Fênix em Verso e Prosa

negativo

resta em nós a tristeza do que não fomos.
sombra que cresce na madrugada insone
em azul, em púrpura e vinho —

em sangue pisado.

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fênix em verso

sinto falta
de quando me dissolvia
na ponta do lápis,
para então renascer
- breve e desconhecida -
em poesia.

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gag

tenho versos silenciados, entalados na garganta.
versos espinha-de-peixe.
eles me arranham, eles gritam enquanto engasgo.

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Primeiro de abril

qual a sua mentira?
a de hoje, não –
mas aquela necessária
pílula diária
mentira travestida
de sonho e ilusão

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obscuros

de tão perto e por tanto
que agora vivo em flerte
- encantados eu e ele

e não sei do meu desejo:
se é abismo, se é espelho

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Círculo

quero a palavra certeira
o verso estampido
um tiro no peito

para morrer em rima
morrer em soneto
fatal redondilha

queimar até as cinzas
renascer do avesso

verde e dissolvida
em verso-recomeço

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Diálogo em verso

Rafael Coelho

Barata tonta

Rapidamente um pingo
de açúcar barato sente,
pula como fosse bingo!

O que tinha em sua mente:
bom açúcar de domingo,
doce melado doente…

Deixa a pobre tonta,
na pouca vida que conta.

 

Fênix

Ah, Coelho!

um pingo já basta,
barato ou não —
o que conta
é o doce na boca
é a perda da razão

o que vale é a tonteira
a promessa de valsa
é o giro e a ilusão

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Carvão

neste ano vou de preto
abdicar do vermelho,
desistir do fogo
vou estancar o sangue

quero escrever um grito
quero a palavra em susto
em branco, em negro, a seco

neste ano vou de preto
não tem flor, não tem cor
não tem contexto
tem a palavra fria e nua
tem a palavra crua
só o gesto duro
rasgado no papel

sem dor e sem luto
–  o novo mundo
pichado no muro

neste ano vou de preto

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Novo dia

tantas coisas
a aurora não resolve
– esta minha angústia
ampliada e traduzida
em sangue que escorre
em sangue que pulsa

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Magma

surge, inesperada
a fera que devora
e a carne rasga
de dentro para fora

esculpe em garra
ornatos de sangue
pétalas em fúria

lança e flor rutilantes
desenham em minha pele
seu enigma de fogo

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Canção grave

Em resposta aos Fulminantes.

até parece a gente,
tão encantada
que vai valsando
vai sôfrega, urgente
vai em redenção
e, no encontro, um muro
– pétreo não
e o choro e o soluço:
desilusão

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E … a Gota da Fênix

mas a tua gota
ah! talvez ela possa
alcançar minha boca
subir ao meu olho
despejar meu pranto
e até meu sangue
ali no chão, em poça

em alívio.

e assim teu choro
em vermelho derrame
abraça meu corpo
seco, salgado, aflito.

e assim úmidos
teu beijo e meu choro
tua lágrima e meu olho
tua gota e minha boca

em delírio.

 

(( pena que eu não sei fazer ficar bonitinho em formato de gota… ))

 

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Malogro

o dia que amanhece
me estapeia a cara
ofereço a outra
submissa
resignada à gaiola

adivinho lá fora
prismas no céu
imensidão, liras
a fala solta
e um encontro

entre o anseio
e a dúvida
e se for o mundo
mais estreito
que meu sonho?

e se meus pés
passam a chumbo
impedindo o vôo
zeladores
do meu cativeiro?

súbita
enrijeço o corpo
elevo o rosto
explosão e força
estendo as asas

em estrondo
se rebentam no metal
arrancam ruivas
e crespas lascas

fragmentos de ferro
em brasa
queimam minha pele
assinalando em fogo
estas sardas

tristes marcas
da minha clausura

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Ramificação

Uma flor do campo de flores.

Muito propício, em princípio, mas não somente.
Não somente porque é isso, sempre este aí, afinal: tantos tentáculos acumulados que agora podem, mas somente pedem, um somente pede.

João Grando

e se a um somente?
se a um fosse permitido
completar o gesto
a doação sem ironia

se a mão se estendesse
em resposta ao pedido
a esta mão se daria
inesperada semente

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O Segundo Trabalho

urge em mim a vida
que tive senão em imaginário
dissoluta e fragmentada
em diálogos, suspiros e desatino

por Atena fui maldita
sou Medusa
do meu cérebro em torvelinho
se faz o serpentário
é família, é minha mãe e meu ninho

concebi meus filhos e meu irmão
em idéia
valsam murmúrios incessantes
minha cabeça rodopia
em júbilo e gozo
ébria

cientes de sua glória
sussurram, exigem
confundem-se em minha voz
reclamam espírito
e essência

dobra meu ventre o parto
agonizo e me divido
dou vida a elas

vêm de nascença
criaturas incompletas:
sou agora Hidra de Lerna
sete cabeças em desvario

rompe-se a cerca da berma
cativa dos meus rebentos
alcanço o punhal

minhas mãos são poucas
e o discurso é vário
entre todos os gritos
já não identifico
minha cabeça imortal

e vai meu corpo desgovernado
com suas cabeças de serpente
uma sente calor, outra frio
a outra cala, a última mente

chego ao espelho
faca em riste
minha face reconhecerei
pelos olhos tristes
e o desalinho do cabelo

em golpe arrazoado
a cabeça nua e reluzente
vão mortos os ofídios
e exorcizados meus entes

