resta em nós a tristeza do que não fomos.
sombra que cresce na madrugada insone
em azul, em púrpura e vinho —
em sangue pisado.
Arquivado como:Verso
14, Outubro, 2009 • 9:00 pm 2
resta em nós a tristeza do que não fomos.
sombra que cresce na madrugada insone
em azul, em púrpura e vinho —
em sangue pisado.
Arquivado como:Verso
10, Outubro, 2009 • 12:44 pm 3
sinto falta
de quando me dissolvia
na ponta do lápis,
para então renascer
- breve e desconhecida -
em poesia.
Arquivado como:Verso
1, Abril, 2009 • 11:55 am 6
qual a sua mentira?
a de hoje, não –
mas aquela necessária
pílula diária
mentira travestida
de sonho e ilusão
Arquivado como:Cotidiano, Verso , Imaginário, Sonho
24, Março, 2009 • 4:20 pm 10
de tão perto e por tanto
que agora vivo em flerte
- encantados eu e ele
e não sei do meu desejo:
se é abismo, se é espelho
Arquivado como:Verso , Desencontro, Encontro, Sonho
28, Janeiro, 2009 • 12:01 am 4
Barata tonta
Rapidamente um pingo
de açúcar barato sente,
pula como fosse bingo!
O que tinha em sua mente:
bom açúcar de domingo,
doce melado doente…
Deixa a pobre tonta,
na pouca vida que conta.
Fênix
Ah, Coelho!
um pingo já basta,
barato ou não —
o que conta
é o doce na boca
é a perda da razão
o que vale é a tonteira
a promessa de valsa
é o giro e a ilusão
Arquivado como:Diálogos, Outros autores, Verso , Sonho, Visitantes Poéticos
8, Janeiro, 2009 • 3:02 pm 5
neste ano vou de preto
abdicar do vermelho,
desistir do fogo
vou estancar o sangue
quero escrever um grito
quero a palavra em susto
em branco, em negro, a seco
neste ano vou de preto
não tem flor, não tem cor
não tem contexto
tem a palavra fria e nua
tem a palavra crua
só o gesto duro
rasgado no papel
sem dor e sem luto
– o novo mundo
pichado no muro
neste ano vou de preto
30, Outubro, 2008 • 7:45 pm 7
surge, inesperada
a fera que devora
e a carne rasga
de dentro para fora
esculpe em garra
ornatos de sangue
pétalas em fúria
lança e flor rutilantes
desenham em minha pele
seu enigma de fogo
Arquivado como:Verso , Fênix, Habitante interno
20, Outubro, 2008 • 11:54 am 3
Em resposta aos Fulminantes.
até parece a gente,
tão encantada
que vai valsando
vai sôfrega, urgente
vai em redenção
e, no encontro, um muro
– pétreo não
e o choro e o soluço:
desilusão
23, Setembro, 2008 • 5:26 pm 15
mas a tua gota
ah! talvez ela possa
alcançar minha boca
subir ao meu olho
despejar meu pranto
e até meu sangue
ali no chão, em poça
em alívio.
e assim teu choro
em vermelho derrame
abraça meu corpo
seco, salgado, aflito.
e assim úmidos
teu beijo e meu choro
tua lágrima e meu olho
tua gota e minha boca
em delírio.
(( pena que eu não sei fazer ficar bonitinho em formato de gota… ))
Arquivado como:Verso , Beijo, Choro, Imaginário, Renascimento, Sonho
3, Setembro, 2008 • 9:55 pm 4
o dia que amanhece
me estapeia a cara
ofereço a outra
submissa
resignada à gaiola
adivinho lá fora
prismas no céu
imensidão, liras
a fala solta
e um encontro
entre o anseio
e a dúvida
e se for o mundo
mais estreito
que meu sonho?
e se meus pés
passam a chumbo
impedindo o vôo
zeladores
do meu cativeiro?
súbita
enrijeço o corpo
elevo o rosto
explosão e força
estendo as asas
em estrondo
se rebentam no metal
arrancam ruivas
e crespas lascas
fragmentos de ferro
em brasa
queimam minha pele
assinalando em fogo
estas sardas
tristes marcas
da minha clausura
Arquivado como:Dos pássaros, Verso
25, Agosto, 2008 • 10:25 am 3
Uma flor do campo de flores.
Muito propício, em princípio, mas não somente.
Não somente porque é isso, sempre este aí, afinal: tantos tentáculos acumulados que agora podem, mas somente pedem, um somente pede.
e se a um somente?
