3, Setembro, 2008 • 9:55 pm
o dia que amanhece
me estapeia a cara
ofereço a outra
submissa
resignada à gaiola
adivinho lá fora
prismas no céu
imensidão, liras
a fala solta
e um encontro
entre o anseio
e a dúvida
e se for o mundo
mais estreito
que meu sonho?
e se meus pés
passam a chumbo
impedindo o vôo
zeladores
do meu cativeiro?
súbita
enrijeço o corpo
elevo o rosto
explosão e força
estendo as asas
em estrondo
se rebentam no metal
arrancam ruivas
e crespas lascas
fragmentos de ferro
em brasa
queimam minha pele
assinalando em fogo
estas sardas
tristes marcas
da minha clausura
Arquivado como:Dos pássaros, Verso
17, Agosto, 2008 • 12:07 pm
de tão desacertada
fiz em ti minha morada
mas, não te encontro
e se foi sonho?
teu corpo se esvai no derradeiro
pensamento
que o sono dissolve
à beira do leito e da morte
por sombras recoberta
na casa vazia à tua espera
e se foi sonho?
tuas carnes e teu cheiro
ilusão
que a alma anseia
és sal, silêncio e poeira
autoras da tua ausência
restam minhas mãos
desocupadas
e se foi sonho?
em mancha cinzenta
minha face transfigurada
até meus pássaros
umbrosos companheiros
fugiram em revoada
Arquivado como:Dos pássaros, Verso
19, Julho, 2008 • 12:01 am
na cidade adormecida
passeio com o bando
as aves do desencontro
o pássaro de fogo
vai ao meu ombro
escuro adorno
do invisível manto
é o meu estandarte
– sou rainha obscura
filha do quarto minguante
a obliterada metade
sou do sol a renegada
em silêncio a revoada
se adensa e circunda
minha figura de penumbra
somos noturnos ciganos
os habitantes das brumas
lá onde o cumo da montanha
confunde-se à espessa nuvem
e o céu é feito de chuva,
é prenúncio da tempestade
somos os herdeiros das sombras
os esquecidos e sinistros
nós pertencemos ao limbo
e à dúvida
somos os filhos do oblívio
nós somos marginais dos sonhos
os portadores das chagas
excomungados e descrentes,
ainda assim sobrevivemos,
tortuosos e errantes
e ainda assim florescemos
Arquivado como:Dos pássaros, Verso , Habitante inter, Imaginário, Pássaros
30, Junho, 2008 • 1:51 am
O farfalhar da minha saia traz de volta estes pássaros, estes mesmos que me deixaram quando a lua se fez alta e nova e tantas luas se passaram até que hoje o canto da seda os reunisse outra vez. Ah, que eu vivo cercada por meus imaginados companheiros escuros e tu os conhece tão bem que ouviste ‘alto e claro’ o som de sua revoada. Desconfio que aí foram matar a saudade que tenho de ti e não te conto; e se até aí voaram talvez tenha sido para celebrar o que não fomos — que até disto sinto falta: do sonho cujo final se tingiu rubro ‘não’ em um muro perdido distante, em quente novembro de cinco anos passados. E se agora volto a te chamar é que a mesma necessidade que me impeliu a ti volta a me acordar. E mesmo sabendo que te perturbo te rabisco estas linhas: para me lembrar que um dia foste esperança e depois foste invencível negativa. E foste então amigo e amparo — mas ah!, como eu precisava do homem, agora te peço: devolve meu sonho decomposto, devolve o que de mim ficou preso no passado. Devolve meus pássaros, devolve minha ave opala negra de olhos inflamados que ela é nada menos que um pedaço alado e umbroso da minha alma, ela é a fênix negra, meu duplo escuro, meu gêmeo oposto, ela é a imagem que se confunde à minha quando ao espelho vejo a mulher de olhos revoltos e cabelo incendiado.
