Fênix em Verso e Prosa

Autumn Leaves

Nat King Cole, Autumn Leaves

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Quanta saudade brilha em mim

Ouça Tristesse, com Mílton Nascimento e Maria Rita

Lembra, lembra, lembra, cada instante que passou
De cada perigo, da audácia do temor
Que sobrevivemos que cobrimos de emoção
Volta a pensar então

Sinto, penso, espero, fico tenso toda vez
Que nos encontramos, nos olhamos sem viver
Pára de fingir que não sou parte do seu mundo
Volta a pensar então

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Yes, I have been lost

Still am. Dropping useless pills of illusion.

I feel unwilling entangled in others’ affairs, drifting way out of my wishes. I have tried to escape just to found myself like a tangled redhaired puppet.

Is there a better life for me? At least a different world?

I can not bear to be crashed and collapsed all over again. I am such a mess now, have been caged in my own disorder.

I know nobody can save me, but deceive myself until I am deluded into believing and hoping for a never-coming rescue.

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Doomed

You linger like a haunting refrain

You intoxicate my soul with your eyes

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Fênix coitadinha

O blog vai ficar devagar estes dias, porque estou com dor de ouvido.

E ninguém escreve com dor de ouvido :(

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Em cacos

Eu não acreditava mais em promessas e havia banido da minha vida quaisquer vestígios de esperança. Mas, tu vieste com teus olhos de ternura, tua presença se perpetuando em dias que se uniram em meses, acariciando a solidão das minhas noites.

Sabendo que era ilusão, sabendo dos riscos, eu desafiei a vida – esta limitação diária – a ela desafiei com meus desejos superlativos, com o “tudo” que anseio. Porque eu precisava de uns momentos de embriaguez, porque eu precisava da loucura como redenção para essa tristeza que me castiga o corpo.

Então, eu tirei do armário aquela taça bonita que era da minha mãe, enfeitada com cores e dourado quase esmaecido. Coloquei para gelar um vinho que celebraria nosso delírio de amor. Porque nos descobrimos e seremos felizes, porque ah!, porque a vida pode ser muito mais do que isso – e agora ela sorri para nós.

Talvez estivesse gelado demais o vinho, ou às minhas mãos duras não fossem adequadas ao copo. Talvez porque eu não seja adequada à nada, nem ao amor, nem à vida. Mas, quando verti a garrafa e o seu líquido dourado tocou o cristal, partiu-se em duas a taça que foi da minha mãe, espalhando o vinho pela toalha branca.

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Resgate

Sou o pote de ouro escondido no final da tempestade, o céu carregado e as nuvens ameaçadoras. Nenhum arco-íris para enfeitar ou guiar tua jornada – e talvez seja eu mesma a tempestade e as nuvens, cujo estranho tesouro – se houver – poucos saberiam reconhecer.

Esperava que teus ombros acalmassem a tormenta, quando neles reclinasse minha cabeça; que pudesse fechar os olhos sem medo e que dormir fosse mais do que a passageira morte diária. Mas, fui tragada pelo teu próprio redemoinho, náufraga em teu corpo; e tua água salgada não fez senão aumentar minha sede.

Se nele acreditasse, pediria ao deus que alguém me viesse resgatar.

Se…

Se…

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Mais do mesmo

Não poderia ter sido pior, ele disse, porque foi real.

Anos depois, ainda não conseguia se livrar do que vira. O homem na calçada e sua desumanização exposta à indiferença da cidade; a esperança precocemente arrancada do seu ventre. Com a angústia disfarçada, contou a ele – pois precisava saber se era plausível que aquele dia ainda permanecesse incomodamente espetado em sua memória. Poderia ter sido pior, sorriu levemente para abrandar a violência daquele acontecimento.

Olhou ansiosamente para ele, sem entender a expressão dos olhos em meio à cara séria. Por um momento, achou que sentia pena — então compreendeu. Ele doía, sentindo como ela o chute no estômago. Em silêncio, revivia com ela a frustração e a morte, a lâmina fria extirpando sua inocência de moça sonhadora.

Suspirou e concordou com ele – não poderia ter sido pior, mesmo.

Não deveria ter sido pior, ela chora, mas foi; mas é. Não queria te contar porque não suporto reviver, sob teus olhos compreensivos, tudo aquilo. Porque tua empatia por minhas dores há de levantar em mim a indignação sufocada; a raiva engolida a seco; a pergunta que me recuso a repetir, desde aquele dia: por que?

Não consegue mais refrear a memória; a noite de hoje se entrelaça com os sentimentos que brotam, intensos e desordenados. Uma vez, eu fui desumanizada como aquele homem, eu e minha camisola de flores no chão frio da sala. Levo no canto do rosto, quase imperceptiveis, pequenas cicatrizes; eu chorava e o piso irregular cortou minha pele; eu chorava e ao chão pertencia, pois que não merecia chorar na cama, nem podia colocar-me dignamente sobre meus dois pés, eu que não era mais humana.

Em vão se tentou o resgaste: ela ficou sobre o piso, com o rosto lanhado e as lágrimas amargas até ser carregada – o banho e depois a cama. Esconderam seus calmantes, vigiaram seu sono: degradada, não se confiava mais a ela a responsabilidade por seu próprio corpo.

E como já conhecia o chão e todas as suas possibilidades, em outra ocasião usou o estilete. Quatro cortes paralelos no braço esquerdo; encolhida nos azulejos frios do banheiro cor de rosa, o estilete enferrujado beijando sua pele, que se rasgava e ardia em agonia reconfortante – quem doía era a pele, não era a alma – e assim era muito mais fácil.

Anunciava-se chuva na noite abafada, o céu carregado pelas nuvens que não se derramavam; pesavam no seu corpo as lágrimas que não sabia mais verter. No espelho, não reconhecia a si mesma, mulher cujo corpo aviltado era agora quase desfigurado em sua derrota. Eu toda sou uma anomalia, eu com estes olhos cansados, dona deste rosto emaciado e triste.

Ao chão e ao estilete não iria mais, decidiu. Pegou a camisola de flores, as alças puídas, e colocou sob o travesseiro. Olhos ainda secos, acariciou o braço e as quatro cicatrizes já invisíveis, os dedos tateando até encontrar a leve saliência de cada uma. Senti-las e saber a camisola ali, embaixo de sua cabeça – era assim que se distraía da nova dor, o novo golpe.

Não cultivar mais esperanças tornava o sono fácil. Acordou com a chuva forte no telhado, o dia úmido e fresco. Deixou na mesma gaveta a camisola, o estilete enferrujado e a angústia da véspera.

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Vida em trajetória circular II

O homem na calçada

É.

