqueira

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Imagem lavra, palavra viva

Desenho de Maína Junqueira

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Diário de Bordo – da frustração

Eu decidi que faria um livro com a Maína antes sequer que nos conhecêssemos pessoalmente. Assim, não foi bem um convite que ela recebeu em seu e-mail, foi quase um informe. Ela aceitou. Outro dia disse que a viagem era intensa, que tinha medo, mas que estava indo.

Desde o Ventura que vocês não têm mais notícias da nossa parceria. O trabalho é difícil, é viagem tumultuada rumo ao desconhecido de nós mesmas. Resolvi, então, contar um pouco dos bastidores.

Ela diz que ainda está com a “mão dura”, pois há pouco que voltou a desenhar. E há o pão nosso de cada dia, que é preciso garantir. A inspiração às vezes tem que vir com hora marcada, às vezes atropela tudo.

Eu já passei por várias fases — e volto agora do cangaço poético, tempo brabo de aridez, veia seca, jorro estancado. E foi graças ao Romério, grande poeta e agora amigo, mas esta é história para outra postagem.

Foi Romério, também, quem me disse que até do avesso se escreve; ensinamento que hoje transmiti à Maína. Se há o cangaço, verseje sobre a secura, ele falou. Obedeci.

Não pedi autorização à ela, apesar do pudor com que trata seus desenhos. Sei que ela está triste, frustrada – é aquele sentimento que todos conhecemos, que me faria rabiscar com força de rasgar o papel, se escrevesse com caneta e bloquinho.

Publico aqui a imagem definitiva da frustração: um monstro plúmbeo, gordo, feio e inevitável, sentado na minha sala. E na sala dela. Na sua também.

“Fracasso” de Maína Junqueira

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Salvador, espanhol dos olhos-céu

Hoje eu vi.

Como se fosse súbita a compreensão.

Foi um desenho da Maína que se fez verdade para mim, que fez sentido naquele instante; foi com suas linhas e suas cores que ela adivinhou o que me viria a acontecer agora. E foi com a minha palavra-verso que ela entendeu o seu próprio traço-premonitório — e foi com minha escrita que ela viu. Como se fosse súbita a compreensão.

Mais tarde, conversamos. Amadureço seus desenhos por um tempo, expliquei, eles ficam em mim, latejantes e silenciosos. Eu matuto também os seus escritos, ela respondeu.

Como o quartinho de bananas do meu avô, que me surgiu vívido e sorridente, olhos azuis irisados e o chapéu. Porque ele era da época que não se saía à rua sem chapéu, meu avô muito magro e alto, espanhol dos olhos de céu, sorriso quieto e a ternura imensa.

Vôôôôôô!!!!, quando ele emergia do quartinho, a penca de bananas enormes, amarelas, amarelas, amarelas como o sol de sua casa, como o gosto da cajamanga que ninguém conhece aqui na cidade grande, amarelas como abraço de avô espanhol dos olhos de céu e ternura imensa.

(E, mais tarde, talvez ainda hoje, o desenho e o verso)

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Arte colaborativa

Há um tempo vinha acalentando a idéia de fazer um trabalho a 4 mãos, onde a poesia fosse escrita por palavra e imagem. Foi daí que convidei a Maína para embarcar nesta viagem – e ela aceitou.

Vai virar um livro. Ela diz que ainda demora uns seis meses, no mínimo, mas eu quero crer que será no máximo!

O que vocês viram abaixo, Ventura, foi o primeiro desenho que ela fez. Enviou-me quase em segredo de Estado, mas eu mostrei para todo mundo, na minha empolgação típica. LN disse: publica hoje no meu blog.

E quando a Maína e o seu amado MS, o venturoso, chegaram em casa, eu dei a notícia. Ela ficou branca e arregalou o olhão azul. “Mas, é só o primeiro, mas não mostrei a ninguém, mas…”. E, por fim, resignou-se “tudo bem, vai”. Pronto, publiquei.

Combinamos de publicar algumas coisas, como “aperitivos”. Os trabalhos iniciais, até atingirmos a tal “maturidade” necessária para o livro. Como minha palavra é basicamente visual, há um período de adaptação entre as duas artes – vocês imaginem que ela quase não usava cor em seus trabalhos e eu escrevo tudo em púrpura incendiada, rubro, sangue, incandescente, ouro, prata cintilante. Daí que agora ela teve que ir em busca de todas as cores de sua paleta – as intensas, as incendiárias.

O desenho do “Ventura” foi feito em lápis de cor, apesar da liberdade poética que tive em utilizar “crayon” no texto. A artista me garantiu que o lápis de cor utilizado é quase crayon, hehe. Achei no blog dela esta foto aqui, que parece ser o resultado de algumas horas de desenho.

Vejam que foto bacana, super colorida!

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Linhas em convergência

Porque é o mesmo traço que desenha a imagem e a palavra.

Para vocês, o primeiro trabalho de uma série que começa a se formar a partir da parceria entre eu e a Maína Junqueira. Ela risca a imagem, eu rabisco a palavra.

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Ventura

Nas tuas mãos desenha-se o meu destino, traçado em crayon cor de flama poente, as montanhas e o mar; sinuosa estrada em púrpura incendiada, convergentes o Nunca Mais e o Sempre. Teu nome espalmado em tinta rubra, signo abrasado nos meus dedos em doce absinto, vertiginosa curva, tua letra arredondada na minha luva de pétalas. Umas castanholas pulsam o canto da terra salgada, eu te chamo: vem ver tua fortuna, vem ver teu caminho que se desdobra em som e cor, vem ver o que pintei no muro — aquele que atravessa meus dias, pétreo Não; eu fiz da sua recusa um painel amarelo de ouro, prata cintilante e os tons do meu querer ali revelados; vem ver o que tracei nas linhas da minha mão: tua presença inventada e as noites que nunca vivemos, agora recriadas em giz e iluminadas em verso. E é como se tuas mãos já tão distantes não se tivessem separado das minhas, e é como se as minhas não fossem estas que escrevem tua ausência, a obliteração dos meus dias, o céu tingido de ocre-sangue seco e dormido, aquela nódoa parda que um dia foi vida, que um dia foi vermelho vibrante e fomos nós.

Maína Junqueira

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Receita

Deus (?) ajuntou um novelo vermelho de ansiedade, mais umas moléculas de água, pendurou umas proteínas, adicionou um par de ácidos graxos. Parou, coçou o queixo, franziu o cenho, decidiu inovar: enfiou no topo um tufo de cabelos de milho. E, como sina ou bênção?, decidiu que minha essência seria a do renascimento.

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  • Pronto. @bibinassif despachada. E eu me comportei linda e dignamente e nem chorei (não na frente dela pelo menos)...1 day ago
  • A piveta ansiosa @bibinassif finalmente no quase embarque. http://twitpic.com/plyoa...1 day ago
  • para matar a saudade daquele tempo: joy division. ian curtis, muito, mas muito antes e melhor que seus "herdeiros" new orders......2 days ago
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