Arquivado como:Dos pássaros, Prosa , Saudade, Solidão
11, Junho, 2008 • 12:30 am
a poesia é conquista
o avesso do jorro
gotejamento de sangue
pus e lágrima
o pulso estanque
a vida concentrada
que pinga e se alastra
inevitável, necessária
espantosa
é minha ave escura
companheira de todas horas
mesmo quando se cala
ou porque sempre se cala
a poesia é o pássaro rei
onipresente, o meu duplo
de olhos chamejantes
que a noite transpassa
e o sonho alarga
é meu oposto obscuro
meu gêmeo cintilante
é vertigem, abraço e luta
Arquivado como:Dos pássaros, Verso , Escrever
Minha veia secou, talvez tenha sangrado enquanto dormia, talvez tenha sido um susto, não sei. A palavra foi silenciada e me falta um pedaço do corpo que nem identifico: só sinto, latejante, a falta, a falta, a falta.
Acordei sem voz, a língua áspera e ressequida, boca salgada. O sangue corre lentamente, espesso e pouco. Desconfio que ali, na minha medula cansada, se produza o que me é vital, tanto quanto este sangue: a palavra.
Consola-me ainda ouvir meus pássaros, suas asas em revoada; consola-me ser o silêncio escuro preenchido por eles. É como se alguém me segurasse a mão e sua pele quente infundisse à minha calor e pulso.
Arquivado como:Dos pássaros, Prosa , Escrever
inventei que me acompanham
pássaros negros e brilhantes
um deles tem círculos
rubro ouro reluzentes
que em seus olhos fulguram
abrasados e penetrantes
tão reais que ouço o barulho
do passaredo em revoada
tão agudos, presentes
que no Sul ouviram
alto e claro
o som das suas asas
de todos, o que temo
é o altivo soberano
das retinas incendiadas
conduzindo o bando
brandindo o cetro fúlgido
esquivo e silente
em pálido sussurro
eu clamo
talvez seu canto
chegue ao teu ouvido
talvez ouças o chamado
mas permanecem cerrados
os brilhantes bicos
mudos como meus lamentos
eu sofro no escuro
eu sofro o ausente
Arquivado como:Dos pássaros, Verso
de minhas desenganadas
entranhas
fez-se uma Beatriz
que me sorri e afaga
com seus olhos de oceano
pássaro de prata
traz do Mediterrâneo
a pungência do anis
e a vocação
que o nome designa
- aquela que faz feliz
ave canora encantada
que me dirige
e então salva
das chamas
e me faz sobreviver
ao que é meu dom e sina:
das cinzas
o eterno renascer
Arquivado como:Dos pássaros, Verso
partimos em revoada
calados
descrença, desengano
e desilusão
sonhos, promessas
amavios e deslumbre
voamos em bando
eu e os pássaros
da lembrança
espectros do não
eu, eles e as aves
da esperança
todos irmanados
escolhemos o vento
a erosão
trovão e chuva
a tempestade
é nosso elemento
a quietude disfarça
o intenso
os gritos abafados
pelo silêncio
pelas ruas onde passo
seguem olhares
um dedo acusa
aí vai a doida dos pássaros
Arquivado como:Dos pássaros, Verso
lua nova
prata lânguida esfera
encanta, ilumina
e revela
no vidro refletido
um vulto
seus olhos avisto
nasce da pupila
círculo de fogo
que rodopia, cintila
e fulge rubro
incandescente ouro
em meu corpo
o farfalhar do vestido
se mistura às asas
ecoa no ritmo
dos trôpegos passos
e desacertado pulso
ah!, pelas vidraças
brilham as sombras
negras opalas
penas e plumas
juntam-se meus pássaros
impressentido,
se fez o retorno
vou porta afora
abandono a casa
da vazia espera
sou filha da penumbra
e me conforta
o preto-azul do céu
estendo os braços
sou alada, aérea
e dançam nuvens
de aves escuras
à minha volta
impressentido,
se fez o retorno
Arquivado como:Dos pássaros, Verso
Quem falou