Eles se abraçam e nada mais importa, o tempo que ficaram separados, os desentendimentos; nada foi tão importante quanto seu peito junto ao dela, o coração dele batendo contra o seu; o abraço que dizia além do que as palavras seriam capazes.

Supresa voltares assim, ela beija o rosto dele repetidas vezes, aperta o abraço, porque sente vontade de se fundir a ele, de o engolir, de entrar na sua pele, sentir ali, nas veias, o movimento do seu sangue. Ele conta o caminho dos telefonemas até a encontrar, reclama que se escondeu; ah, ele procurou tanto, ah, tanto esforço para finalmente sermos!, ah, deus, finalmente, finalmente, ah deus, deus!

O agora é, após tanta espera, onde a vida se realiza, onde os sonhos acontecem; ah querido, coisa boa tua volta, já era hora de sermos, a hora é este instante: seremos. Um susto, ele se enrijece, o corpo recua ligeiramente, não.

Não? o aperto súbito, as garras se fecham em seu pescoço, faz força para respirar, não? dói o peito, doem as pernas, unhas que se cravam nas palmas das mãos, dói a vida abortada, não?

Não, ele disfarça a culpa com uma pontada de raiva, não, eu senti saudades, por isso vim. Não seremos, senti saudades, apenas. Não, ele dizia; não! ela soltou um grito mudo, de novo não, chora baixinho, de novo não, vieste de tão longe, procuraste tanto para quê? Os dois na cama estreita, ela se encolhe, olhos no teto, ah deus, eu estava tão longe dele, reconstruindo, ah!, ele vem e me retira do abandono para nada, para isso, para… Não consegue conter as idéias, que giram, a vertigem, o peso a angústia das repetições, ela geme, a frustração se espalhando por suas células. Ele se debruça, não queria te enganar, nada te prometi, era apenas – saudade! ela grita, ela o empurra, queria estapear tua face, mas estou tão cansada, a mão cai, resta dela o corpo lasso e desiludido na cama estreita. Vem, estamos aqui juntos, vem que te quero, mas ela agoniza; nada mais sente, a não ser o desejo de ver se abrir no piso aquele buraco de seu pesadelo, que venha tragar seu corpo para longe deste homem e seus olhos de desesperado querer.

A dor é lancinante, lateja e machuca durante aquela noite com aquele homem; ela não mais falou, não mostrou a ele seus olhos mortiços; a desilusão secou minhas lágrimas, queria que escorressem para lavar meu corpo e sua tristeza aguda, mas até isso o deus me negou.

O dia passou nebuloso, talvez tenha se movido como sombra pelos corredores da fábrica. Passou o cartão de ponto e saiu pelas ruas cheias, os pensamentos embotados; ela era a indignação e a incredulidade, ela era a pergunta: por que? Ontem eu vim por esta passarela agradecendo ao deus que hoje sei infernal; ontem eu sorria e caminhava como quem flutua; ontem eu fora salva! deus, deus e seus caminhos malditos, por que? As lágrimas contidas queimavam seus olhos, as mãos geladas e atônitas, a pergunta incessante, por que, por que, por que, por que? Eu vinha por aqui e te louvava, foi aqui que senti tuas mãos de redenção, aqui se revelaram tuas promessas – mas, mas, mas! mas, tuas promessas são as de perdição, teus prêmios são as chibatadas frias da rejeição e minhas lágrimas amargas represadas nestes olhos mortos! Em meio a milhões de mulheres desta cidade enorme, foi a mim que ele veio, deus, foi a mim – e para quê?

Então, ela viu. Como se fosse pouco ter perdido sua inocência e sua esperança, como se fosse nada, ela viu. Não parecia um homem, não podia ser um homem, não aqueles trapos dispostos no corpo disforme, jogado na calçada. O pescoço torto em ângulo estranho, achou que estivesse morto; o que parecia ser a calça daquele pedaço de carne no chão, ah como desviar os olhos?, o que parecia ser a calça estava aos pés imundos e feridos; o… aquilo estava semi-desnudo e ele evacuava, mas não é possível, está morto, não se move em meio a seus excrementos, morreu! degradado a ponto de ter roubada de si sua humanidade, o homem evacuava em si mesmo, imóvel e indigno.

É um chute na boca do seu estômago, ela se dobra, a boca se enche de água, o que é isso, deus! ela grita, ela vomita, contorcida e vergada na calçada, ninguém pára, ninguém vê – nem a ela nem ao homem. Pois são os dois, a mulher histérica e o mendigo desumanizado, corriqueiros e banais no cotidiano desta cidade cujos habitantes parecem ter sido escarrados pelo deus. Sua bolsa cai, seus papéis se espalham, os joelhos na calçada, as lágrimas vêm não para redimir, não para aliviar, para salgar a carne maltratada; ela chora por seus sonhos aviltados, ela chora pelo homem degradado, ela chora pelo mundo que vê, tão distinto daquele que sonhara, ela chora pelo quê há de se transformar para sobreviver a isto.

Uma noite, o telefone toca: de novo, ele sentia saudade. E porque ele era culpado, porque ele jogara o homem na calçada, ele roubara sua humanidade; porque foram suas mãos que arrancaram do ventre dela a esperança e a inocência – porque ele era covarde, ela disse não. Sem explicar, sem hesitar, cru e simples: não.

Abre os olhos, está em sua outra vida na cidade grande, com outro homem que sente saudade. Diz a si mesma: não.

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Mais do mesmo

O reencontro

Acordou suada, a boca seca, apavorada pelo mesmo pesadelo que tinha quando era criança: do armário saíam monstros e o piso sob a cama se abria em buraco ameaçador. Não tinha escolha, não havia fuga possível: se pulasse da cama e ficasse no quarto, teria que enfrentar as criaturas do armário – e sabia que vinham do inferno. A falha no chão aumentava, sua cama estava prestes a ser tragada para o abismo, que enterrava em si a solidão, o frio e a tristeza insuportáveis.

Bebeu água e voltou para a cama, inquieta. Mais que o pesadelo, eram as palavras dele que a assombravam, dia e noite. “Estou com saudades”, ele dissera, simplesmente, como se pudessem se reconciliar a partir de sua saudade; como se a impossibilidade não fosse um cadáver já decomposto entre os dois. Talvez eu deva acabar com este ‘pode ser que’ e ir logo ao teu encontro, talvez fosse melhor escancarar as portas do guarda-roupa e enfrentar o monstro – ainda que ele fosse apenas a antiga e tão conhecida rejeição, criatura companheira de tantas das suas horas.

Estranho ter este pesadelo novamente, o corpo incomodado, a mente girando confusa, ela toda era a vertigem e o desassossego. Giravam suas paredes e seus sentimentos; gira minha vida sempre! e minha mente e corpo combinam com os intermináveis ciclos em que se repete esta vida, eu que estou no centro da tormenta e vejo os meus destroços sendo levados pelo furacão – mas sempre a meu redor.

