Fênix em Verso e Prosa

Malogro

o dia que amanhece
me estapeia a cara
ofereço a outra
submissa
resignada à gaiola

adivinho lá fora
prismas no céu
imensidão, liras
a fala solta
e um encontro

entre o anseio
e a dúvida
e se for o mundo
mais estreito
que meu sonho?

e se meus pés
passam a chumbo
impedindo o vôo
zeladores
do meu cativeiro?

súbita
enrijeço o corpo
elevo o rosto
explosão e força
estendo as asas

em estrondo
se rebentam no metal
arrancam ruivas
e crespas lascas

fragmentos de ferro
em brasa
queimam minha pele
assinalando em fogo
estas sardas

tristes marcas
da minha clausura

Arquivado como:Dos pássaros, Verso

Perdedouro

de tão desacertada
fiz em ti minha morada
mas, não te encontro
e se foi sonho?
teu corpo se esvai no derradeiro
pensamento
que o sono dissolve
à beira do leito e da morte

por sombras recoberta
na casa vazia à tua espera
e se foi sonho?
tuas carnes e teu cheiro
ilusão
que a alma anseia
és sal, silêncio e poeira

autoras da tua ausência
restam minhas mãos
desocupadas
e se foi sonho?
em mancha cinzenta
minha face transfigurada

até meus pássaros
umbrosos companheiros
fugiram em revoada

Arquivado como:Dos pássaros, Verso

Improváveis

na cidade adormecida
passeio com o bando
as aves do desencontro

o pássaro de fogo
vai ao meu ombro
escuro adorno
do invisível manto

é o meu estandarte
– sou rainha obscura
filha do quarto minguante
a obliterada metade
sou do sol a renegada

em silêncio a revoada
se adensa e circunda
minha figura de penumbra
somos noturnos ciganos
os habitantes das brumas

lá onde o cumo da montanha
confunde-se à espessa nuvem
e o céu é feito de chuva,
é prenúncio da tempestade

somos os herdeiros das sombras
os esquecidos e sinistros
nós pertencemos ao limbo
e à dúvida
somos os filhos do oblívio

nós somos marginais dos sonhos
os portadores das chagas
excomungados e descrentes,
ainda assim sobrevivemos,

tortuosos e errantes
e ainda assim florescemos

Arquivado como:Dos pássaros, Verso , , ,

Noturno

O farfalhar da minha saia traz de volta estes pássaros, estes mesmos que me deixaram quando a lua se fez alta e nova e tantas luas se passaram até que hoje o canto da seda os reunisse outra vez. Ah, que eu vivo cercada por meus imaginados companheiros escuros e tu os conhece tão bem que ouviste ‘alto e claro’ o som de sua revoada. Desconfio que aí foram matar a saudade que tenho de ti e não te conto; e se até aí voaram talvez tenha sido para celebrar o que não fomos — que até disto sinto falta: do sonho cujo final se tingiu rubro ‘não’ em um muro perdido distante, em quente novembro de cinco anos passados. E se agora volto a te chamar é que a mesma necessidade que me impeliu a ti volta a me acordar. E mesmo sabendo que te perturbo te rabisco estas linhas: para me lembrar que um dia foste esperança e depois foste invencível negativa. E foste então amigo e amparo — mas ah!, como eu precisava do homem, agora te peço: devolve meu sonho decomposto, devolve o que de mim ficou preso no passado. Devolve meus pássaros, devolve minha ave opala negra de olhos inflamados que ela é nada menos que um pedaço alado e umbroso da minha alma, ela é a fênix negra, meu duplo escuro, meu gêmeo oposto, ela é a imagem que se confunde à minha quando ao espelho vejo a mulher de olhos revoltos e cabelo incendiado.

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Verso-vício

a poesia é conquista
o avesso do jorro
gotejamento de sangue
pus e lágrima
o pulso estanque

a vida concentrada
que pinga e se alastra
inevitável, necessária
espantosa

é minha ave escura
companheira de todas horas
mesmo quando se cala
ou porque sempre se cala

a poesia é o pássaro rei
onipresente, o meu duplo
de olhos chamejantes
que a noite transpassa
e o sonho alarga

é meu oposto obscuro
meu gêmeo cintilante

é vertigem, abraço e luta

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Desatada

Minha veia secou, talvez tenha sangrado enquanto dormia, talvez tenha sido um susto, não sei. A palavra foi silenciada e me falta um pedaço do corpo que nem identifico: só sinto, latejante, a falta, a falta, a falta.