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Desvio padrão

teu nome é erro
e se variam os corpos
na dança do desejo
após o gozo
abro os olhos
e reconheço
tua natureza de engano

em minha série de desvios
e equívocos
teu nome é o mesmo
acrescido de dígito
romano ou arábico
- és erro sistemático

são os algarismos
absolutos ou relativos
integrando e derivando
o repetido engodo

será nove, doze
ou sete
o número mágico
que se multiplica
até o infinito?

teu nome é erro
traduzindo em matemática
o meu desacerto

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Perdedouro

de tão desacertada
fiz em ti minha morada
mas, não te encontro
e se foi sonho?
teu corpo se esvai no derradeiro
pensamento
que o sono dissolve
à beira do leito e da morte

por sombras recoberta
na casa vazia à tua espera
e se foi sonho?
tuas carnes e teu cheiro
ilusão
que a alma anseia
és sal, silêncio e poeira

autoras da tua ausência
restam minhas mãos
desocupadas
e se foi sonho?
em mancha cinzenta
minha face transfigurada

até meus pássaros
umbrosos companheiros
fugiram em revoada

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Eco e reflexo

não existias
senão sob meu olhar
pois vivi para te adorar
e te compor
apesar de teu desamor

mas, outro dia
contou-me o bem-te-vi
desde que parti
tua existência é opaca
e teu vulto, ausente

se já não te penso
não respiras
sem pisar meu corpo
como alçar o Paraíso?

teu espelho d’água,
Narciso,
eram os meus olhos

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Máscara

nos dias de luto
deixo os mortos
à terra

maquiagem é escudo
o preto nos olhos
vela a perda

pinto o rosto
como quem vai
à guerra

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Improváveis

na cidade adormecida
passeio com o bando
as aves do desencontro

o pássaro de fogo
vai ao meu ombro
escuro adorno
do invisível manto

é o meu estandarte
– sou rainha obscura
filha do quarto minguante
a obliterada metade
sou do sol a renegada

em silêncio a revoada
se adensa e circunda
minha figura de penumbra
somos noturnos ciganos
os habitantes das brumas

lá onde o cumo da montanha
confunde-se à espessa nuvem
e o céu é feito de chuva,
é prenúncio da tempestade

somos os herdeiros das sombras
os esquecidos e sinistros
nós pertencemos ao limbo
e à dúvida
somos os filhos do oblívio

nós somos marginais dos sonhos
os portadores das chagas
excomungados e descrentes,
ainda assim sobrevivemos,

tortuosos e errantes
e ainda assim florescemos

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+++ palavra-imagem +++



é aqui na janela do meu delírio
que acridoce ainda sinto
gosto quase extinto:
o gozo da tua boca
antiga febre consumindo
o sal do teu olho

na penumbra me dissolvo
aqui à parede
– eu mesma sombra
eu mesma espectro

na janela do meu delírio
é onde finjo
que o amor se foi
sem causar dano
sem transfixar meu flanco
o fracasso de nós dois

aqui na janela do meu delírio
permaneço sombra e sobra






(Desenho de Maína Junqueira)

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Hoje

dia em que a morte
ronda traiçoeira
branca segunda-feira
de espanto e sobressalto:

como é tênue a fronteira
a viva fragilidade
os corpos ao capricho
do golpe da sorte

fim de tarde
e a vida se refaz
em suspiro e alívio
mãos crispadas, olhos ao alto

– sobrevivemos

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Risque-rabisque

Desenho de Maína Junqueira

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Musa

É madrugada e o chão beija meus pés
– sorrio enquanto descalça vou à cozinha,
ouvindo o barulho da minha pele nua no assoalho.

Pela janela a sombra da bananeira e sorrio ainda mais:
é meu gosto de ter casa com bananeira;
que linda minha bananeira, canto como criança.

Outro dia disseram que é falsa e não dá frutos,
mas é minha e é bananeira;
e bananeira de flor é ainda mais bonita,
porque é ba-na-ne-i-ra e é flor!

“Beijos” nos pés e uma bananeira,
por isso sorrio, apesar das noites insones,
por isso continuo, apesar da vida;

é quase nada, mas resgata em mim o sonho:
eu vejo à janela, agora, a bananeira que também é flor.

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Pequena morte (2)

Desenho: Maína Junqueira

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Receita

Deus (?) ajuntou um novelo vermelho de ansiedade, mais umas moléculas de água, pendurou umas proteínas, adicionou um par de ácidos graxos. Parou, coçou o queixo, franziu o cenho, decidiu inovar: enfiou no topo um tufo de cabelos de milho. E, como sina ou bênção?, decidiu que minha essência seria a do renascimento.

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  • Pronto. @bibinassif despachada. E eu me comportei linda e dignamente e nem chorei (não na frente dela pelo menos)...1 day ago
  • A piveta ansiosa @bibinassif finalmente no quase embarque. http://twitpic.com/plyoa...1 day ago
  • para matar a saudade daquele tempo: joy division. ian curtis, muito, mas muito antes e melhor que seus "herdeiros" new orders......2 days ago
  • why is it something so good/ just can't function no more? love. love will tear us apart again/ love, love will tear us apart again...2 days ago
  • do you cry out in your sleep?/ all my failings exposed.../gets a taste in my mouth/as desperation takes hold/...2 days ago


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