Ele tem saudade, como outros antes tiveram, após cada uma das separações que foram causadas senão pelas mãos deles. A vertigem e a tormenta trazem de volta aqueles dias iniciais, quando ela ainda esperava, quando ainda se esforçava para acreditar que deus – ah! que não era vazio o céu sobre ela; que deus era bom e era real.

Era sua primeira vida na cidade grande, mal se acostumara com a solidão das grandes populações; tinha saudades do céu azul e daquele sol amarelo e inclemente que assistiram seu desabrochar de menina em mulher sonhadora. Ou das noites estreladas que zombavam quase carinhosamente das suas primeiras lágrimas de mocinha apaixonada. A cidade era suja e pouco amistosa; ela se dissolvia em meio à multidão de faces apáticas ou impacientes. Os dias escorriam, seu corpo amarfanhado nos ônibus, no metrô; os pensamentos vagando, conduzidos pela esperança; ah esta minha maldição, a praga de sempre esperar por, ansiar por, viver por…

Àquela época, ele era outro homem, com outro nome, outra profissão. Parecia-se tanto com outros “eles” da sua vida; não se falava ainda em clones, ela riu, mas eu já tinha os meus, ah, faz tempo que tenho os meus, alguns até tiveram o mesmo nome, que o deus parece, às vezes, dedicar a ela pouca criatividade. Um dia, inesperado, ele viera. Já se passara um ano desde o fracasso dos dois, nem ferida mais, só a cicatriz ainda rosada e recente – parecia uma flor em sua pele. Por causa dele, do seu telefonema, da sua voz e do seu convite, muitas flores dançaram nos sonhos daquela noite; de manhã ela sentia cheiro de gerânios e rosas.

Saiu para trabalhar e ainda havia lua e as estrelas, achou que era um bom presságio; passou o dia cantarolando em silêncio, os colegas gostaram dos seus olhos brilhantes e do sorriso quase infantil, crédulo – o sorriso de quem espera. Ah, a maldita esperança! Caminhou pela passarela, olhando os transeuntes por cima do viaduto; pensou em deus, ah, que deus deve se divertir com nós humanos aqui embaixo, tão pequeninos, tão sonhadores! Ela sorria e agradecia ao deus que não acreditava, mas agradecia como fiel de joelhos e em êxtase no templo; ela cantava, sonhava e agradecia. Ah, deus, deus, nem tão misteriosos são teus caminhos, eis que ele veio e seremos felizes, vão se iluminar meus dias nesta cidade cinzenta, ah, deus, deus! eu sabia que esta cidade me reservava surpresas, ah, deus!

No banho, ainda agradecia, sorria e sonhava; escolheu sua melhor roupa, o perfume, uns sapatos altos; sacudiu o cabelo, porque ele gosta da minha juba de leão, porque finalmente ele perdeu o medo do lado de cá, da minha selvageria, das minhas escolhas marginais, porque ele voltou! Dança, feliz; soa a campainha, o coração acelera, a respiração pára, ela estremece, é agora, ela suspira, é agora.

Ela abre a porta, ah deus, obrigada, obrigada, eles se abraçam, ah, o cheiro dele, a boca dele, ah deus, obrigada. É agora, é no presente, é finda a esperança e sua eterna condição de espera. É agora.

É.

Continua… Ou, em homenagem à M.,  to be continued…

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Nova casa, nova morte

Ainda era sol e eu vi a lua quase inteira no céu amarelo, laranja e dourado. A lua subindo ao céu ruivo, talvez para consolar a fênix que chora, diante do seu corpo em chamas. Pouco importa que destas cinzas renascerá ave nova, plumagem macia, esperanças brilhantes. O fogo destrói o corpo que precisa morrer; a dor maltrata a alma que precisa descansar.

Passeio pelo meu jardim, coroado por sol e lua, enfeitado por flores coloridas, folhagens de um verde tenro e suave, da cor das esperanças que se anunciam. Da mesma cor da esperança que desejo que se recrie a partir do novo nascimento. Descalça, pétalas rosas desbotadas acompanham meus passos; eu vago em minha própria casa e não a reconheço, apesar da luz ininterrupta que se deita sobre ela, sol e lua.

Eu, que amo a noite e a penumbra, cuja pele teme o sol — mas floresço sob seu amarelo incendiário. Fênix do exagero, minha alma se alastra e derruba os grilhões: que ninguém me conhece, que nenhum rótulo me cabe. Minha essência excêntrica e suas cores berrantes. Eu entro em casa e acendo todas as luzes; a lua, agora soberana, se derrama pelo pátio; uma orquídea se inclina e se abre – é a vida nova. A casa e a vida que se apresentam àquela que ainda não morreu; agoniza entre aquelas pétalas esmaecidas, as bordas pardas.

Adio a morte necessária – não consigo mais entregar-me ao que não conheço, ao novo ciclo que se deve iniciar. Pois, se não temo o desconhecido, se ainda espero a esperança, mais do mesmo pode levar minha alma a outra morte, precoce e violenta. Eu caminho entre as flores mortas, eu choro por elas e por mim. Por tudo que em mim já morreu, pela delicadeza que tantos ciclos me roubaram. É a casa nova e a velha Fênix, incompleta, recém renascida cujo frescor foi roubado pela série dramática de incidentes que se repete e repete e comigo renasce como se fosse parte da minha pele.

Na casa de espaços amplos, sento no canto do pátio, o degrau que é meu lugar, sob a pequena bananeira. É onde me sinto viva; meus olhos alcançam as estrelas e um pedaço da lua; um arbusto com flores que só à noite são douradas. Acaricio a pedra gelada, triste pelos poucos dias que compuseram este renascimento. É esta casa que deverá abrigar e aconchegar o corpo que renascerá deste pequeno espaço de tempo que só conheceu a angústia e a dor.

Mas, mas! se a vida revivida for a mesma, se aquele galho que beija e acaricia o céu – ah! se este galho em que as flores cascateiam em direção ao meu pátio, após o encontro com as estrelas – ah! se este galho for nada além de folhas, se não for a esperança que tanto anseio, se não for um novo amor a coroar de riso a nova vida? E se for o mesmo amor? se for novo? se for apenas amor?

Se amor dói, machuca e não conforta.

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a long way from home

Já não reconheço meus desejos, a ponto de acreditar que não tenho nenhum; os dias tardam, cada hora se alonga em demasia. O que falta me envenena lentamente, até que eu sinta falta das garras do monstro que anteriormente rasgava minha carne. Era vida, era pulsação, perturbação; era mais do que essa falta, essa ausência maldita que se espalha pelas minhas células, tomando posse do que um dia foi meu e somente meu reino.