se a um fosse permitido
completar o gesto
a doação sem ironia
se a mão se estendesse
em resposta ao pedido
a esta mão se daria
inesperada semente
Arquivado como:Verso , Encontro, Renascimento, Solidão
20, Agosto, 2008 • 10:39 pm 4
urge em mim a vida
que tive senão em imaginário
dissoluta e fragmentada
em diálogos, suspiros e desatino
por Atena fui maldita
sou Medusa
do meu cérebro em torvelinho
se faz o serpentário
é família, é minha mãe e meu ninho
concebi meus filhos e meu irmão
em idéia
valsam murmúrios incessantes
minha cabeça rodopia
em júbilo e gozo
ébria
cientes de sua glória
sussurram, exigem
confundem-se em minha voz
reclamam espírito
e essência
dobra meu ventre o parto
agonizo e me divido
dou vida a elas
vêm de nascença
criaturas incompletas:
sou agora Hidra de Lerna
sete cabeças em desvario
rompe-se a cerca da berma
cativa dos meus rebentos
alcanço o punhal
minhas mãos são poucas
e o discurso é vário
entre todos os gritos
já não identifico
minha cabeça imortal
e vai meu corpo desgovernado
com suas cabeças de serpente
uma sente calor, outra frio
a outra cala, a última mente
chego ao espelho
faca em riste
minha face reconhecerei
pelos olhos tristes
e o desalinho do cabelo
em golpe arrazoado
a cabeça nua e reluzente
vão mortos os ofídios
e exorcizados meus entes
Arquivado como:Verso , Habitante interno, Imaginário, Medusa
18, Agosto, 2008 • 2:18 pm 4
teu nome é erro
e se variam os corpos
na dança do desejo
após o gozo
abro os olhos
e reconheço
tua natureza de engano
em minha série de desvios
e equívocos
teu nome é o mesmo
acrescido de dígito
romano ou arábico
- és erro sistemático
são os algarismos
absolutos ou relativos
integrando e derivando
o repetido engodo
será nove, doze
ou sete
o número mágico
que se multiplica
até o infinito?
teu nome é erro
traduzindo em matemática
o meu desacerto
Arquivado como:Verso
17, Agosto, 2008 • 12:07 pm 7
de tão desacertada
fiz em ti minha morada
mas, não te encontro
e se foi sonho?
teu corpo se esvai no derradeiro
pensamento
que o sono dissolve
à beira do leito e da morte
por sombras recoberta
na casa vazia à tua espera
e se foi sonho?
tuas carnes e teu cheiro
ilusão
que a alma anseia
és sal, silêncio e poeira
autoras da tua ausência
restam minhas mãos
desocupadas
e se foi sonho?
em mancha cinzenta
minha face transfigurada
até meus pássaros
umbrosos companheiros
fugiram em revoada
Arquivado como:Dos pássaros, Verso
15, Agosto, 2008 • 12:09 am 6
não existias
senão sob meu olhar
pois vivi para te adorar
e te compor
apesar de teu desamor
mas, outro dia
contou-me o bem-te-vi
desde que parti
tua existência é opaca
e teu vulto, ausente
se já não te penso
não respiras
sem pisar meu corpo
como alçar o Paraíso?
teu espelho d’água,
Narciso,
eram os meus olhos
19, Julho, 2008 • 12:01 am 4
na cidade adormecida
passeio com o bando
as aves do desencontro
o pássaro de fogo
vai ao meu ombro
escuro adorno
do invisível manto
é o meu estandarte
– sou rainha obscura
filha do quarto minguante
a obliterada metade
sou do sol a renegada
em silêncio a revoada
se adensa e circunda
minha figura de penumbra
somos noturnos ciganos
os habitantes das brumas
lá onde o cumo da montanha
confunde-se à espessa nuvem
e o céu é feito de chuva,
é prenúncio da tempestade
somos os herdeiros das sombras
os esquecidos e sinistros
nós pertencemos ao limbo
e à dúvida
somos os filhos do oblívio
nós somos marginais dos sonhos
os portadores das chagas
excomungados e descrentes,
ainda assim sobrevivemos,
tortuosos e errantes
e ainda assim florescemos
Arquivado como:Dos pássaros, Verso , Habitante inter, Imaginário, Pássaros
15, Julho, 2008 • 2:04 am 5
é aqui na janela do meu delírio
que acridoce ainda sinto
gosto quase extinto:
o gozo da tua boca
antiga febre consumindo
o sal do teu olho
na penumbra me dissolvo
aqui à parede
– eu mesma sombra
eu mesma espectro
na janela do meu delírio
é onde finjo
que o amor se foi
sem causar dano
sem transfixar meu flanco
o fracasso de nós dois
aqui na janela do meu delírio
permaneço sombra e sobra
(Desenho de Maína Junqueira)
Arquivado como:Palavra-Imagem, Verso , Ausência, Palavra-Imagem, Solidão
14, Julho, 2008 • 5:52 pm 5
dia em que a morte
ronda traiçoeira
branca segunda-feira
de espanto e sobressalto:
como é tênue a fronteira
a viva fragilidade
os corpos ao capricho
do golpe da sorte
fim de tarde
e a vida se refaz
em suspiro e alívio
mãos crispadas, olhos ao alto
– sobrevivemos
Arquivado como:Verso
13, Julho, 2008 • 12:16 am 4
Desenho de Maína Junqueira
Arquivado como:Palavra-Imagem, Verso , Ausência, Palavra-Imagem, Solidão
7, Julho, 2008 • 12:01 am 4
É madrugada e o chão beija meus pés
– sorrio enquanto descalça vou à cozinha,
ouvindo o barulho da minha pele nua no assoalho.
Pela janela a sombra da bananeira e sorrio ainda mais:
é meu gosto de ter casa com bananeira;
que linda minha bananeira, canto como criança.
Outro dia disseram que é falsa e não dá frutos,
mas é minha e é bananeira;
e bananeira de flor é ainda mais bonita,
porque é ba-na-ne-i-ra e é flor!
“Beijos” nos pés e uma bananeira,
por isso sorrio, apesar das noites insones,
por isso continuo, apesar da vida;
é quase nada, mas resgata em mim o sonho:
eu vejo à janela, agora, a bananeira que também é flor.
Arquivado como:Verso , bananeira, Musa ornata
6, Julho, 2008 • 2:18 am 0
Desenho: Maína Junqueira
Arquivado como:Palavra-Imagem, Verso , Maína, Palavra-Imagem
Quem falou