Acordei sem voz, a língua áspera e ressequida, boca salgada. O sangue corre lentamente, espesso e pouco. Desconfio que ali, na minha medula cansada, se produza o que me é vital, tanto quanto este sangue: a palavra.

Consola-me ainda ouvir meus pássaros, suas asas em revoada; consola-me ser o silêncio escuro preenchido por eles. É como se alguém me segurasse a mão e sua pele quente infundisse à minha calor e pulso.


Arquivado como:Dos pássaros, Prosa ,

Pássaro-rei

inventei que me acompanham
pássaros negros e brilhantes
um deles tem círculos
rubro ouro reluzentes
que em seus olhos fulguram
abrasados e penetrantes

tão reais que ouço o barulho
do passaredo em revoada
tão agudos, presentes
que no Sul ouviram
alto e claro
o som das suas asas

de todos, o que temo
é o altivo soberano
das retinas incendiadas
conduzindo o bando
brandindo o cetro fúlgido
esquivo e silente

em pálido sussurro
eu clamo
talvez seu canto
chegue ao teu ouvido
talvez ouças o chamado

mas permanecem cerrados
os brilhantes bicos
mudos como meus lamentos

eu sofro no escuro
eu sofro o ausente

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Fenix e Beatrix

de minhas desenganadas
entranhas
fez-se uma Beatriz
que me sorri e afaga
com seus olhos de oceano

pássaro de prata
traz do Mediterrâneo
a pungência do anis
e a vocação
que o nome designa
- aquela que faz feliz

ave canora encantada
que me dirige
e então salva
das chamas
e me faz sobreviver
ao que é meu dom e sina:
das cinzas
o eterno renascer

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Uns pássaros

Painel de Vitché, fotografado por Maína Junqueira, na rua dos Alpes, Cambuci.

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Passaredo

partimos em revoada
calados
descrença, desengano
e desilusão
sonhos, promessas
amavios e deslumbre

voamos em bando
eu e os pássaros
da lembrança
espectros do não
eu, eles e as aves
da esperança
todos irmanados

escolhemos o vento
a erosão
trovão e chuva
a tempestade
é nosso elemento

a quietude disfarça
o intenso
os gritos abafados
pelo silêncio

pelas ruas onde passo
seguem olhares
um dedo acusa
aí vai a doida dos pássaros

Arquivado como:Dos pássaros, Verso

Reunião

lua nova
prata lânguida esfera
encanta, ilumina
e revela
no vidro refletido
um vulto
seus olhos avisto

nasce da pupila
círculo de fogo
que rodopia, cintila
e fulge rubro
incandescente ouro
em meu corpo

o farfalhar do vestido
se mistura às asas
ecoa no ritmo
dos trôpegos passos
e desacertado pulso

ah!, pelas vidraças
brilham as sombras
negras opalas
penas e plumas
juntam-se meus pássaros

impressentido,
se fez o retorno

vou porta afora
abandono a casa
da vazia espera
sou filha da penumbra
e me conforta
o preto-azul do céu

estendo os braços
sou alada, aérea
e dançam nuvens
de aves escuras
à minha volta

impressentido,
se fez o retorno

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Receita

Deus (?) ajuntou um novelo vermelho de ansiedade, mais umas moléculas de água, pendurou umas proteínas, adicionou um par de ácidos graxos. Parou, coçou o queixo, franziu o cenho, decidiu inovar: enfiou no topo um tufo de cabelos de milho. E, como sina ou bênção?, decidiu que minha essência seria a do renascimento.

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  • Pronto. @bibinassif despachada. E eu me comportei linda e dignamente e nem chorei (não na frente dela pelo menos)...1 day ago
  • A piveta ansiosa @bibinassif finalmente no quase embarque. http://twitpic.com/plyoa...1 day ago
  • para matar a saudade daquele tempo: joy division. ian curtis, muito, mas muito antes e melhor que seus "herdeiros" new orders......2 days ago
  • why is it something so good/ just can't function no more? love. love will tear us apart again/ love, love will tear us apart again...2 days ago
  • do you cry out in your sleep?/ all my failings exposed.../gets a taste in my mouth/as desperation takes hold/...2 days ago


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