Hoje não tenho corpo, célula, vontade ou reino, tenho este vácuo que se espalha sem restrição, avançando e destruindo tudo o que lateja. Mantenho-me a distância de mim, desse eu cinza e lúgubre que a nada e por nada se perturba. Se eu chegar perto, temo ser violentamente tragada pelo vazio que hoje sou eu. E é quase como se eu fosse duas, dissociadas – a esvaziada e a órfã. Esperança e ilusão foram meus pais e sinto que os perdi cedo demais; não tenho porto, não tenho abrigo ou referências. Não tenho vontade.

Não tenho pais e a minha é uma casa devastada, cujos móveis maltratados espalham-se desordenadamente pelos cômodos entristecidos. As paredes descascam, o assoalho descorou-se há muito. O que resta dos tapetes roídos é de cor esmaecida e triste e um vento frio insiste em me castigar a cada vez que ouso passear pelos corredores do que um dia foi meu lar.

Sometimes I feel like a motherless child
from « American Negro Spirituals»
by J. W. Johnson, J. R. Johnson, 1926

Sometimes I feel like a motherless child
Sometimes I feel like a motherless child
Sometimes I feel like a motherless child
A long way from home…

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Pessoal, possessivo ou imaginário

É para ti que eu quero inventar a palavra que não tenho, o sentimento que só se traduz através do mais primitivo som que minha garganta produz, quando cérebro e língua são inúteis.

Minhas entranhas te saudarão em idioma próprio e bárbaro, grito surdo e gutural a rasgar teu tímpano, sacudir tua alma e arrepiar tua pele. Hás de encontrar beleza no som estranho e desconhecido – que é a voz primal da fênix renascendo.

Se não ecoar selvagemente meu som, esse novo corpo feito de cinzas se partirá pela força da contenção, pela fúria do urro estilhaçando esta pele de ave que ainda é frágil demais, que mal se formou.

Ouve, então, o meu canto visceral, mesmo que não existas, mesmo que sejas nada além de delírio. Invento tua presença e teus ouvidos agora, invento teus olhos e todo o mundo sob suas pálpebras. Invento o reconhecimento que virá do teu corpo e me refugiarei nele.

Que sejas pequena palavra, que sejas inominado, que sejas pronomes: tu, meu.

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fracassada pelo êxito

Mas, se coleciono sucessos — e eles se amontoam, desordenados, na estante empoeirada de meus dias; e se meus troféus são conquistas que estas mãos pequenas e brancas construíram, dedo a dedo; por que amarga minha boca, sobrepondo quaisquer outros sabores, o gosto amargo do fracasso?

E quanto mais talento descubro, quanto mais habilidades desenvolvo, mais anseio por uma existência mediana, medíocre, vulgar.

Ordinária.

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silêncio

Minhas articulações estão duras e meu corpo quase não se verga – perdeu a flexibilidade e a elegância de fênix que um dia também foi bailarina. É longo demais o tempo que não o sacode uma boa gargalhada; tornou-se escasso o meu riso: já nem me lembro do seu som — ele, que de tão frequente, era ritmo que guiava meus movimentos em graciosa dança diária.

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mad world

All around me are familiar faces
Worn out places – worn out faces
Bright and early for their daily races
Going nowhere – going nowhere
And their tears are filling up their glasses
No expression – no expression
Hide my head I want to drown my sorrow
No tommorow – no tommorow

And I find it kind of funny
I find it kind of sad
The dreams in which I’m dying
Are the best I’ve ever had

I find it hard to tell you
‘Cos I find it hard to take
When people run in circles
It’s a very, very Mad World

Children waiting for the day they feel good
Happy Birthday – Happy Birthday
Made to feel the way that every child should
Sit and listen – sit and listen
Went to school and I was very nervous
No one knew me – no one knew me
Hello teacher tell me what’s my lesson
Look right through me – look right through me

(Tears for Fears)

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um dia de alma lúgubre e céu cinza

Foi inesperado e, como todo nascimento, veio através da dor.

Não o matei, mas tive que cuidar de todos os preparativos fúnebres de seu enterro.

Suspeito que tenha nascido já condenado. Dediquei a ele tanta alegria e energia que não tinha, mas arranjava. Foi vão, entretanto, o esforço todo e adivinhei a brevidade da sua existência — sua morte não foi surpresa. Mesmo adivinhada, a morte dói latejante. Cuidar do seu enterro e pranteá-lo consumiu mais daquela energia que já não tinha para dedicar-lhe, resultando em falência – espero que temporária – do meu gerador energético.

Enterrei este sonho ao lado de tantos outros que tive, na mesma pradaria verde e ensolarada. Não há lápides ou quaisquer marcos no meu cemitério. Olhos atentos talvez percebam o pedaço de terra recém revolvida, onde a grama ainda cresce tímida e que hoje abriga seu mais recente inquilino, meu sonho morto.

Nesta cova, o ar é levemente mais fresco e o sol se lança com suavidade, permitindo que as sombras formem penumbra contida, velando pelo último sopro de esperança que lamenta e anseia por mais alguns segundos do sonho. Segundos, segundos, segundos que adoçariam minha boca, mente e meu corpo por momentos eternos.

Meu cemitério de sonhos é também um campo de flores. Espécies improváveis que brotaram de uma terra que abriga cadáveres de sonhos em putrefação. Nada mais forte e indomável que o poder transformador da Natureza, seus corpos e seres, que fazem vida e sorrisos surgirem de morte e pranto.

Até que o processo de transformação se complete, aquele vento quase gélido trará resquícios de aromas desejados e a memória de sentimentos que se recusam ou se demoram a morrer.

Visto de longe, é apenas um prado radiante e repleto de aromáticas flores coloridas. Não há quem imagine quantos sonhos precisaram ser enterrados, anônima e sileciosamente, sem o alarde dos grandes funerais; não há quem imagine de quantos sonhos mortos foram feitas estas flores, quase fúteis e vãs na sua beleza perecível.

(23/06/2006)

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asas

Liberation - M. C. Escher

Ser Ruiva é uma revolta (in)voluntária numa terra de morenos. Ergo, insolente e orgulhosa, minha flamejante cabeça de mulher.

Habita um selvagem em mim, a quem dou vazão sempre que minha alma transborda a razão. Conheço tantos que fazem de seu peito uma gaiola. Sua fera luta arduamente e clama por liberdade, cravando as garras nas suas carnes. E eles ocupam, atordoados, seus dias, esperando ansiosos para que venha o cansaço e a fera adormeça.

Andam por aí contidos, evitando o perigoso movimento que pode acordar o indomável e reavivar a batalha, a cada dia mais insana, da busca pela liberdade. O corpo lhes arde como terra em chamas.

E é como terra devastada que ficam quando a fera finalmente desiste e se resigna à prisão. Vagando desolados pelo mundo que só enxergam como cinzas, fingindo não perceber que o ermo deste mundo habita seus próprios peitos. E que a vida é plena de oportunidades para quem não a teme.

Com minha coroa incendiária e minha alma selvagem, sigo para onde for. É a minha revolta voluntária contra quem pouco quer e pouco se permite.

(01/08/2006)

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rare, mutant gene from neanderthals

From Telegraph

General Custer was one. So was Napoleon Bonaparte. Underneath Oliver Cromwell’s severe helmet was a mass of red hair. Cleopatra used henna to enhance her auburn tresses, while Christopher Columbus took ginger hair to America.

But while fiery-headed leaders, artists, poets and disc jockeys crop up with alarming regularity, evidence is emerging that red hair may be a relatively new phenomenon for mankind.

According to the most recent estimates, the first red hair sprouted just 20,000 years ago, long after the advent of modern homo sapiens and towards the end of the last great ice age.

Some have even argued that redheads such as Nicole Kidman, Charlie Dimmock, Chris Evans and Neil Kinnock could have inherited a trait originally passed on to modern man by the Neanderthals.

The secret history of redheads is one of the topics explored at the Hair Affair, a half day of talks and workshops exploring the science of hair, organised by the Royal Institution and L’Oréal and supported by The Daily Telegraph on October 25.

The redhead roll call makes for impressive reading. It includes Vincent Van Gogh, Henri Matisse, William Blake, Lord Byron, James Joyce, J K Rowling, Jean Paul Sartre, George Bernard Shaw, Bette Davis, Katharine Hepburn, Marilyn Monroe, Elizabeth I, Queen Victoria and William the Conqueror.

Despite the old folk tale that redheads are the result of interbreeding between brunettes and blonds, hair colour is actually determined by a more subtle genetic influence.

Like skin colour, hair colour comes from the pigment melanin and, in particular, two types: eumelanin, the most common form, ranges in colour from brown to black, while pheomelanin is red or yellow.

Hair and skin colour arise from the balance of these two types and the total amount of melanin produced. White skins produce less melanin than dark skins. Japanese black hair is almost entirely made of eumelanin, while Irish red hair has almost only pheomelanin.

Melanin is a good sun block, preventing damage from ultraviolet rays. The pigment is unlikely to have evolved as a protection against skin cancer (which threatens life long after reproductive age and so would be unlikely to be selected against in evolution) but might protect against burns, secondary infection and loss of fluids.

Several years ago Jonathan Rees, professor of dermatology at Edinburgh University, and colleagues discovered a gene responsible for melanin production, the melanocortin 1 receptor (MC1R).

If someone has one of about four of five variations of this gene, and if the variation is inherited from both parents, then they are likely to be red haired. If the variation has been inherited from just one parent, they have an increased chance of being red haired. What was surprising was how recently this genetic trait first appeared.

“We don’t know with certainty when the first redheads walked the earth,” says Prof Rees. “But we believe these changes arose in less time than we thought, maybe 20,000 to 40,000 years ago.”

The red-headed gene mutation is rarely found in people of African descent. Evolutionary experts have argued that it cropped up after ancestors of white Europeans left the continent and moved northwards around 70,000 to 100,000 years ago.

“The explanations generally fall into two groups,” says Prof Rees. “The first is that there may have been some advantage to having red hair and pale skin. One reason for this is that you make vitamin D in your skin and therefore you’re less likely to get rickets if you have pale skin and there is not much sunlight around.”

The team’s analysis of the red-headed gene, however, found little evidence that red hair and pale skin were a positive trait added to mankind’s genetic heritage by natural selection outside Africa.

The clue came from an analysis of codons – the sequences of DNA or RNA that provide the recipe for any one of the 20 amino acids that form the building blocks of proteins. The sequences consist of three base pairs of DNA – three “letters” of the genetic code. Two of these letters are crucial to the make-up of the amino acid. But some changes in the third base pair make little difference to the end result – the equivalent of spelling tic with a K instead of a C.

By studying the ratio of changes in this third base with the changes in the other two base pairs, it is possible to identify genetic traits that are the result of natural selection and those that have just cropped up by chance.

“With the redhead gene, you don’t see any evidence for selection. The changes we see are compatible with just random change,” said Prof Rees. “The gene is more important in Africa than it is in Europe. You mustn’t have pale skin and bright red hair in Africa. That would make sense.”

Of course, red hair is not exclusively found in pale-skinned people. In Jamaica, there are families with deep brown skin and bright red hair. On the island, the red-hair gene was brought from Europe a few hundred years ago, possibly by white sailors who fathered children there.

If the Edinburgh team are right, and the redhead gene originated only 20,000 to 40,000 years ago, it may kill off a theory that emerged last year – that the red-hair gene originated in the Neanderthals.

The idea was based on a claim that the gene was at least 100,000 years old and so may have been present before modern man left Africa. To pass into our DNA, our ancestors would have had to have interbred with Neanderthals – an unfashionable theory among the experts in human origins.

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inútil

i.nú.til
adj (lat inutile) 1 Que não tem utilidade. 2 Frustrado, estéril. 3 Vão. 4 Desnecessário. 5 Sem préstimo.

E é porque meu cérebro se nega a permitir que meu corpo tenha o que mais precisa: descanso. Porque meu cérebro nega a si mesmo o fugaz alívio que a inconsciência pode lhe proporcionar – por isso, eu continuo aqui, noite adentro, noite afora, perturbada por pensamentos incompletos e por sensações que atendem por diversos nomes: angústia, inquietação, desilusão.

Que falta o glorioso em mim – nem a sono tenho direito – eu, que já nem peço mais por sonhos, nem rogo por clemência ou piedade e aceitaria, com gosto, qualquer sono que me viesse, vazio ou tumultuado por pesadelos.

Ah, que o que me consome é tão vazio e gelado que quase ouso pedir pelos grandes vendavais: que me sacuda a ventania do desespero, que me banhe chuva de amargas lágrimas, que soluços inconsoláveis castiguem minhas juntas envergadas.

Não, que tem me sido negado até a tormenta – e prossigo na insônia, arrastando meu corpo vilipendiado e triste.

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universos a explorar

Descobertas e desventuras de duas Fênix no fantástico mundo das palavras

As palavras vieram para mudar a minha vida: elas me oferecem novos mundos todos os dias; com elas conquisto e exploro planetas nunca antes imaginados. Elas vêm de mim e para mim — dão início a situações que modificam o curso do meu cotidiano, sempre tão variado e intenso.
Minha mãe conta que iniciei bem cedo a arte da tarelice e já o fazia com adoração, caprichando na pronúncia e buscando novas palavras. “Barrrrrranco”, assim eu falava, adorando o som rascante dos RRs que minha pequena língua produzia. Era tanta vontade que Mamãe teve que ensinar-me logo a ler e, aos 5 anos, já mergulhei no fantástico universo da palavra escrita. Fui precoce à escola e a professora chorou quando mudei de classe, desolada com a partida da pequenina fênix ruiva, que tanto amava a língua e suas letras.

Os livros eram meus paraísos secretos, meus abrigos, minhas viagens. Bebia com fervor cada palavra escrita, admirando a habilidade com que os grandes escritores a manuseavam. A escolha da palavra correta, o adjetivo preciso, a construção inesperada, a surpresa do novo vocábulo!
Quem via a moça ruiva, falante e risonha raramente adivinhava sua sensibilidade, seu gosto, seu gozo ante à delicadeza. E vivia duplamente, lépida e alegre no mundo público. E no secreto do meu quarto, o mundo dos meus livros e das minhas músicas estranhas.

A Internet foi a consagração maravilhosa da vida e renascimento da palavra escrita. Pioneira dos chats, reconhecia de imediato as pessoas atrás da tela do computador, suas naturezas reveladas nas linhas, nas pequenas jocosidades, na informalidade do novo diálogo, veloz e sempre presente. Quantas criaturas maravilhosas eu conheci, quantas neuroses acumuladas, a mais recôndita intimidade revelada entre pontos. Ganhei novos amigos e nova família – e ganho, até hoje – ganho diariamente.

Escrever neste blog traz pequenas transformações – perceber a profundidade de momentos que parecem banais e, depois, traduzi-los em escrita. Pequenas mudanças que reconfiguram toda a forma com que vejo e sinto o mundo e as pessoas, imaginando que depois vão se perpetuar no texto que publico aqui. De repente, estou a pensar no termo mais bonito e mais exato para descrever sentimentos, emoções e sensações. Revivo meus encontros, meus amores, minhas desilusões; resolvo meus conflitos e libero meus desatinos: que este mundo não tenha fronteiras, que tudo seja dito, escrito e sentido. Que a palavra venha revelar o que tentamos, a custo, esconder durante a precária forma que usamos para sobreviver ao sombrio. Que a palavra venha iluminar os grandes ou pequenos acontecimentos que a velocidade da vida moderna atropela.

E é com amor intenso, com paixão, com orgulho incomensurável que eu vejo minha pequena Fênix morena explorar com satisfação o novo e deslumbrante mundo que encontra, a cada livro que lê, a cada bilhete que recebe da Mãe Ruiva, a cada cartinha que escreve para os amigos. É minha querida nascendo e renascendo, constantemente, procurando febril pelo desconhecido e pela poesia que encontra na escolha daquela que já é sua adoração: a palavra.

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teu sonho me castiga

Vai-te embora, que teu sonho é meu pesadelo. Teu sonho é o não que chicoteia a pele da minha realidade. Vai!

Fazer parte daquilo a que chamas teus sonhos e devaneio nunca me foi exatamente uma novidade. Ouvir-te admitir isto trouxe satisfação, alívio e, coerente com nossa ambigüidade, também desgosto e raiva.

Admites o que há tempos adivinhei. Secretamente satisfeita, deixo aflorar um quê de cinismo ao apontar minha carne voluptuosa: sonhos? Devaneios? Com este corpo aqui, este que freneticamente responde a mínimo gesto teu? Sarcasmo e desprezo, também, porque mereces. Sonhos e devaneios, oras bolas!

Este sonho compõe parte importantíssima da tua vida, dizes. Resignada, inconformada; febril e descrente, eu questiono: é o sonho melhor que a realidade? Não, um gemido, não, arfando, não, estar com você é muito melhor, é incomparável, você sabe – um suspiro. Mas, não quero – e desta vez, és muito mais firme.

O sonho é mais seguro, o sonho é mais seguro, o sonho é mais seguro, é o mantra latejando em minha têmpora. Não falo. Só latejo.

Não queres? Eu lamento. E voltas a dizer, certo, seguro: não. Pois não parece, instigo. Não é o que teu corpo diz. Tua boca diz sem palavras o que tua mente temerosa articula em sons, em léxico.

Deito em ti meu olhar, este que já conheces tão bem. Não se faz necessário que eu diga palavra sequer. Tantas já desperdicei… Aprendeste a ouvir tudo o que calo. Aprendeste a ouvir em meu silêncio e meus olhos.

Queres, sim, queres com fome, com voracidade – é o que meu olhar te diz, os lampejos dourados te lembrando dos minutos ardentes que há instantes tivemos. Eu, que conheço tão bem as variadas formas de desejar e ser desejada, sei que teu querer é tão maior que o mero desejo. Meu olhar amarelo te acaricia e te confronta; largo meu sapato e pouso meu pé indolente na tua perna. Na tua perna, queimando… Queimam também teus olhos, tua face rubra. Mantenho imóvel o pé, sem maior insinuação que minha pele em chamas contra a tua. Não me encorajas, tampouco me rejeitas. Vagarosamente, sinto tua mão quente sobre meu pé.

E sustentas meu olhar. Sequer tentas esconder teu desconforto, tua tormenta, teu desatino. Teu desejo implacável. Acreditei no teu discurso, acuso, suave. Acreditei que era possível, tu que tanto me queres; disseste que era assim a vida! Acreditei. E agora?

E agora, cá estamos, meu pé em tua perna, tua mão em meu pé. Queimando. Incompletos. Estamos onde não queríamos estar, aquém e além dos nossos desejos e quereres. Meu pé vai muito além do “não quero” que afirmaste, tão seguro. Meu pé fica muito atrás do que ansiamos tanto.

Nossas pulsações são rítmicas e violentas e espalham por todas nossas células o calor do desejo maldito. Esta praga que assola meus dias e minha alma, que impede que eu deixe de pensar em ti por um dia sequer. Esta praga que contamina teus sonhos e devaneios.

Se apenas estendesses as mãos, serias capaz de alcançar a realidade e tornar possíveis tuas fantasias. Por que te recusas tanto? Por que te negas tanto?

O que temes? É quase impossível sermos mais infelizes do que agora, sabendo que há outra vida para nós. Ter ultrapassado o limite e ter vislumbrado o novo arrebenta minha vida cotidiana. Esgota quaisquer possibilidades de manter toda esta organização intacta.

E alguém me ajude com os meus cacos, que não sei o que fazer deles. Não me explicas! Ordenas que eu siga, que eu vá, que tenha bom senso. Ordenas que me organize, cerre os olhos e continue, silente, a boca fechada sufocando o grito de angústia que eu quero dar.

Mal esfriou em mim o calor da tua boca, continua pulsando a pele que mordeste; meu corpo todo continua ansiando pelo teu! E segues, duro, impiedoso, tentando distanciar-te o mais possível de mim. Tua distância é curta, eu ainda te vejo, ainda te sinto! E quando quase te esqueço, voltas, tuas mãos famélicas, teus dentes de canibal, teu corpo selvagem.



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lento e tortuoso declínio de uma selvagem

Para um anti-social que me exorta a ser social. Que não é ruivo, mas é marginal.

Se eu sentisse que escolhi esta vida, talvez ela não me fosse tão penosa, tão pesada. Parece que ainda estou tentando me adaptar à uma situação que aconteceu depressa demais, porém sei que não é verdade. Já não é mais verdade, embora tenha sido, há alguns anos, quando você me disse que minha vida parecia um bonde rumando velozmente, enquanto eu tentava, sem sucesso, um lugar dentro dele.

Hoje, muito mais que um mero assento no bonde, sei que me apropriei dele de tal forma que quase podemos dizer que o conduzo. Mas é quase, é quase! Pois, não é este o caminho pelo qual eu queria seguir, muito menos este um bonde que planejava conduzir. Estou a serviço deste bonde, mas ele não me leva a lugar algum que eu tenha desejado. Se é que eu ainda seja capaz de reconhecer o que desejo.

Minha vida anterior não era de gozo e prazeres apenas; era de trabalho árduo, de solidão, de liberdade, de escolha, responsabilidade e também, também!, gozo e prazeres! Hoje eu os tenho? Uma ruiva selvagem, que sabia seguir o que queria, sabia negar o que não queria, arcando com todas as responsabilidades das suas escolhas. Inclusive, a de ser só. Social quando queria, anti-social quando me enojava; acompanhada na folia e invariavelmente só no trabalho e na dureza. Por escolha.

Por escolha e barbárie, podia dar de ombros às convenções sociais cretinas, aos malabarismos fúteis, ao irritante cacarejar no galinheiro social. Veja o que eu sou agora! Uma senhora burguesa! Qualquer selvagem, que conserve um resquício que seja de sua natureza indomável, sente-se aprisionado e impotente dentro da pele de uma senhora burguesa! E quem há de vir me dizer que a gente escolhe a vida que tem? Ou é esse a quem chamamos de Deus que faz as piadas mais tortuosas com aqueles pobres mortais que ousam sonhar um pouco além?

Uma senhora burguesa que nem é burguesa, pois tem que trabalhar arduamente para ajudar a prover o sustento da família. Uma perfeita senhorinha burguesa pagaria com mais facilidade a escola das suas filhas, não teria dívidas nem parcos bens. Cadê o cabeleireiro e o maquiador de plantão? Meus deveres nós conhecemos bem, devo ser a esposa inteligente e companheira do marido, devo ser a cunhada acolhedora, a boa filha, a mãe paciente, devo sorrir agradavelmente para aqueles me reservam a mais solene ignorância, enquanto dedicam patética e reverencial adoração ao senhor meu marido. E, como não convém nem um pouco a uma senhora burguesa, devo também cuidar da empresa do meu marido, ser sua agente de relações públicas, defender seus interesses, orar pela sua saúde, vigiar suas costas e trazer um pouco de bom senso para quem é, essencialmente um gênio público com um certo comprometimento emocional. Ah, para quem já não é pessoa física, mas pública. Um pouquinho autista. Esquecido da sua senhorinha. Adorável distraído.

Meu intestino grita, minhas entranhas se retorcem porque se recusam a se acomodar neste corpo de senhora burguesa, que já até se tornou roliço, para que possa arcar com os deveres da senhorinha e da mula. Isso, mula. M-U-L-A, daquelas de carga mesmo.

Se for para ser mula, que eu pelo menos possa dar meus coices! Que se dane essa gentalha que acha que pode apontar seu dedo acusador e me julgar por ter demorado a retornar um telefonema, quando minha cabeça está pegando fogo e meu corpo caindo do abismo. Todo mundo tem seus problemas? Sim, sim, eles têm! Eu também tenho e quero gritar um “DANE-SE” para todos eles, desde que me deixem em paz. Ninguém vem me oferecer ajuda mesmo. Tampouco estou pedindo nada, apenas que não me venham com mais demandas. E inúteis.

Se for para ser a senhorinha, que eu seja de porcelana e que me tratem como a um bibelô, por favor. Que eu sou frágil, não posso ser exposta ao sol e sei me comportar como uma verdadeira madame em todos os aposentos públicos. E sei me tornar profana na alcova. Daí, sim, talvez eu consiga engolir o asco e curvar-me até com gosto, quem sabe?, às tais convenções e à dança social.

Nós, que já passamos do básico, não vamos cair na tentação de dizer que minha revolta é um traço de adolescência tardia e que eu quero apenas uma vida de gozo e prazeres. Eu quero é minha liberdade de volta. Eu quero é poder dar de ombros, é poder ser selvagem, é poder ser louca quando me der vontade. Porque quem paga minhas contas sou eu, quem se deita comigo sou eu e quem agüenta meus pensamentos extravagantes sou eu. Quem acorda de noite assustada pelos meus demônios sou eu e quem cuida, vela e teme pelas minhas crias sou eu.

Eu sou selvagem e estão matando isso em mim. A civilização vai acabar com a minha espécie. Os ruivos são atávicos, seremos extintos e essa terra de morenos e falsas loiras gosta demais da superficialidade. Nós, os ruivos selvagens, estamos fadados a morrer. Extintos. De tédio. De desgosto.

É isto. Estou em revolta. E minha raça está em declínio.

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entre retalhos e entranhas

Há uma verdade que venho escondendo tão profundamente em mim que mal ouso pensar nela. Ao menos tentei te enganar com meias verdades e pequenas distorções. Não, eu a enterrei no mais escuro de mim, mesmo sabendo o horror que isto me traria. Mesmo sabendo as conseqüências que viriam – e vieram – afligir meu corpo.

Se tivesse conseguido momentos de alívio enquanto a mantive enterrada, talvez tivesse valido a pena.

Uma vez, tive um acidente no laboratório cacos de vidro entraram em minha mão. O ferimento foi pouco profundo, mas dolorido, e não consegui tirar todos os resíduos. Doía ter que mexer no corte para tirar os cacos e, então, deixei algum passar desapercebido. O corte inflamou, minha carne tentando expelir aquele corpo estranho; tive que cavoucar novamente a ferida, agora com dor muito maior, em busca do caco. A inflamação e o inchaço eram tantos que, mais uma vez, a busca resultou inútil. E eu deixei. Dava pouca atenção ao fato do corte demorar tanto a cicatrizar. Dava pouca atenção ao latejar constante da inflamação que abrandava, mas não cessava. Foi se abrandando aos poucos, até que eu me esquecesse do corte. E um dia, a pele expeliu o caco de vidro.

Desta vez, ferida por minha verdade-caco, agüentei por meses o latejar incessante da inflamação, esperando que desaparecesse. Se eu não olhasse, se escondesse e a todo custo suportasse a dor surda, um dia meu próprio corpo se livraria da verdade-caco que eu tentei esconder. A inflamação está aqui, aumentando a cada dia, sem sinal algum que vá se curar por si mesma. Se eu não expuser a verdade-caco, vou continuar inflamada.

Já sei o que vai ser de mim depois que te contar. É como se eu tivesse saído sem roupas pelas ruas. Aquela mesma sensação que temos nos sonhos, quando estamos em um lugar público e, repentinamente, nos damos conta que estamos de pijama, ou nus. Pior que estar apenas nua, estarei eviscerada. O caminhão verdade passou sobre mim, ou a faca verdade me retalhou. Pouco importa a metáfora. Estarei nua, sobre o chão sujo, com as entranhas de fora.

E é tudo surreal, grotesco e subvertido, o mesmo mundo paralelo e incompreensível dos meus sonhos. É difícil avaliar o que me incomodará mais, estar nua, estar no chão sujo, estar com minhas vísceras para fora, tentando acomodá-las de volta em minha barriga ferida. Não há espectadores se espantando com a visão medonha; mesmo assim, estar nua me deixa desconfortável, a sujeira do chão me enoja. Quedo-me atônita ante minhas entranhas expostas: o que fazer com elas?

Tudo em mim está exposto. Minhas entranhas desencontradas constituem risco muito maior ao meu corpo e à minha sanidade do que minha nudez no meio da sujeira. Ainda assim, continuo, atônita, sem saber o que fazer da nudez e da evisceração.

Esta paralisia inevitavelmente me levará a uma fatalidade maior. E continuo inerte.

Também não te revelei ainda a tal verdade, reparaste?

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aos pares

E nossas mãos.

Eu te perturbo porque preciso. Incomodo-te cônscia da necessidade que me move: perturbar-te é imperativo para que mantenha viva minha essência e não me torne, eu mesma, arremedo de quem sou. Como tu, que carregas como cruz os desejos a que não te permites, a vida que te negas e tudo aquilo que preciso ver para não me transformar no que mais me assusta: tu.

Tudo em nós é duplo, dúbio, antagônico e complementar. Somos extremos que se complementam e se repelem. Eu te amo, mas te odeio e tens em ti o que me encanta e repudia. Tudo em nós vem aos pares, gêmeos opostos, como nossas próprias mãos: a destra e a esquerda, imagens quase espelhares de si mesmas – duas.

Coerente à nossa natureza, perturbar-te vem como dor e prazer. É com prazer de quem se vinga que inflijo os pequenos golpes na organização do teu dia-a-dia. É com melancólica doçura que me redimo das minhas vilezas. É com raiva que aceito teu perdão, mesmo precisando tanto da tua presença dupla, a que me ampara e a que me rejeita.

Tua existência vem à minha vida em dois níveis. Vivemos na superfície de nossos sentimentos e confinamos ao nosso porão todos aqueles sentimentos que não podemos soltar. Escondemos, obscuros, uma coleção de monstros subterrâneos e conversamos fingindo não ouvir seus urros. Que importa que clamem, que bradem? Importa é que no primeiro nível se conserve a calma enganadora da nossa não-relação. A verdadeira e monstruosa relação vai continuar confinada ao calabouço clandestino e escuro do que não se consuma.

Vivo como se tivesse tua mão sobre mim, ora a apoiar, ora a estapear. Duplo, dupla, par, que sina é esta que nos persegue? Tua mão a me guiar, a equilibrar meus passos inseguros. Tua mão que garante a tua presença perene, resistindo às perturbações que não me canso de cometer. Tua mão garante que estás a um grito de distância: “Vem!”, te suplico, “Vem que quase caio” e moves tua força silenciosa a me acudir.

E, também, também, também!, tua mão a me estapear a cara, impiedosa: “Acorda que a vida urge e não tens mais tempo para ilusões”. Implacável, tua mão é o grito que me tira do devaneio e me obriga à ação. “Anda!”, assim me apressas, “anda”, é assim o estalo do tapa, “Olha o corpo contíguo à esta mão que te castiga, olha bem o corpo que tanto queres e que te nego! Isto é o que não queres para ti! Não há tempo para quedar-te inerte. Anda!”.

Vês que esta tua mão talvez seja minha? E já nem sei mais o que é teu, o que é meu, o que acontece, o que sonho. Sei que preciso andar, sei que preciso dar voz ao uivo atormentado que se cala em meu peito. Sei que os sonhos estão lá, a espera do meu movimento.

E “lá” é um lugar a que se chega com dificuldade, mas a que se chega. Não é terra regada com leite e mel. É terra que demanda semente, cultivo constante e depois floresce. É terra fértil sob mãos laboriosas e perseverantes.

Queres juntar às minhas tuas mãos fortes? Há tanto espaço, “lá”, na terra em que nossos sonhos podem florescer; há espaço para nós, para a monstruosidade do nosso desejo, para a largura do nosso amor. Vem, minha voz agora te chama, vem comigo, quero mais do que tuas mãos, traz também teu corpo junto ao meu, que anseio tanto pelo teu calor, tua pele, teus olhos; vem!

Vem que viver é mais do que isto que temos agora.

Vem que viver parecer ser um sonho possível.

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Receita

Deus (?) ajuntou um novelo vermelho de ansiedade, mais umas moléculas de água, pendurou umas proteínas, adicionou um par de ácidos graxos. Parou, coçou o queixo, franziu o cenho, decidiu inovar: enfiou no topo um tufo de cabelos de milho. E, como sina ou bênção?, decidiu que minha essência seria a do renascimento.

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Twitter: Os pios da Fênix

  • Pronto. @bibinassif despachada. E eu me comportei linda e dignamente e nem chorei (não na frente dela pelo menos)...1 day ago
  • A piveta ansiosa @bibinassif finalmente no quase embarque. http://twitpic.com/plyoa...1 day ago
  • para matar a saudade daquele tempo: joy division. ian curtis, muito, mas muito antes e melhor que seus "herdeiros" new orders......2 days ago
  • why is it something so good/ just can't function no more? love. love will tear us apart again/ love, love will tear us apart again...2 days ago
  • do you cry out in your sleep?/ all my failings exposed.../gets a taste in my mouth/as desperation takes hold/...2 days ago


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Baby Phoenix

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